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sábado, 26 de junho de 2021

As melhores adaptações de Stephen King - filmes

 E começando essa postagem logo de cara com um título que é uma metonímia meio uó, provando a falta de apego da professora de português aqui. 

Demorou um pouquinho pra que eu arranjasse tempo e vontade de escrever. Sabe como é, final de semestre, provas da escola, revisões que eu inventei de fazer, reação à AstraZeneca (parem de escolher vacina, vacinem-se com o que tiver) e um monte de streamings que precisavam ser assistidos, alguns livros recém comprados que precisavam ser lidos, essas coisas. Mas até que eu nem demorei tanto, né? Pois é.

Deixando de embromação, vamos logo ao que interessa, os melhores filmes baseados ou adaptados da obra de Stephen King.

Se, por acaso, você chegou até aqui e não sabe quem diabos é Stephen King, ok, não tem problema nenhum, eu digo pra você! Stephen King é um dos maiores escritores vivos de ficção científica e terror, muito provavelmente você já assistiu alguma coisa justamente inspirada na obra dele. Duvida? Confere a lista então.

Dito isso, vamos aos filmes!


Carrie de Brian de Palma



De 1976, já falei do filme por aqui, procura que você encontra. É a melhor versão dessa que foi a primeira história de Stephen King publicada e que deu início à sua carreira de sucesso. Ele já escrevia antes, muito antes, mas nunca dera certo, até ele acertar o tom certo da pobre garota vítima de bullying e de uma mãe maluca cristã (eu realmente nem sei qual é o pior dos dois estágios de flagelo, ser vítima de bullying ou sofrer o terror do fundamentalismo religioso). A direção e roteiro conduziram tudo no tom certo e, a minha xará, Elizabeth Spacek, ou Sissy Spacek, encarnou a Carietta White com perfeição. As outras adaptações são ruins, e a de 2013 é a pior de todas. "Pior do que aquela que a Carrie é vesga?" Sim, muito muito pior.


O Iluminado (desculpa, Stephen) 



Por que desculpa? Ora, porque simplesmente Stephen King odeia essa versão pro cinema de uma das suas obras mais conhecidas. Acho até que ele não é muito fã, porque justamente essa adaptação, do genial Stanley Kubrock, tornou a obra célebre. É até comum a gente falar "O Iluminado do Kubrick" e não o 'Iluminado do Stephen King". É osso, né? Eu entendo. Mas, o filme é muito bom, traz todos os elementos fílmicos do Kubrick, inclusive suas "adaptações", que mudaram significativamente o enredo. Contudo, apesar de que o filme é realmente uma obra prima do terror psicológico, o livro é melhor.


À espera de um milagre



Uma linda adaptação, bem ao gosto de Hollywood, com elenco estrelado e tudo. Sem dúvida uma das melhores realizações baseadas na obra do King e traz alguns daqueles elementos de sua obra que nos cativam, o elemento humano um primeiro plano, em todas as suas baixezas e grandezas. Um lindo trabalho de Frank Darabont, que se repete em outra adaptação,


O Nevoeiro



Talvez seja o filme mais terrorzão que melhor foi adaptado (eu sei o que vocês estão pensando... "e o It?" Gente, o It só prestou mais ou menos o I, o II é uma comédia com efeitos ridículos), conta com metade do elenco da série The Walking Dead, no tempo que a gente amava The Walking Dead e novamente, os elementos humanos são o destaque. Óbvio que as criaturas abissais, bem ao gosto terror cósmico, as mortes pavorosas também estão lá, mas é  nas relações humanas, pro bem e pro mal, que a história se baseia (como The Walking Dead do Kirkman!), e é por isso a gente gosta.


Conta comigo



Pra resumir, eu diria que é uma gracinha tensa e, por vezes, nauseante. Lindas interpretações do elenco infantil à época e uma linguagem fílmica bonita. Tem aquele sabor dos escritos de Stephen King, aquele gosto de tristeza que a gente fica, invariavelmente, quando termina uma história dele. Porque até quando parece que acaba bem, não acaba bem. O filme capta isso bem direitinho.


Misery


Eu me recuso a usar o nome em português, que parece mais tema de pornochanchada. Não tenho certeza, mas acredito que seja o único filme baseado na obra do King que ganhou prêmio grande, tipo, um Oscar de melhor atriz pra Kate Bates, merecidíssimo, diga-se de passagem. "Ah, mas ganhar Oscar não quer dizer nada". Não, imagina, só um monte de dinheiro, notoriedade, ou seja, tudo no que se baseia a indústria de cinema estadunidense, só isso mesmo. Todavia, Misery é muito mais do que isso, uma excelente história de sociopatia e terror psicológico conduzido com maestria pela força de interpretação da Kate Bates e de James Caan dando vida ao Paul Sheldon e que já havia conquistado todos os cinéfilos fãs de cinema clássico com seu  Sonny Corleone em o Poderoso Chefão (eu, particularmente, o adoro em Elf, como o pai justamente do Elf - Um Duende em Nova York - especialmente porque corre à boca pequena que ele odiava contracenar com o maravilhoso Will Ferrel, o nosso querido Elf, que é elfo e não duende... adaptações ara o português, vai saber, né? Eu acho que o James Caan tem um gênio parecido com o do Sonny Corleno mesmo. Ou o Paul Sheldon no final de Misery).


A Hora da Zona Morta



Eu sou uma fã muito fuleira, porque eu simplesmente descobri o filme agora em 2021, e o filme é de 1983" Dirigido por David Cronemberg (Sacnners, Videodrome, A Mosca) e estrelando como Johnny Smith, Christopher Walken. O filme segue o enredo de maneira quase perfeita, com todo aquele ar dos filmes oitentistas do Cronemberg, que sabe arrepiar, sabe revoltar e sabe entristecer. 


E esses são os meus favoritos, até agora. Tem quase tudo disponível por aí, recomendo com força uma maratona Stephen King, melhores adaptações, quem sabe uma prévia pro Hallooween.


