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quarta-feira, 5 de agosto de 2015

Morangos Mofados



A maioria dos livros que a gente coleciona nesta vida foi comprado, né? Pois há quem ache livro (gente sortuda), e há quem ganhe livros, o que é, quase sempre, uma forma de elogio. A depender do livro.

 A minha edição de Morangos Mofados tem uma estorinha muito curiosa. Primeiro que ela me foi dada, mas não pelo dono, e sim por alguém que a havia pego emprestada. E não foi colega, outra aluna, mas sim a professora da disciplina que eu cursava, nem me lembro direito, mas acho que era alguma coisa tópicos de teoria da literatura, com minha professora luxo Fernanda C. A professora das roupas, das bolsas e dos acessórios mais legais do curso de letras.

 Adendo: Engraçado que uma vez ouvi uma figurinha debochando dessa professora, dizendo que era ridícula e usava vestido de pano de prato. O detalhe curioso é que esta existência que fez tal comentário não tinha a menor noção de como se vestir. Era pior do que ter mau gosto, era não ter gosto algum.




 Mas voltando. 

 Um certo dia a professora veio falar comigo e me perguntou se eu conhecia Ronaldo, um menino que era dos primeiros semestres do curso, muito aplicado, afeito as literaturas, de cabelinho comprido, muito simpático. Confesso que de imediato não lembrei e devo ter feito uma cara assim, de quem não lembra. Infelizmente (ou felizmente, vai saber) sou dessas pessoas que deixa aflorar no rosto o que vai pela cabeça. Mesmo assim a professora me entregou o livro e disse, "se vir Ronaldo entregue, caso contrário fica pra você, parece com você o livro". 

 Aos poucos fui lembrando do Ronaldo. Era um querido de sorriso fácil, conversa boa. Não éramos amigos, mas trocávamos sorrisos e dicas de livros. Fazia tempo não o via. E fui procurar outras pessoas que sabiam dele e nada. No livro havia impresso o nome completo e endereço do Ronaldo, mas me avisaram que ele havia se mudado. Telefone ninguém tinha, muito menos celular. E foi passando, foi passando e aquela edição de Morangos Mofados ficou comigo de vez. 

 E, apesar de ser minha, esta edição bem diz que não é tão minha assim. Ao contrário de todos os meus livros, é encapada com papel contact e tem aquele impresso colado no fim da primeira página, com nome e endereço que nunca foram meus. Mas assinei meu nome por cima dia desses.




 Vez ou outro me perguntando por Ronaldo, se ainda tem cabelo comprido e aquele rosto feliz, de sorriso fácil. Se voltou ao curso de letras e, se ele pensa naquela sua edição de Morangos Mofados, do Caio Fernando Abreu. Se pensa que está em uma estante da casa da professora Fernanda, cercado por livros de teoria da Literatura. Mal sabe ele que está em minha estante, coladinho entre meus livros de Clarice (uma paixão em comum) e Ana Cristina César. 

 Bisous.

quarta-feira, 29 de julho de 2015

Drummond



Os dois livros de Drummond que constam na lista dos 100 livros essenciais da Literatura Brasileira são a Rosa do Povo e Claro Enigma, que eu amo e todo mundo que gosta um tiquinho que seja de poesia também ama. Mas Drummond deve ser apreciado como um todo, porque toda a sua obra poética é inestimável, porque Drummond é a própria poesia moderna brasileira.

Drummond era um poeta de inspiração infinita. Em suas poesias é possível identificar questões existenciais, mas também sentimentais, políticas, sociais. Como bom modernista, era poeta da simplicidade, mas que versava sobre o caos das cidades, versava sobre o novo e sobre o susto:  no meio do caminho.

E hoje é uma das poesias mais admiradas e conhecidas não apenas no Brasil, mas no mundo. A Rosa do povo, livro escrito entre 43 e 1945, tinha como cenário a Segunda Guerra Mundial e também as mudanças do Brasil de Vargas e o Estado Novo.

