quinta-feira, 19 de janeiro de 2017

Stranger Things ❤



Eu sou uma tia véia de 40 anos, cujo passa-tempo favorito é (re)assitir filmes e séries queridas na tv por assinatura e no crush de nós todos, NetFlix (sua linda). Assisti de tudo, desde série ruim, tipo Arrow só para construir uma opinião, até coisas ruins divertidas, tipo Supernatural, chegando a cosias incríveis que abalam asa estruturas, como Westworld. E, sinceramente, Stranger Things está entre as melhores coisas que já assisti nos últimos tempos.
Se você está entrem os 30 e 40 poucos anos de idade, provavelmente já viu essa série antes. Provavelmente com outra forma e outro nome, provavelmente quando era criança ou adolescente. E possivelmente, ela marcou a sua juventude e você nunca esqueceu dela. Stranger Things, série Netflix, é um misto de tudo aquilo que deixou saudades nos anos 80. Há um bocado de Goonies ali, muito de E.T, um pouco de Conta Comigo e It, e uma pincelada de Amazing Stories. Um desfile de referências, citações, lembranças e memórias, que ao mesmo tempo são queridas e embaraçosas se juntando para formar um programa imperdível. 

 Não é de hoje que a indústria do entretenimento se rendeu à nostalgia pura e simples. Filmes, desenhos, séries de televisão remetem diretamente à chamada "década perdida". Guerra nas Estrelas está de volta, Mad Max e os Caça-Fantasmas também. Os ícones dos anos 80 nunca foram tão atuais e voltaram a fazer a alegria de quem viveu essa época mágica. Embora na maioria das vezes a exploração da nostalgia leve a repetições um tanto batidas que não chegam aos pés do original. Mas em certas ocasiões, surge algo inspirador. Nesses casos, aparece algo que nos faz embarcar naquele proverbial "túnel do tempo" e coloca um sorriso em nossos rostos. Stranger Things recai na última categoria. 

Seus criadores conseguiram parir uma estória de suspense sobrenatural, como as que Stephen King e Steven Spielberg conceberam no auge de sua criatividade. Junte a isso um elenco extremamente carismático e um roteiro afiado, daí temos, possivelmente, uma das melhores séries do momento, com possibilidades reais de ficar na história. Não, não é exagero! Se você assistir o primeiro episódio de Stranger Things, há muitas chances de se ver fisgado e querer assistir do primeiro ao último sem pausa. 

 Mas o que torna Stranger Things imperdível? Primeiro, a tal nostalgia que ele invoca. Os anos 80 estão em todo canto. Os jovens heróis, um grupo de perdedores afligidos por bullies e membros do Clube Audio-Visual estão sempre andando de bicicleta pelas estradas de uma cidadezinha no interior dos Estados Unidos. Eles são melhores companheiros, colegas de escola que se apoiam nos bons e maus momentos. A trilha sonora, recheada de hits oitentistas se alterna com o som de sintetizadores reminiscente dos primeiros (e melhores) filmes de John Carpenter. O título de cada episódio vem no formato de letras usadas nos romances de Stephen King. Posters de filmes que marcaram época: Tubarão, Evil Dead e The Thing, emolduram as paredes. A menção a Uncanny X-Men #134 - O Despertar da Fenix! - é disfarçadamente enfatizado. Tudo está ali por uma ótima razão: apelar para suas mais queridas lembranças. A série parece mirar em cheio no coração de nerds e geeks (eu rs) de meia idade. Porém, mais do que ser um tributo a nossas memórias, a série é muito bem feita. Ela conta uma estória bem engendrada e mantém acesa a curiosidade da primeira à última cena. O que vai acontecer com os garotos? O que provocou o desaparecimento de um deles? Que tipo de experiências estavam sendo realizadas em segredo? O que são as criaturas que vagam pela cidade? Perguntas que vão se acumulando e que lentamente vão sendo respondidas ao longo dos oito episódios. 



Alerta de spoiler! Não leia a partir daqui.

 O roteiro foca os acontecimentos na vida de quatro amigos; típicas garotos dos anos 80, meninos de 10-12 anos que crescem imersos na cultura pop, citando Star Wars e Senhor dos Anéis de cabeça, rindo de seriados idiotas e rolando dados nas noites de domingo, derrotando hordas de trogloditas com bolas de fogo e temendo ira de Demogorgon. Mike Wheeler (Finn Wolfhard), Dustin Henderson (Gaten Matarazzo), Lucas Sinclair (Caleb McLaughlin) e Will Byers (Noah Schnapp) são amigos inseparáveis ao menos até que algo muito estranho acontece a Will logo após uma partida noturna de D&D. Ao voltar para casa, Will cruza com uma criatura bizarra em uma estrada escura. Atordoado pela visão assombrosa, ele tenta se proteger buscando refúgio em sua casa. Mas a coisa continua a persegui-lo e em meio a gritos, ele desaparece sem deixar vestígios. É esse o fio condutor da trama, o momento em que um dos quatro intrépidos amigos some, fazendo com que os demais se juntem para descobrir o que aconteceu e tentem trazê-lo de volta, custe o que custar. A medida que as buscas na floresta resultam em frustração, os amigos encontram uma menina aterrorizada e esta passa a fazer parte de seu grupo. Logo fica claro que a garota de cabelos raspados e tatuagem de um 011 no braço, apelidada de Eleven ou El (interpretada pela genial atriz mirim Millie Brown) é mais do que se poderia imaginar. Ela possui estranhas capacidades psíquicas e habilidades telecinéticas que vão remeter a Carrie, Scanners e outros clássicos sobre o tema, não por acaso, todos dos anos 80. 