Inté.



segunda-feira, 31 de maio de 2021

Stephen King - Thing of Evil


 A primeira vez que eu li Stephen King, ainda estava no ginásio, li uma edição do Iluminado, era o que chamo de "edição de banca de jornal": capa mal editada, folha estilo jornal, aquele tipo de material que desgasta rápido, tão rápido quanto li o livro, que eu devorei em horas e fiquei relendo e relendo até ter que devolver na biblioteca da escola. Quando assisti a versão do Kubrick pro cinema, eu gostei muito, mas me incomodou a dualidade de não se saber ao certo se tudo aquilo no Overlook era um surto coletivo ou a ação de algo perverso e sobrenatural. Um dos motivos que fez Stephen King não gostar muito do filme, apesar de que é um dos responsáveis por ele ficar ainda mais famoso e, antes da versão de Kubrick para o Iluminado, a Carrie por Brian de Palma (desse o Stephen King gosta).

E são as várias adaptações de suas histórias pro cinema e pra televisão que fizeram Stephen King ser um dos autores mais conhecidos do mundo, salvo engano, está entre os dez mais traduzidos. Obviamente que ele não chegaria tão longe sem algum talento e isso ele tem de sobra. É um grande leitor desde sempre e não há outro caminho para um escritor que não seja a leitura voraz, profunda e apaixonada. Quanto mais áreas diferentes, melhor o leitor, melhor escritor. É claro que nem todo o leitor voraz vai se tornar escritor, porque é necessário o ingrediente extra do talento, mas ler muito e de tudo se faz necessário. Além da leitura e do talento pra escrita, Stephen King é curioso, observador, perspicaz e perscrutador das regiões sombrias da psiquê humana. E todos esses ingredientes muito específicos resultaram no fenômeno que é Stephen King. Quantos enredos inquietantes, perturbadores, quantas personagens que povoam nossas noites em claro.

E vão aí algumas décadas que sou fã e, se você está lendo isso daqui, possivelmente tem interesses parecidos com os meus e sabe da quase obsessão que nós, que gostamos de histórias de fantasia, terror, ficção científica, especialmente histórias  de Stephen King, sentimos quando sabemos que mais uma trama será adaptada pro cinema, televisão e mais recentemente streamings. E como tem coisa adaptada, né? Desde a Carrie de 1976, até Lisey's story que estreia agora em junho pra Apple Tv (estou enlouquecendo pra ver como assisto) tem muita coisa pra se assistir e comentar.

O que eu quero com isso tudo? Falar que vou fazer algumas resenhas sobre as minhas adaptações favoritas de filmes e séries de Stephen King, o que com certeza vai durar algum tempo. Quer dizer, se eu não desistir no meio do caminho. Veremos.

Já escrevi sobre adaptações de Stephen King.

On Writing livro do Stephen King obre seu nobre ofício, a escrita. fantástico.

Sonâmbulos, uma das coisas mais bizarras que já vi na vida. 

O Nevoeiro (filme), who Lovecraft?

Misery, amo a Anne. Sim, eu sou doida.

Rose Red, pens para fãs esforçados. 

Cemitério maldito (versão antiga)

O Iluminado (claro!)

Carrie (versão antiga)

It (versão antiga, pra televisão)

Para as novas postagens esperem minhas impressões sobre Outsider, The Stand, Castle Rock, Mr Mercedes e outras coisas mais antiguinhas, como a maldição do Cigano.

Inté.


Imagem: frente da casa de Stephen King. O cachorrinho acredito que seja dele, já que ele atualmente cria corgis, mas ele posta mais fotos no seu Twitter da Molly aka Thing of Evil 


quarta-feira, 25 de julho de 2018

Suspiria



Como que eu nunca havia assistido Suspiria, é o que me pergunto desde que assisti, há poucos dias. O nome do diretor italiano Dario Agento não me é estranho, até porque suas realizações influenciaram abertamente outros diretores cuja obra eu cresci assistindo, como Halloween, Sexta-feira 13 e os filmes de Tim Burton. Só que, infelizmente, Agento só me chegou agora, na minha maturidade, uma lástima pra mim. E se você gosta de filme de terror e ainda não entrou em contato com o espetacular universo de Agento, faça-o logo. 




 Os filmes de Argento não economizam nas mortes sangrentas e cenas aflitivas. Entretanto, o mestre do “giallo” (amarelo em italiano, nome dos filmes de terror italianos - explico já o porquê do nome) sempre foi considerado um cineasta inovador e esteticamente cuidadoso. Produções suas como Prelúdio para matar, Tenebre e O pássaro das plumas de cristal, realizadas nas décadas de 1970 e 1980, são clássicos de terror. Seu título mais conhecido é justamenteria Suspiria, graças à construção do clima de medo por meio de cores saturadas e uma trilha sonora arrepiante, é quase uma unanimidade. O filme me chamou a atenção por conta do remake, que será dirigido por Luca Guadagninob (Call me by your), inclusive parece que era um sonho antigo desse diretor, já que Suspiria é seu filme favorito. O remake tem no elenco as atrizes Tilda Swinton e as fraquinhas Dakota Johnson e Chloe Grace Moretz, essa última já tem no currículo a péssima versão do remake de Carrie A Estranha, uma desnecessidade. Daí que já se fica ressabiado, mesmo que o teaser do trailer seja bem convidativo. Ah, essa nova versão conta com trilha de Thom Yorke, o que é muito bom também, já que a trilha na versão original é incrível. 