A Rosa do Povo a beleza aparece de tantas formas diferentes. Num determinado poema temos flor, perfume e natureza, em outro noite e morte. E tudo é simples e ao mesmo tempo profundo.

Tudo na poesia de Drummond aquece o coração, porque é compreensão, mesmo a compreensão do que está errado, porque no final há a esperança. Ler Drummond é estar sempre em contato com a vida  e todas as suas nuanças. 

Bisous.

sábado, 4 de julho de 2015

Mário de Andrade e o desvario



Mário de Andrade é daqueles escritores essenciais. Maravilhoso. Lembro que li Mário na escola, o Macunaíma mesmo e que o meu professor de português, genial, passou o filme Macunaíma com Grande Otelo para minha turma. Ah, os anos 90.

Já no curso de Letras, terminei de me desvairar pelo desvario de Mário modernista, ousado, versado. Mário oculto, Mário profundo, singelo, criador de anti-heróis e curador da nossa cultura. Não entendo quem ama literatura e não ama Mário de Andrade.

Nesse momento está acontecendo a Flip (Festa Literária de Paraty) que está homenageando Mário de Andrade. Por lá discutiram a homossexualidade do querido Mário. Bem, não sei se ocorre a todos os leitores, mas sempre soube disso. 

Sobre Mário é necessário que se fala de muita coisa, mas o certo é que não se pode deixar de falar de Macunaíma. Livro danado, que apresenta um “herói” cheio de contradições, provocações, com diversas falhas, malandragem, safadeza. Um herói que nasce da sujeira interna do ser humano e que se transforma, na viagem da arte, em algo ainda mais insano ou desvairado. A transformação do “herói”, negro nascido, em um branco, padrão social, é antológica e um marco cultural. Macunaíma é um menino mentiroso, traidor, pratica muitas safadezas, fala muitos palavrões, além de ser extremamente preguiçoso.

Inté.

quarta-feira, 20 de maio de 2015

Eu. Augusto dos Anjos e a empatia



Eu fui uma adolescente muito esquisita. Primeiro, eu era bem diferente de quase todos os que eu conhecia que eram mais ou menos da minha idade. Eu, por exemplo, odiava forró. E música sertaneja, que todos amavam e, que por sinal, teve o início de sua fama no período da minha adolescência; coisas como 'é o amor' eram cantadas aos berros pelas esquinas no meu bairro, enquanto eu ouvia no meu toca-fitas Smiths e The Cure. Pois é. E lia Augusto dos Anjos.

Numa dita aula de inglês, sei lá por quê, o professor recitou Psicologia de um vencido, par cœur, e eu me identifiquei profundamente. Eu devia ter uns 14 anos. E lá se vão vinte e quatro anos de amor incondicional por Augusto do Anjos.


Eu, filho do carbono e do amoníaco, 
Monstro de escuridão e rutilância,
 Sofro, desde a epigênese da infância, 
A influência má dos signos do zodíaco. 

 Produndissimamente hipocondríaco, 
 Este ambiente me causa repugnância... 
 Sobe-me à boca uma ânsia análoga à ânsia 
 Que se escapa da boca de um cardíaco. 

 Já o verme — este operário das ruínas — 
Que o sangue podre das carnificinas 
 Come, e à vida em geral declara guerra,

 Anda a espreitar meus olhos para roê-los, 
 E há-de deixar-me apenas os cabelos, 
 Na frialdade inorgânica da terra!

Leiam.

Bisous.

quarta-feira, 13 de maio de 2015

Escrava Isaura e o vampirismo



Salvo engano, foi o primeiro livro de literatura que li sem versões adaptadas. A bem da verdade, acredito que nem tive contato com versões adaptadas durante o colégio. O mais perto disso, que não era perto, foi a maravilhosa e saudosa Coleção Vagalume, a primeira versão de paradidáticos brasileiros, que são livros feitos para se ler durante a escola, com temas que se aproximassem do público alvo, adolescentes do ginásio e segundo grau, o nome antigo para fundamental e ensino médio.