Eleven passa a se esconder no porão da casa de Mike, da mesma maneira que os garotos de E.T. escondiam seu amigo espacial. É claro, o surgimento de Eleven e o desaparecimento de Will estão de alguma forma conectados e caberá aos garotos descobrir a solução do enigma. A garota é a chave para solucionar o mistério, mas seus poderes são ao mesmo tempo uma benção e uma maldição. Usá-los sem cuidado pode ser muito perigoso e trazer sérias consequências. Muitos sustos, paranoia com a Guerra Fria da Era-Reagan e situações inusitadas vão sendo apresentadas em um rítmo que jamais soa exagerado apesar das muitas reviravoltas. Mas os garotos não estão sozinhos em meio aos acontecimentos extraordinários, sinistros e estranhos que parecem sacudir a pequena Hawkins, uma cidadezinha fictícia no interior de Indiana. 

Há personagens coadjuvantes muito interessantes que ajudam a conduzir a trama. A mãe de Will, Joyce Byers (vivida pela maravilhosa Winona Rider, outro ícone da década de 80 dos filmes de Tim Burton) se mostra disposta a tudo para reaver seu filho, até mesmo colocar sua própria sanidade à prova e aceitar que há coisas inexplicáveis no mundo. As cenas em que ela se nega a aceitar a morte do filho e descobre como se comunicar com ele através de luzes de Natal são de arrepiar. Jonathan (Charlie Heaton), o irmão mais velho de Will lidera o núcleo dos adolescentes em Stranger Things. Acompanhado de Nancy (Natalia Dyer) a irmã mais velha de Mike, eles também buscarão respostas para outro desaparecimento misterioso e para o avistamento da mesma criatura na floresta próxima. Há ainda o Xerife Hopper (David Harbour), que não aceita a perda da filha e que tem motivos pessoais para resgatar Will e descobrir qual a ameaça que paira sobre Hawkins. Todos eles iniciam suas buscas pela verdade isolados, mas aos poucos suas descobertas irão convergir para um mesmo ponto. Uma boa série obviamente precisa de um vilão de peso e este papel é sustentado pelo Dr. Martim Brenner (Matthew Modine), o sinistro Diretor de um Instituto de Pesquisas que trabalha para o governo norte-americano. A sede do Departamento fica nos arredores de Hawkins e lá dentro, protegido por muros altos e câmeras de segurança, experimentos muito estranhos são realizados. 

O roteiro acena para as experiências MKULTRA que agências governamentais teriam patrocinado durante os anos da Guerra Fria. O estudo do psiquismo, telecinese, manipulação mental, hipnose e outras modalidades de experimentos de vanguarda, quase todos extremamente anti-éticos, realizados em segredo já que poderiam dar uma vantagem sobre os inimigos soviéticos. Ao contrário dos agentes federais de E.T. (armados com walkie talkies) os bandidos em Stranger Things não estão nem aí para ferir a sensibilidade dos espectadores. Eles fazem de tudo para acobertar suas ações, inclusive manipular provas, enganar as autoridades e assassinar testemunhas. Considerando as coisas bizarras com que eles estão envolvidos, todo cuidado é pouco! E os experimentos do Dr. Brenner são bastante perturbadores. 

Investindo em um clima soturno e acontecimentos inexplicáveis com o intuito de nos impressionar, a série é bem mais do que monstros assustadores saltando na tela. Em muitos momentos lembra a proposta original de Arquivo X, assustar sem jamais mostrar além do necessário. Concentrando-se no mal que o próprio ser humano é capaz de causar, a série consegue sucesso em nos chocar muito mais. Além disso, em momento algum os recursos modernos de CGI ficam acima da narrativa como acontece, por exemplo, em Super 8, um filme que bebe da mesma fonte (e que por pouco não fez com que o projeto Stranger Things fosse abandonado anos atrás). Contudo, o maior mérito de Stranger Things se encontra no seu excelente elenco, sobretudo a química e cumplicidade estabelecida entre as estrelas mais jovens. Pode contar como certo que ao menos duas ou três dessas crianças vão acabar se tornando grandes astros da televisão e do cinema. Sem exagero, é possível dizer que o elenco infantil é a melhor reunião de jovens talentos em muito tempo, com atuações dignas de veteranos. Cada personagem tem a sua oportunidade de brilhar e dizer a que veio, nenhum soa forçado ou destoa. 

 Os temas centrais envolvendo amizade, mortalidade e responsabilidade coletiva são muito bem explorados e passam sua mensagem. Em termos simples, Stranger Things é sensacional, com um profundo senso de respeito e entendimento dos gêneros em que transita com incrível naturalidade, do drama para o suspense, do horror para a ficção-científica sem nunca perder o pique. Muita gente se pergunta se a série não passa de uma "modinha" e se os elogios a ela, que tomaram conta da internet, não estariam hiper-dimensionados. Francamente, na minha modesta opinião Stranger Things é tudo aquilo que estão falando. Uma série empolgante que faz você querer assistir episódio após episódio, como se fosse um romance de mistério que o obriga a virar as páginas ansioso por saber o final contido no último parágrafo. Se há algum problema com a série, se é que podemos chamar de problema, é que vamos ter de esperar pela segunda temporada e torcer para que ela seja tão boa quanto a primeira.



Inté.

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