Assistindo Suspiria, dá pra perceber a importância do expressionismo alemão da década de 1920, de diretores como Fritz Lang e F.W. Murnau, e o cinema surrealistas de Luis Buñuel. Sua estreia como diretor foi 1970 com “O pássaro das plumas de cristal”. No filme, o assassino aparece com luvas pretas, que são usadas pelo próprio Argento. A marca se repetiria em diversas produções suas. O pássaro é a primeira de uma trilogia sobre animais que também inclui “O gato de nove caudas” e “Quatro moscas sobre veludo cinza”. Em 1975, ele lança “Prelúdio para matar”. Sanguinolento, o filme foi pioneiro dos slasher films, em que um assassino trucida pessoas com instrumentos cortantes. Entre os influenciados está “Halloween - A Noite do Terror”, dirigido por John Carpenter, de 1978. O título original do filme, “Profondo rosso” (ou “vermelho profundo”), alude a sangue, mas também sinaliza a importância da cor, portanto do cuidado visual, na violência filmada por Argento. Seus filmes são decerto brutais e frequentemente estéticos. Em “Prelúdio para matar”, Argento colabora pela primeira vez com a banda de rock progressivo Goblin. Liderada pelo brasileiro radicado na Itália Claudio Simonetti, a tensão musical criada pelo grupo se tornaria um componente essencial da obra de Argento. 


 Suspiria: Uma estudante descobre um mundo de bruxaria e horror em uma escola de dança na Alemanha. A trama de “Suspiria”, como de costume nos filmes de Argento, é simplória, quase nula (a maneira como a bruxaria é retratada no filme em termos de enredo-roteiro é de uma tosquice comparável à Uma noite Alucinante, mas é apenas um detalhe). O filme de 1977, entretanto, é considerado o ponto alto da filmografia do cineasta. Com os anos, se tornou objeto de culto, junto com a trilha sonora, outra vez da banda Goblin. O impacto e a ousadia em “Suspiria” vêm em grande parte de seu uso de cores. Vermelho, azul e verde, os tons primários, surgem saturadas, artificiais, fortemente contrastadas com partes profundamente escuras. Argento empregou uma variante do processo de colorização Technicolor para conseguir o efeito visual. Com elementos clássicos como feitiços, bruxas e a floresta negra, “Suspiria” foi descrito como “um conto de fadas gótico”. Para fazer Suspiria, uma total abstração do que chamamos de ‘realidade diária’, foram usadas cores primárias, que são geralmente tranquilizantes, apenas na sua forma mais pura, fazendo com que ficassem violentas e provocativas de forma imediata e surpreendente. Argento constrói a história de maneira que os momentos mais horrendos têm uma beleza horripilante. Mesmo os espirros de sangue parecem meio que com uma pintura viva de Jackson Pollock. Como dito no começo, em italiano, “giallo” significa “amarelo”. A cor passou a ser associada no país a histórias de terror e mistério na década de 1930 graças a uma série de livros “pulp” chamada “Il giallo Mondadori”. Publicadas pela editora Mondadori, as capas vinham sempre com um fundo amarelo. Com o sucesso dessas edições, outras editoras começaram a imitar a estética. 



O termo “giallo” ganhou abrangência nas décadas seguintes, sendo usado na Itália para designar livros e filmes de suspense e terror. A partir da década de 1960, “giallo” entrou para a língua inglesa como uma designação genérica para filmes italianos de terror. O diretor Mario Bava é um reconhecido pioneiro deste cinema, com fãs como Martin Scorsese e Tim Burton. Em 1956, dirigiu “I vampiri”, considerado um dos primeiros filmes italianos de terror. A obra de Bava inclui títulos como “Seis mulheres para o assassino”, de 1964, e “Banho de sangue”, de 1971, que inspirou produções como a série “Sexta-feira 13”.

quarta-feira, 27 de junho de 2018

Hereditário - brincando com a Goetia



Estou impactada. E assustada. Podia fácil resumir o que tenho pra escrever sobre o primeiro longa de Ari Aster (não parece nome de vídeo-game?), Hereditário. Muito porque sou uma pessoa impressionável, que ainda guarda muito da menina que via monstros com braços de galhos de árvores na penumbra do quarto. Muito porque, como persona-gótica envolvida com as sombras e a escuridão, acredito piamente que há muita coisa que não somos capazes de entender. E nem deveríamos. E, quando um filme "brinca" com estes elementos, que realmente existem e são cultuados em algum nível, a coisa muda de figura. Ou não, vai saber.

O filme em questão se tornou um sucesso de bilheteria e crítica, apontado como um filme tão revolucionário para o horror como Bebê de Rosemary e Exorcista. Embora o impacto inicial de filmes de horror tenha o costume de atrair exageros, havia motivos para aguardar de forma ansiosa a estreia do filme no Brasil. Primeiro porque a produtora do filme, a A24, famosa outrora pelos filmes de Tarkovsky e por agora A Bruxa e Ao Cair da Noite (que eu ainda não assisti), considerados dois dos melhores filmes de horror dos últimos anos. Depois, porque a confiança na sua própria produção é tão grande, que a A24 já anunciou que pretende brigar pela indicação ao Oscar de Melhor Atriz da protagonista do filme, Toni Collette, algo que tem ainda mais relevância, considerando o desprezo da Academia por filmes de horror. 

 Então, o filme acumulou altíssimas expectativas que, no entanto, foram insuficientes para se preparar para a experiência toda. Hereditário não é só um excelente filme de horror, mas uma experiência perturbadora. Em seu âmago, é um filme sobre uma família disfuncional e como os pecados de nossos pais afetam quem nós nos tornamos. A estética do horror, no entanto, está marcada desde o primeiro momento do filme. É durante um funeral que recebemos os elementos que sustentam a trama. Annie (Toni Collette) precisa confrontar a morte de sua mãe e o fato de que essa não é uma perda que a deixe particularmente triste, consequência de uma vida secreta da matriarca, que resultou no agravamento de seus transtornos psiquiátricos. Seus dois filhos, Peter (Alex Wolff) e Charlie (Milly Shapiro - acho que a triz tem algum problema facial, alguma displasia, como Dustin de Stranger Things), sentem essa morte de diferentes maneiras. Peter, que cresceu acostumado com a ausência da avó, não parece se incomodar com seu falecimento; já Charlie, que cresceu sob seus cuidados, se pergunta como irá sobreviver no mundo agora que perdeu um de seus principais apoios. Esses questionamentos são ainda mais relevantes para Charlie devido a seu isolamento, fruto de algum transtorno psicológico que nunca se torna explícito; sabemos apenas que a menina tem dificuldades em prestar atenção nos outros e não mantém relações próximas com ninguém fora do círculo familiar. O pai, Steve (Gabriel Byrne), completa o núcleo central da narrativa, com uma personalidade menos marcante, mas que deixa transparecer o modo como ele toma para si a tarefa de sempre intermediar os conflitos familiares e oferecer o suporte necessário para a esposa e os filhos. 