O livro é chato. Eu acho chatinho e não, eu não sinto pudores em falar que acho sim o livro de Bernardo Guimarães um porre. Aquela escrava "branca" criada como uma criatura perfeita, como fidalga, sofrendo a perseguição do Leôncio do capeta, ai que saco. Contudo, é um livro essencial de nossa literatura, porque marca bem os hábitos e concepções românticas de alguns autores, tal quais Bernardo Guimarães.

E as novelas? Assisti as duas versões, a da Globo com e a da Record. SPOILER: No livro o Leôncio tira a própria vida, diferente da novela que inventam um assassino, para acentuar a dramaticidade  coisa e tal. 

Na imagem uma versão no mínimo desrespeitosa, mas engraçada: A Escrava Isaura e o Vampiro. Sinto uma certa curiosidade mórbida em relação, não posso negar. Um dia haverei de ler e sei que odiarei rs.

Bisous.

quarta-feira, 22 de abril de 2015

A Paixão e os Laços de Clarice Lispector



Perto do Coração Selvagem é o romance que inicia a carreira de Clarice, publicado em dezembro de 1943. Apesar da boa recepção da crítica, premiado e tudo, houve um certo levante de vozes, ao começar pelo o "epíteto" da autora, Clarice Lispector: "essa autora de nome desagradável". Mal sabia o crítico em questão que era o nome da Clarice mesmo. Isto é citado naquela entrevista, famosa, a última entrevista de Clarice.

 O livro é sobre Joana, que narra sua história em dois planos, a infância e o início de sua vida adulta, através de uma fusão temporal entre o presente e o passado. O interessante e extraordinário é a geografia interior de Joana. Aquela coisa da revelação que permeia todos os escritos da Clarice, porque viver é revelar-se, ainda que seja para si mesmo. Deixar-se ser.

 Há quem diga que o título é uma referência à epígrafe de James Joyce ("Ele estava só. Estava abandonado, feliz, perto do selvagem coração da vida"), que ela, obviamente negava.



Laços de Família e suas 13 narrativas encontramos temas recorrentes, que explicam o título do conjunto os conflitos da vida familiar e suas implicações sentimentais - ressentimentos, incertezas, amores, desconfianças, segredos e os planos de felicidade.  

Em Devaneio e Embriaguez de uma Rapariga uma mulher (uma portuguesa moradora do Rio) que deixa de lado seus afazeres; O Amor, uma dona de casa que se aflige quando fica sozinha em casa, longe do marido e dos filhos: sua vida interior, seus sentimentos verdadeiros, surgem quando ela se depara com um cego em um bonde; Em Uma galinha, a protagonista é a ave que, invariavelmente, está na mesa dos brasileiros aos domingos. Ela foge do abate para não virar o almoço de domingo de uma família e, ao botar um ovo e chocá-lo na fuga, é poupada temporariamente e se torna respeitada (?); A Imitação da Rosa, a insegurança e a fragilidade extrema de Laura, que hesita em enviar um buquê de rosas a uma amiga e reflete profundamente sobre este ato; Feliz Aniversário, uma mulher de 89 anos no dia do seu aniversário lamenta a mediocridade e as convenções da família e aguarda a morte; A Menor Mulher do Mundo as observações de um pesquisador francês sobre uma pigméia grávida; O Jantar, um homem que vê outro comendo em um restaurante e descreve suas sensações;  Preciosidade, uma menina de 15 anos que, antes fechada e avessa às pessoas, muda bruscamente de comportamento; Laços de Família, a distância e a frieza entre mãe e filha, genro e sogra e pai e filho em uma família típica; Começos de Uma Fortuna, a preocupação de um garoto em empregar seu dinheiro para enriquecer e sua conversa com o pai;  Mistério em São Cristóvão, as visões de uma menina depois de um jantar em família; O Crime do Professor de Matemática, um homem que é convencido pela família a abandonar seu cachorro quando tem de mudar de cidade; O Búfalo, uma mulher que, depois de ser deixada por alguém, tenta encontrar o ódio no olhar de algum animal no zoológico, mas reconhece apenas o amor neles em plena primavera - ela estaria presa, e os animais, livres.

 O que une esses contos, além de relações familiares, além dos momentos de catarse é a coisa que a crítica clariceana chamou de "o instante decisivo", que é o momento em que o personagem se encontra com a razão da própria existência e enfrenta a necessidade de uma mudança abrupta de ação ou de pensamento. 

Leiam Clarice.

Inté.

sábado, 18 de abril de 2015

A Taverna e a Lira de Álvares de Azevedo



Quando li Álvares de Azevedo pela primeira vez, eu era muito jovem, bem mocinha, mal completos quatorze anos, ávida por literatura romântica, ainda mais com doses góticas, como o era a Lira do Álvares de Azevedo. Minha relação com o autor e a obra era de tamanha ingenuidade e identificação, que me vi enamorada por suas idealizações e passei alguns anos assim, suspirando nos peitoris da minha casa, implorando que algum parente morresse para ir ao enterro no São João Batista, local adequado para ler algum poema dos Vinte anos.

Bobo, né? Pois é.

Ao lermos a obra de Álvares de Azevedo, sem a maturidade devida, o que parece saltar aos olhos é a escrita dum adolescente e suas questões ingênuas, que deixam antever a imaturidade de um escritor marcado pela morte precoce. O amor à mulher inacessível, que transforma a relação do eu-lírico com a figura feminina em algo que extrapola a realização possível, e a consequente inexperiência sexual, relacionada também a uma permanente tensão moral entre o desejo erótico e a idolatria à pureza imaculável da musa. Mais tarde, algum professor toca no assunto do mal do século e da influência de Lord Byron.

Hoje professora de literatura brasileira, depois de ler Sílvio Romero, os escritos de Bandeira e Mário de Andrade sobre o Romantismo, e da Formação da Literatura Brasileira por Antonio Candido,  Álvares de Azevedo é outro pra mim. Mesmo que a associação com o São João Batista e a leitura de seus poemas sob uma castanheira ainda me divirta, de fato, hoje observo Álvares de Azevedo como resultado de sua condição e sensibilidade juvenis. Uma leitura entre a vida do poeta e sua obra é quase obrigatória, porque é um forte vínculo. Como se considera a poesia de Azevedo uma poesia de adolescente, natural que seja também uma poesia de cunho autobiográfico, que expresse as angústias dessa fase da vida. 

"E sabemos que se a obra de um clássico prescinde quase por completo o conhecimento do artista que a criou, a dos românticos nos arrasta para ele, graças à vocação da confidência e a relativa inferioridade do verbo ante a insofreada necessidade de expressão" (CANDIDO, 1981, p. 178).

Bisous.

Imagem: Dum Flickr incrível.


sábado, 11 de abril de 2015

O Cortiço



Quem me conhece, e conhece minhas preferências literárias, sabe que não tenho grande bem querer pelo Naturalismo. Na verdade não tenho bem querer algum por essa estética. Mas, sinto admiração, como projeto literário, porque foi uma danada duma empreita. Contudo, em termos de naturalismo brasileira meu fôlego se refaz.

Quando li o Cortiço pela primeira vez, eu me lembro de sentir um embrulho na boca do estômago, especialmente por dó da pobre Bertoleza. Aquele português nefasto e a maneira como as pessoas são desumanizadas naquele cortiço, que é tão vivo em sua escatologia, que ganha forma e quase estruturação de personagem ipsi literis.