Como o próprio argumento do filme já antecipa, a vida secreta da avó morta irá trazer consequências graves para toda a família, sobrenaturais ou não, e é com o desenrolar desses eventos que Hereditário mostra a incrível capacidade de seu elenco de dar vida e peso aos conflitos emocionais que tornam o filme tão perturbador, não só pela forma como explora o mal secreto que irá assombrar a família, mas, principalmente, pela construção de relações reais, com forte carga emocional. 

 A forma como Aster decide filmar Hereditário também reflete a profissão de Annie, uma artista especializada em fazer cenários em miniatura; a câmera distante, enquadrando determinada sala, faz com que o cenário lembre sempre uma casa de bonecas. Conforme chega ao seu desfecho, Hereditário se aproxima cada vez mais do horror sobrenatural e se afasta do drama familiar. Essa é uma progressão natural do filme, porém que faz com que cada vez mais elementos grotescos sejam introduzidos, a ponto de que espectadores mais desatentos possam ficar confusos em relação ao que está acontecendo na tela. Essa incerteza faz parte da forma como o filme constrói o medo e a angústia constante, porém é também o que pode afastar parte do público. 

O final lembra bastante o final de A Bruxa e, ao mesmo tempo, não. É quase a mesma coisa, mas de outro jeito. Não se trata, no entanto, de um final aberto e sem resposta, já que cada imagem de Hereditário foi produzida minuciosamente para que a repetição de certos elementos deem pistas sobre o sentido global por trás da trama, desde objetos espalhados pelo cenário até reações quase imperceptíveis de figurantes no fundo da tela.

Gostando ou não do filme, o gênero horror mais do que chocar, é pra nos tirar de qualquer zona de conforto. 


sábado, 24 de fevereiro de 2018

A Forma da Água e os monstros perfeitos



De longe, é o meu favorito dos indicados ao Oscar, apesar de que já sei, não vai ganhar nada, ou quase nada. Inclusive, já ronda por aí acusação de plágio coisa e tal. Bem, o tempo e as provas (ou não) dirão se é ou não fruto da cópia safada do criativo de outra persona. Mas o filme é uma óbvia homenagem ao clássico o Monstro do Lago, mais na perspectiva do monstro. O que sei, neste momento, é que me encontro completamente arrebatada, eu que sempre me chamei de Monstro da Lagoa do Opaia.

Como Del Toro, eu também fui e sou salva, todos os dias, pelos monstros das histórias que me foram contadas, dos filmes que assisti, dos livros que li, dos que invento e escondo.

De formas diferentes, Guillermo Del Toro sempre me agrada, sendo com o trash assistível de sua versão de Blade, decerto com seus filmes mais antigos, como Espinha do Diabo, Labirinto do Fauno, ou com meu filme de super herói favorito, HellBoy (I e II). Porque Del Toro mexe com o meu fascínio pelo fantástico e sombrio, os monstros, como ele mesmo disse no seu discurso no Globo de Ouro deste ano, "santos patronos das nossas imperfeições".

A Forma da Água é uma singular fábula política em que vemos Del Toro nos mostrando além desse mundo real esquisito em que vivemos, onde ódio e cinismo são considerados inteligentes e se você fala de sentimentos parece um idiota. Na Forma da Água, a emoção é o antídoto, é o novo punk, pra quem ama punk, como eu. É um filme apaixonado pelo amor e pelo cinema. E pra narrar seu enredo,  imaginou um conto de fadas bem peculiar, em que uma faxineira muda vive um cotidiano que parece comum, mas não é, é apenas repetitivo. Até que, nas instalações onde trabalha, os serviços secretos prendem uma criatura aquática. Entre os dois excluídos surge um feitiço sem palavras, feito de química e olhares, onde o monstro por uma vez se torna o herói. Aí ele cria um filme que é político, mas obliquamente, não frontalmente, porque ver é o ato supremo de amor. Se eu vejo você, garanto a sua existência. A ideologia pretende negá-lo, transformá-lo em uma coisa: um judeu, um mexicano, um pária qualquer. E Sally Hawkins, nossa faxineira muda, preenche o papel com seus olhos e seus gestos.

O fato é que esta criatura mexicana que fisicamente se assemelha a outra obsessão minha, Totoro, é uma espécie de outsider muito comercial para o modo artista e muito artístico para o modo comercial. É um milagre que tenha conseguido fazer o cinema que queria. Que sorte pra mim, sua fã devotada, que lia histórias de vampiros debaixo das cobertas. 

O pai de tantos monstros parece temer outras coisas, os monstros reais, nossa política atual. Estamos em um momento único, porque nunca vivemos além dos acordos que nos mantêm juntos. A civilização depende de regras imaginárias, mas as respeitamos para funcionar. Um país nunca se cura de uma guerra civil, seja a Espanha ou os EUA, como está sendo demonstrado. Só nos resta recorrermos em nossas orações hereges aos monstros, que pra mim, não são imperfeitos.

Inté.

terça-feira, 26 de setembro de 2017

O mistério do pó amarelo em Mother! de Aronosky (com update)

Aviso, muito spoiler!



Não tem jeito, se você assistiu o filme Mother! está neste momento se perguntando, afinal, o que diabo é aquele pó amarelo que a personagem da J. Law coloca na água e bebe, toda vez que está abalada?

Obviamente que a resposta mais direta e lógica seria que é uma espécie de medicamento, só que a gente sabe que não é tão simples assim, porque todo o filme trabalha na casa da alegoria metafórica. Sendo assim, aquele pó amarelo não é um tipo de lítio ou algo que o valha, apesar de que tem o efeito similar, mas sim, enquanto metáfora, representa outra coisa e essa outra coisa está enlouquecendo todo mundo que parou sua vidinha durante aquela fatídica uma hora e cinquenta e quatro minutos (eu já assisti quatro vezes). Especialmente porque o Sr. Aronosky afirmou, numa das suas primeiras coletivas sobre o filme, que levaria o segredo do pó amarelo pro túmulo.