Mas, de todas as obras naturalistas que li, a menos naturalista, no meu ponto de vista ao menos, é justamente o Cortiço e, por isso, mais palatável. É interessante reparar que o livro de Aluísio Azevedo não segue fielmente a teoria do romance experimental de Zola, não há apenas o homem preso às leis físico-biológicas ilustradas por personagens animalizados. Mas o cortiço se personifica, transformando-se quase numa personagem, contudo, de interação ou observação, sem engolir ou mesmo anular o conjunto humano e  sua individualidade.

Temos as mulatas faceiras, o português escroque, a única que parece evanescer é a pobre negra Bertoleza, a quem o meu coração pertence, em termos de Cortiço. A morte por suicídio meio que para eximir o branco explorador João Romão, é quase que um paradigma, uma sentença, de que o fim de todo negro seria aquele, a morte de maneira execrável, por abandono e exploração. O que ficaria seria a herança da mestiçagem faceira e esperta.

O cortiço narra a aventura do enriquecimento individual, mas essa narração não acontece de modo objetivo, mas sim patológico e constitui um julgamento moral do personagem João Romão, o português escroque, que protagoniza esse enredo como o explorador que consegue se tornar, a partir da apropriação da pedreira, da estalagem e da taverna, o eixo central em torno do qual todo dinheiro circula. Esse ganhador de dinheiro profissional emprega trabalhadores, pagando-lhes salários miseráveis; dinheiro que volta para suas mãos em forma de aluguéis de quartos e de cômodos precários e como pagamento pelos víveres consumidos em sua venda. Cria-se, assim, uma convivência íntima entre explorador e explorados, fenômeno possível graças ao estágio primitivo da economia acumuladora vivida então pelo Brasil colonial. E se podemos ainda reconhecer a validade da estratégia de zoomorfização tão ao gosto naturalista, acredito que ela resulta antes da redução do trabalhador explorado à condição de animal de carga (Bertoleza) do que da miscigenação e da natureza tropical.

O significado que O Cortiço alcançou ao longo dos anos decerto mudou. O que me chegou faz pouco tempo, depois de anos sem revisitá-lo, o que fica é a imagem contundente da miséria e da exploração humanas.

Inté.

Imagem: Foto do antigo Cabeça de Porco que foi o maior cortiço do Rio de Janeiro. Conta-se que Aluísio Azevedo morou no cortiço num misto de necessidade (o escritor maranhense era muito pobre) e laboratório experimental para sua empreita literária. Inimigo dos cortiços, o prefeito higienista Barata Ribeiro mandou derrubar o famoso Cabeça de Porco em 1893. Na década seguinte, o prefeito Pereira Passos promoveu reformas urbanas no processo conhecido como “bota abaixo”, demolindo muitos sobrados. Os desalojados migraram para outros cortiços ou para as primeiras favelas da cidade, construindo barracos com a madeira da demolição. Aliás o nome favela vem de Canudos. que foi fundada no Morro da Favela. Favela é uma planta típica daquela região da Bahia. Os soldados que combateram Canudos eram muito pobres, a maioria morador de cortiço, quando voltaram da guerra, os cortiços não existiam mais, daí receberam "como prêmio" começar tudo de novo nos morros, que apelidaram de favela, em homenagem à favela original. 

Post Scriptum: Descobri que minha edição de O Cortiço sumiu, na verdade emprestei e a pessoa "esqueceu" de me devolver. E era ma edição bem simpinha da editora UFC. Ou seja, minha próxima aquisição. Já contabilizei 25 livros meus que "sumiram" nessa coisa de emprestar e nunca devolverem.

quinta-feira, 2 de abril de 2015

Guarani e Lucíola de José de Alencar



Continuando as resenhas sobre os 100 Livros Essenciais da Literatura Brasileira, passamos para José de Alencar que, como sempre afirmo, amo muito e parece que estou sozinha nesse meu amor, porque se existe uma verdade sobre leitores da literatura brasileira, é que José de Alencar é odiado entre esses leitores. E não leitores. Sim, porque é muito comum a criatura humana nem ao menos ter lido nada de José de Alencar, ou mesmo ter lido meia dúzia de páginas, e já declarar o seu ódio para vida toda.