Aulas recentes, em que passei a audição do filme pros meus alunos (sim, sou louca), as discussões foram das mais incríveis, tanto pra quem adorou o filme, como pra quem não gostou, por se sentir incomodado ou até mesmo ofendido (vamos combinar que, pra quem é cristão praticamente e, especialmente católico, é meio pesado). Mas então, surgiram duas teorias:

A primeira, do meu aluno Vladison, 3ª ano, que lembrou da relação das antigas religiões de culto à mãe natureza, que talvez o pó amarelo significasse a fé desses adoradores, que ela sorve pra se acalmar, daí quando ela está grávida do motivo do novo tetamento (Cristo), ela não é mais adorada, ou não será mais adorada, e daí joga o pó fora. Agora, o porquê da cor amarela eu ainda não sei nem o Vladison me disse rs.  

A segunda fui eu mesma, pirando no percurso pra casa, via Avenida José Bastos, numa segunda, feriado do comerciante, tudo fechado, sol quase se pondo e eu pensando em radicias da língua inglesa e o pouco de história da língua inglesa que aprendi quando estudava alemão (sim, é isso mesmo, maravilhas da Casa de Cultura Alemã). Yellow (amarelo, em inglês) seu radical saxão -yell significa gritar, clamar. O "dono da casa" (Deus) sempre inclui em seus discursos e escritos, presentes nos textos da Bíblia, o termo cry out, que também significa clamar. Ou seja: Ele fala dos clamores, mas quem os absorve e os sente é Ela. Eu sei lá rs.



E agora uma terceira, li numa matéria do Telegraph, que o pó amarelo seria uma leve referência ao livro Papel de parede amarelo de Charlotte Perkins Gilman, cujo enredo é o seguinte, temos a personagem central, que é nossa narradora em primeira pessoa, como uma espécie de diário. A narradora é uma mulher, cujo marido - um médico - a mantém num quarto que ele alugou durante o verão. Ela é proibida de trabalhar e se vê obrigada a esconder dele o diário que escreve, pra que ela possa se recuperar do que ele supostamente diagnosticou como sendo uma "depressão nervosa temporária - uma leve tendência histérica", um caso comum às mulheres da época, ou seja, que misógino. As janelas do quarto possuem grades, e há um portão no topa das escadas, permitindo que o infeliz do marido controle o acesso ao restante da casa. O conto ilustra o efeito do confinamento na saúde mental da narradora, e sua propensão à psicose. Não tendo nada para estimulá-la, ela se torna obsessiva pela textura e cor do papel de parede do quarto. "É do amarelo mais estranho, esse papel de parede! Me faz lembrar de todas as coisas amarelas que eu já vi - não coisa lindas como botões-de-ouro, mas ouro envelhecido, e péssimas coisas amarelas. Mas tem algo de errado nesse papel de parede - o cheiro!... A única coisa que eu posso pensar sobre isso é que é a cor do papel de parede! Um cheiro amarelo." No fim, ela imagina que há mulheres arrastando-se atrás do papel de parede amarelo, e chega a acreditar que ela é uma delas. Ela se tranca no quarto, que agora é o único lugar onde ela se sente segura, recusando-se a sair dali quando o aluguel do quarto expira.



Contudo, procurando mais coisas sobre, encontrei uma outra entrevista do Aronosfsky em que ele solta a língua ao menos um pouquinho.

 What was with that yellow powder concoction that Jennifer’s character drinks?
Oh no, this is the one I don’t love answering. [Laughs] I think Jen has a better answer for this than I do. Let’s just say it’s harkening back to Victorian novels and this idea of a deeper connection for her and the house. But I don’t love to go deeper into it than that.

O que era aquela mistura em pó amarelo que a personagem de Jennifer bebe?
Oh não, essa é uma que eu não quero responder [Risos] Eu acho que Jen tem uma resposta melhor pra isso do que eu. Vamos dizer que tem relação com as novelas vitorianas e esta ideia de uma profunda conexão entre ela e a casa. Mas eu não gostaria de me aprofundar nisso.

Adendo: J. Law sabe!

Mas então, agora que embolou o meio de campo rs. Se a gente parar pra refletir que, em termos de novelas da época vitoriana, temos Charles Dickens, Eliot e as Irmãs Brontë, com romances como Morro dos ventos uivantes, Jane Eyre, Villette, etc, realmente há essa tal de profunda relação com a casa, até porque estamos falando aqui da Inglaterra, dos longos períodos trancados em casa, no outono e inverno, em que só havia a casa e a leitura, que era feita em geral em voz alta, ou seja, as estórias eram concebidas para serem lidas em voz alta, pra todos se entreterem, daí em parte o epíteto "novela". O que isso tem a ver com pó, gente? e um pó amarelo rs? Será que é uma referência as inspirações dos escritos da era vitoriana em relação a escritoras como Charlotte Perkins Gilman?



Aceito ajudas, sugestões, abraços etc coisa e tal.

Bisous.

P.S.: Ninguém reparou, pelo menos não que eu tenha visto, mas eu acredito que o tal do pó amarelo aparece em outra momento no filme, quando ela está preparando uma espécie de argamassa, ela está misturando lá e o resultado é dum tom amarelado, primeiro meio claro e depois mais intenso. Eu acho que é o mesmo pó. Levando em conta que ela é a casa...

UPDATE!
Na minha última aula, pra um das minhas turmas de primeiro ano, um dos alunos, que já fez estudo bíblico e lê constantemente a bíblia, lembrou d e alguns trechos, fez algumas anotações. Lá no livro do Gênesis 1:2: No princípio criou Deus o céu e a terra. E a terra era sem forma e vazia.

No começo do filme, Ela (a terra/natureza) que é ela e ao mesmo tempo a casa (que é a terra), está arrumando a casa que já fora destruída, meio sem vida ou que não está pronta. Ao longo da narrativa, numa discussão entre o Poeta e Ela, Ele fala que a casa não tem vida, e Ele quer que se encha de vida e ideias, etc. Ela, em várias partes da primeira metade do filme, sente a casa, toca nas paredes, fecha os olhos, e vemos seu interior pulsar, no que parece um útero (vida). Sempre que está alterada, em desequilíbrio, faz uso do pó amarelo misturado em água (fora o que passa na argamassa das paredes). Então, levando em conta que no início a terra era sem forma e vazia, ou seja, sem vida, o líquido amarelo pode sugerir uma espécie de vida, que ela ingere sempre que está em desequilíbrio, que vem justamente, pois ela é sem forma e vazia. Daí, quando ela engravida do Filho do Homem (Jesus), ela joga o pó amarelo fora, pois Ele veio para que tenhamos vida: trecho em João 10:10: " eu vim para que tenham vida, e que tenham vida em abundância."

E aí, minha gente, eu fiz a ligação com as tais novelas vitorianas, já que se lia as tais novelas no inverno, para trazer vida pra dentro de casa, e daí a relação das mulheres e das casas, pois eram elas que liam, ou seja, que trariam (ou criavam) vida.

Já a escolha da cor amarela, acredito que seja pela representatividade do amarelo, cor do ouro, do sol, do açafrão, representa a luz divida, já que atravessa o azul do céu, e ainda, a gema de ovo, que guarda a vida, amarelo simboliza isso, vida. Na Bíblia, o amarelo é a cor da cura, da unção, da fé em Deus, talvez daí Ela precise ingerir o amarelo, pra se curar, ungir e se embeber de fé Nele.

quarta-feira, 6 de setembro de 2017

O curioso caso de Annabelle que parece minha tia



Já escrevi muita resenha de filme, especialmente, filme de terror, confiram aí na tag Boo do bloguito. É uma das coisas que mais gosto de fazer em termos de blog e, pelas estatísticas, é das coisas que vocês, leitores fofinhos, mais gostam de ler por aqui. Obrigadinha. E eu levo a sério, leio outras resenhas pra ver se minhas ideias desabrocham, mexo nos meus alfarrábios sobre psicologia, filosofia pra deixar a cousa mais interdiscurssiva, quase como se estivesse elaborando minhas aulas. Mas  eu enjoei disso ó.

Nesse momento inclusive, eu deveria estar corrigindo redações, mas fui assistir Anabelle 2: criação do mal, apesar de ter odiado com força Anabelle 1. Mas eis que escrevo esta resenha, sem pretensão, é mais pra tirar uma onda sinistra dum filme muito ruim, inspirada pela visita que a boneca do capeta fez por aqui, passeio este, aliás, que a coisa mais legal de todos os tempos. Tá, a mais legal não, uma das mais legais. Mas para por aí.

O filme é um cocô. Sério, um cocozinho, pior do que o 1. É ruim de uma maneira sem vergonha, e houve momentos que pensei que eu fosse morrer de desespero, não de medo, mas de raiva de como se faz um filme ruim desses. Então, já dei o spoiler de que é ruim, você continua lendo por sua conta e risco.

Posso dizer que sou uma espécie de especialista em filme de terror ruim, acho até que eu deveria fazer uma pós-graduação sobre. Poderia apenas ser um mais um filme besta, pra gente assistir daqui uns anos numa noite qualquer, passando no SciFy e afins, mas não, além de não se sustentar em pé para além dos easter-eggs do pretenso universo waniano (Invocação do mal 1 e 2, Anabelle 1 e 2) é mal feito, é ridículo, é pretensiosinho. E tem gente gostando, vai entender.

Confesso que tenho implicância com a Annabelle, porque ela se parece muito com a minha tia Artemísia na aparência e na capetice. Minha tia é tão célebre em suas ruindades que é conhecida por um certo apelido na Barra do Ceará (não vou dizer, não adianta), por coisas como ter cegado o falecido marido (outra praga ruim, do tipo bíblica), e por já ter feito gente cometer suicídio. Eu estou falando sério.

Então, a tia Artemísia, quer dizer, a Annabelle 2, traz um monte de coisas que  a gente já viu em outros filmes bem melhores. Mas vamos lá, somos apresentados ao criador da boneca, que perdeu a filha de forma trágica alguns anos antes. Depois da tragédia, ele resolve transformar sua casa em uma espécie de abrigo para crianças órfãs, como forma de suprir essa ausência. Com isso, surgem algumas crianças e uma freira – aquela lá do Invocação do Mal 2 (desse eu gostei) – que passam a notar que 'algo errado não está certo', algo estranho acontece no quarto intocado da menina falecida. E é a partir disso que se forma o "terror", com as hóspedes tendo que se virar para se livrar do capeta em foram de boneca ou boneca em forma de capeta, sei lá. Clichê, né? Pois é, clichê.

O filme basicamente é um apanhado de esquemas batidos, como a jogo com a trilha sonora: cria uma tensão crescente, e no segundo anterior ao susto, a música para, quando isso acontece, todo mundo já está sabendo o que está por vir, o que deixa a cena anêmica e boring, lá pra terceira vez que isso aconteceu, eu já sentia saudade de assistir Tomates Assassinos. 

Annabelle 2 é basicamente isso, um monte de clichê, pretensiosamente reinventando os filmes de terror (tá não, queridinho), que todo mundo que assiste e concatena as ideias minimamente, já sabe o que vai acontecer: a boneca do cão tocando o terror.  Minha tia Artemísia daria um filme melhor.