E por que disso? Porque faz umas gerações que José de Alencar é vítima de professores de literatura ruins, que ensinam os alunos a temerem sua escrita descritiva, os adjetivos e a linguagem poética. Fora que Alencar ainda carrega o peso do nome, de uma família política que à época fazia oposição ao Império, e por conta disso, houve toda uma espécie de boicote aos seus escritos, mais tarde associados à elite, como um escritor reacionário e de direita. E parece que isso passou de geração em geração. Tudo bem que o Romantismo é a estética da burguesia, mas José de Alencar está acima dessas querelas.

Aos livros.



Guarani é um romance de sua fase indianista, em que o índio é idealizado conforme os ideais românticos. Peri é praticamente um cavaleiro medieval de penachos. Peri e Cecília, respectivamente um índio e a filha de um fidalgo português da época do Brasil recém-descoberto. Peri é um índio com características heróicas que, por ter salvo Cecília da morte, ganha a confiança de sua família. Porém a casa do pai da moça é atacada por selvagens, pois o irmão de Cecília acidentalmente mata uma selvagem e Peri faz de tudo para salvá-la, não só disso, mas também do pavoroso Loredano, um ex-padre que cobiça a moça para si. No final, Peri foge com Cecília para salvá-la e os dois ficam vivendo na mata, formando o povo brasileiro (que nem Iracema e Martins do livro Iracema). É só isso? O enredo em si é. Os livros da fase indianistas são uma fofura, cheios dos ideais românticos que me agradam como empreita artística. Peri, gente. Todos querem Peri, um fofo.

Já Lucíola é um típico romance urbano, de folhetim, José de Alencar era mestre em romances de folhetim. 

O que é romance de folhetim, Tia Lilibete? Romance de folhetim  era um romance (ou novela, livro de contos) que saía em fascículos (ou folhetins) nos semanais do jornaleiro. Pois é, os livros saíam em capítulos, uma vez por semana. Lembra um pouco o capítulo das novelas de televisão, mas só na coisa da espera, não há meios de se comparar em outra esfera. 

Mas voltando: Lucíola, ou Lúcia ou Maria da Glória (o nome Lucíola vem de uma espécie de vagalume e para saber mais, leia o livro, seu lindo, e verá José de Alencar descrever o porquê). Lúcia é o nome de cortesã da nossa protagonista. Sim, ela era uma espécie de prostituta de luxo, rameira, puta, se preferirem. Uma puta entediada. Adouro. Ela faz coisas bem feinhas, tipo, jogar dinheiro aos pobres e, enfadada, observá-los brigando pelo dinheirinho. Ou quando ela vai consumar o ato em meio a natureza ou, "dar uma" na moitinha. Sim minha gente, José de Alencar. Vocês não sabem o que estão perdendo rs. 

Óbvio que, como obra do Romantismo, nossa protagonista de caráter duvidoso tem um porquê, tem a irmã coitadinha que ela sustenta, sua vida foi uma desventura só, tadinha. Faz parte, gente. É Romantismo. E, tem o lado da crítica social que José de Alencar já está por ali, pincelando um olhar, quase Realista. Mas Lúcia se arrepende, feito Madalena arrependida, que se redime. Para mim, Lúcia será sempre a quenga maravilha, a mais rica da cidade, que gastava todo o dinheiro dos maridos das mulheres de bem. 

Leiam José de Alencar, minha gente. Mas leiam de verdade.