Inté. 

terça-feira, 23 de maio de 2017

Prometheus



A lenda de Prometheus fala do defensor da humanidade, conhecido por sua astuta inteligência, responsável por roubar o fogo de Héstia e o dar aos mortais. Zeus (que temia que os mortais ficassem tão poderosos quanto os próprios deuses) teria então punido-o por este crime, deixando-o amarrado a uma rocha por toda a eternidade, enquanto uma grande águia comia todo dia seu fígado, que se regenerava no dia seguinte.

quinta-feira, 3 de novembro de 2016

Filme de terror alternativo - Corrente do Mal (It Follows)



Ainda buscando por filmes de terror diferentes que tenho assistido ultimamente, dia desses (na verdade, uns meses atrás) dei de cara com esse Corrente do mal. O nome me levou para o bonitinho lacrimoso Corrente do Bem, com o então erê garotinho de Sexto Sentido, Haley Joel Osment (que por sinal, fez um outro filme de terror, muito muito muuuuito bizarro e ruim, em que um cara é transformado numa morsa; assista por sua conta e risco), mas obviamente, nada tinha a ver com o filme da criancinha que conectava toda uma comunidade; esses problemas de tradução de nomes de filmes que direcionam as expectativas dos incautos. Não, Corrente do mal é uma outra coisa.

quarta-feira, 2 de novembro de 2016

3 Things #22


Halloween! Eu amo Dia das Bruxas, não ligo pra quem acha que é coisa de gente aculturada, até já escrevi sobre. E é claro que as três coisas legais da semana giram em torno do Halloween, não é? Pois é. Esse ano foi bem legal, ano passado nem tanto. E foi a primeira vez que fiz trick or treat rs. os vizinhos acharam linda a decoração e pediram doces rs. Me senti Jamie Lee Curtis *_*.

Um pedacinho da mesa de quitutes decorada. teve até poção mágica, que não dei pra tirar foto, por motivos de que bebemos tudo. 



sexta-feira, 26 de agosto de 2016

Água Negra, versão de Walter Salles



Passei anos me recusando a assistir a versão estadunidense do fantástico Dark Water japonês, por realmente não acreditar que fizessem algo minimamente a altura, como o caso de O Chamado, que conta com boa versão hollywoddiana. Mas dia desses estava passando de madrugada na televisão e resolvi dar uma chance.

O nome por trás da versão ocidental de Honogurai mizu no soko kara (de Hideo Nakata, 2002) é um conhecido nosso, Walter Salles (Central do Brasil), que fez o filme do jeito dele, o que devo confessar, ficou bom: um filme com pegada setentista, à moda de O exorcista (1973) e dos suspenses opressivos de Roman Polanski. Não interessa a Salles, ainda que se mantenha fiel à premissa original, pregar sustos. O filme de Nakata já era bem econômico neste sentido, mas tinha lá seus vultos no espelho, no elevador, suas crianças correndo diante de portas abertas. Salles reduz ainda mais esse tipo de recurso. Os sustos só servem para extravasar a tensão psicológica que ele faz questão de represar. O único artifício que Salles preserva é, evidentemente, o líquido lodoso que sai de torneiras e pinga do teto. Já reparou como todo filme de terror tem o seu problema de encanamento, com banheiras transbordando? Pois aqui a água, protagonista, está por todo lado. Não a causa, mas o efeito. 

Não pára de chover em Roosevelt Island, anexo pobre de Manhattan, com seus prédios customizados para abrigar centenas de famílias. É para lá que se muda Dahlia (Jennifer Connelly) com sua filha Ceci (Ariel Gade, um achado) depois de se separar do marido (Dougray Scott). Ele reclama da distância, diz que é provocação para dificultar suas visitas, ameaça pedir a guarda da menina na justiça. Dahlia diz que o aluguel barato, o metrô e a escola na porta de casa contaram mais. Mas basta ver o apartamento para conferir o sacrifício que elas fazem. O lugar é um buraco. O malandro Mr. Murray (o maravilhoso John C. Reilly), administrador do prédio, tenta dissimular o indisfarçável. É a chuva, diz ele, diante das goteiras que dominam o cubículo apertado, escuro, depressivo. 

Bem, Dahlia não demora para descobrir que o problema não é a chuva. A grande sacada do diretor é intercalar manifestações sobrenaturais com evidências de que elas são só paranoia de Dahlia. Manter o pé no verossímil, até onde for possível, é importantíssimo dentro da sua proposta: tratar da família. Afinal, a preocupação da personagem de Jennifer Connelly (que compreendeu bem o que o diretor queria) é manter a filha ao seu lado. O marido reclama, seu emprego paga mal, a escola da menina não vai bem e o teto periga desabar em sua cabeça. Tudo conspira para afastar as duas (e, na visão de Dahlia, a estranheza que toma o apartamento é apenas parte dessa conspiração). Nakata, também criador dO Chamado e Água Negra originais tem outra preocupação, a sociedade japonesa é menos emotiva, ou sentimentaloide, dependendo também do ponto de vista. E os suspenses japoneses atuais são prioritariamente baseados na filosofia oriental. Tem-se um mistério do além e tem-se uma pessoa, afetada por uma espécie de maldição, que só se libertará quando solucioná-lo. Água negra na versão de Walter Salles funciona diferente, porque não privilegia o fantasma, mas a maldição; não a causa, mas o efeito.

Inté.

quinta-feira, 18 de agosto de 2016

O Nevoeiro



Diferente do último filme resenhando, A Pirâmide, este eu não assisti de madrugada, mas sim numa tarde sem ter muito o que fazer ou com preguiça de fazer algo, além de assistir televisão. O engraçado é que sempre via este filme passando, mas nunca tive vontade de assistir. Ou coragem. Não que o enredo me assustasse (um nevoeiro maligno com coisas sinistras matando todo mundo), mas sim com medo de presenciar outro texto do Stephen King mal adaptado (e são muitos).

Normalmente, os filmes baseados na obra de Stephen King são ruins. bem ruins. Alguns muito muito ruins. As exceções ficam por conta de Carrie (do Brian de Palma) e O Iluminado (versão Kebruck, apesar de que Stephen King odeia a versão). Quando vi anunciarem mais uma adaptação (baseado numa novela no Tripulação de Esqueletos), pensei: lá vem bomba.