Inté.

quinta-feira, 26 de março de 2015

Memórias Póstumas de Brás Cubas



Como prometido, volto para começar as resenhas sobre os 100 livros essenciais da literatura brasileira e, começando com um dos meus livros favoritos da vida toda, dos autores favoritos da vida toda, Memórias Póstumas de Brás Cubas de Machado de Assis.

Vamos ao enredo.

 Antes de qualquer coisa a gente pode afirmar que Brás é um pulha, uma criaturinha parca, de mente médio burguesa, quase uma metáfora do rico inútil da burguesia brasileira (mas poderia ser um burguês de qualquer lugar e qualquer época). 

A infância de Brás Cubas, representante da sociedade patriarcal brasileira da época, é cheia de privilégios e caprichos patrocinados pelos pais. Tinha uma criança negra como brinquedinho, o Prudêncio, que era humilhado, servindo de cavalinho. O horror. A partir daí você já pega nojo no Brás Cubas (e aí já temos um elemento para desmentir quem acusa Machado de não falar contra a escravidão). Na escola, Brás era amigo de traquinagem de Quincas Borbas, que aparecerá no futuro (no livro homônimo Quincas Borba). Na juventude, as benesses ficam por conta dos gastos com a prostituta de luxo Marcela a quem Brás dedica a célebre frase: “Marcela amou-me durante quinze meses e onze contos de réis”.  Tudo bem que durante a narrativa em momento algum é citado que Marcela é prostituta. Mas ela é. Está subentendido. Machado utiliza a ironia e o eufemismo para que o leitor capte o significado. 



 Apaixonado por Marcela, Brás Cubas gasta enormes recursos da família com festas, presentes e toda sorte de frivolidades. Seu pai, para dar um basta à situação, toma a resolução mais comum para as classes ricas da época, manda o filho para a Europa estudar leis e garantir o título de bacharel. Brás Cubas, no entanto, segue contrariado para a universidade, sem nem ao menos um tchauzinho de Marcela. Em Coimbra, a vida não se altera muito. Com o diploma nas mãos e total inaptidão para o trabalho, Brás Cubas retorna ao Brasil e segue sua existência de verme parasita, gozando dos privilégios dos bem-nascidos do país. Tem seu segundo e mais duradouro amor, Virgília, parente de um ministro da corte, e aí nosso Brás via no casamento com ela um futuro político. No entanto, ela acaba se casando com Lobo Neves, que arrebata do protagonista não apenas a noiva, como também a candidatura a deputado que o pai preparava. A família dos Cubas, apesar de rica, não tinha tradição, pois construíra a fortuna com a fabricação de cubas e tachos e isso não era legal, bacana e limpinho no mundo das aparências sociais. Assim, a entrada na política era vista como maneira de ascensão social, uma espécie de título de nobreza que ainda faltava a eles. Lembrando que isso tudo é narrado do "além", porque Brás Cubas está morto. 

Meu querido Professor Linhares Filho falava que a morte de Brás na verdade era uma morte moral, que o personagem já vivenciava mesmo em vida. Mas refletindo sobre Brás Cubas, depois da enésima releitura, esse 'não lugar' que Brás Cubas ocuparia, essa isenção por estar morto, a completa objetividade por conta do distanciamento no além vida, não existe. Brás Cubas está todo o tempo em que narra sua vida, banhado em subjetividade, guiando a nossa leitura através de juízos de valor. O defunto parece mais um elemento cômico e irônico. Não estaria toda essa gente burguesa e vazia, de alguma forma, morta? Pois é.

A gente sempre aprende algo todos os dias, mesmo que não queira. Houve tempo, anos atrás, que eu achava que, naquela altura da minha vida, já sabia tudo, ou quase tudo, que haveria de saber sobre Memórias Póstumas de Brás Cubas. Ledo engano. Livros incríveis, como é o caso do Brás Cubas, sempre nos mostram algo novo toda vez que são relidos. E essa foi a minha mais nova reflexão sobre Memórias Póstumas de Brás Cubas.

Mais sobre Machado.

Inté.


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