Mas, numa tarde quente de julho, resolvi assistir a versão para o cinema de The Mist, O Nevoeiro. Começa com uma violenta tempestade que devasta a cidade. David Drayton (Thomas Jane, de O Justiceiro), um artista local, corre com seu filho para o supermercado para comprar suprimentos e material para remendar uma das janelas de sua casa, destruída por uma árvore. Neste meio tempo, um estranho nevoeiro toma conta da cidade e acaba deixando David e mais alguns moradores locais presos dentro do supermercado. Logo eles descobrem que existe algo mais no nevoeiro, e sair dele pode significar a morte. 

Intimamente, O Nevoeiro é muitas coisas, e todas elas muito legais: começando pela clara influencia de  H. P. Lovecraft e William Golding; um ensaio sobre o horror na cultura; e uma reflexão sobre a fragilidade da civilização em tempos de crise. Quem espera ver um filme de monstros, com sangue para todos os lados, pode esquecer. Aqui, os monstros existem, mas praticamente não se pode vê-los. O único monstro (o pior de todos, talvez) que aparece a todo o tempo é o ser humano. Quando as pessoas estão trancadas naquele supermercado, começamos a ver a civilização em reverso, desde o começo, quando a pobre mãe implora que alguém a acompanhe para voltar pra casa, pra salvar os filhos, e todos se recusam, incluindo nosso herói, David, com a justificativa de proteger o próprio filho, no que ele falha miseravelmente.

Vemos uma volta à barbárie, o fanatismo religioso (na pele da Sra. Carmody, muito bem interpretada por Marcia Gay Harden) e a perda de parâmetros. O excesso religioso que (que algumas pessoas reclamaram), é um ponto muito bem abordado por Stephen King em sua novela. Por outro lado, trata-se também de uma reflexão sobre a fé, não apenas religiosa, mas a fé uns nos outros, no amor e no dever, na esperança de que tudo pode acabar bem. E também sobre a própria falta de fé. O desespero (conseqüência do medo do desconhecido) é capaz de transformar o ser humano em uma aberração, e apontar inimigos à sua volta parece ser a única saída para uma situação onde o que importa é sobreviver.

O final é ontológico, muito mais do que na novela.

SPOILER!
No filme, David, seu filho e mais dois sobreviventes conseguem sair do supermercado num carro, no entanto eles viajam até acabar o combustível e continuam encobertos pela névoa e cercado pelas criaturas. Sem trocar uma palavra, eles chegam a melhor solução possível: o suicídio coletivo. Só que restam apenas 4 balas e eles estão em cinco, ou seja, alguém vai sobreviver e ficar a mercê dos predadores infernais que dominaram o mundo. E para David a situação é mais dramática ainda, pois não basta se matar, ele tem que assassinar o próprio filho, só que no desespero não há outra saída. Seus amigos se suicidam e David atira no filho. Ele sai do carro, esperando que alguma criatura o ataque, mas aí ele percebe que os sons que ouvia do carro não eram mais as criaturas, mas sim o exército que deu um jeito de exterminar os monstros e estava escoltando sobreviventes, inclusive aquela mãe do começo da história. Na novela o nevoeiro não tem fim e os personagens ficam em um hotel abandonado, esperando o próximo capítulo, que não chega. 



Amei o filme e depois fui pesquisar quem estava por trás, e era ninguém menos do que Frank Darabont. Para quem não sabe, Darabont foi responsável por duas excelentes adaptações de textos de Stephen King: À Espera de um Milagre (The Green Mile) e Um Sonho de Liberdade (The Shawshank Redemption). Explicado ;).

Inté.

domingo, 7 de agosto de 2016

Bizarrices da madrugada - A Pirâmide



Sempre gostei de assistir tv de madrugada. Primeiro porque fui uma criança/adolescente frustrada, que tinha toque de recolher, horário pra dormir e era proibida de assistir as coisas que queria, como filme de terror de noite (mas às vezes eu conseguia burlar o sistema carcerário maternal, e assistia coisas como o Exorcista, Amityville, Lobisomem americano em Londres, a Hora do espanto, fora os indispensáveis Jason, Freddy e Michael Myers). Segundo porque tenho insônia e uma das coisas mais legais a se fazer quando não se consegue dormir é assistir filmes avulsos de madrugada. E com o advento da NetFlix então, toda uma orda de filmes de terror b para serem explorados, fora os disponíveis no YouTube (são muitos), outros tantos para assistir online e os da tv por assinatura mesmo. E semana passada dei de cara com um novo (ao menos pra mim) e decidi fazer logo esse novo tipo de post: coisas bizarras que assisti na madrugada e o dessa vez é o mais recente, como já citei, A Pirâmide.

Como o nome indica, é um filme sobre lendas egípcias, só que nada tem a ver com A Maldição da Múmia e afins. Não, é uma espécie de found footage com câmera em terceira pessoa. A trama se passa no interior da tal pirâmide de três lados, recém-descoberta no Egito. A tal descoberta conduzirá uma equipe de pesquisadores e cinegrafistas ao local, durante um período conturbado no Cairo, entre 2012 e 2013, com inúmeros protestos do povo egípcio, no auge da Primavera Árabe. Temos Nora e seu pai Holden (nome duma banda francesa que eu amo) comandam a expedição ao interior da pirâmide, depois que um robozinho-câmera da NASA (por que eles têm um treco desses? emprestado?), é atacado e desaparece no local. Integram o grupo o documentarista Sunni e seu cameraman Fitzie, além do cara do robôzinho, Zahir. Forçados a abandonar o projeto, pela expressão do único soldado do local, Shadid, eles decidem entrar na pirâmide e óbvio que tudo desanda. Como se pode esperar em produções similares, eles irão encontrar restos do robô e não terão mais acesso à saída, tendo que buscar uma fuga alternativa pelo labirinto que é a pirâmide, cheia de armadilhas e de outras coisas. 



As outras coisas? Uma múmia? Não. Bandidos? Não. Basicamente, gatos esfinge do submundo egípcio, comedores de gente e, um deus egípcio, um dos mais assustadores de todos, Anúbis! Mas é claro que os efeitos especiais são ruinzinhos (já vi piores, na verdade), as atuações sofríveis, tem furo de roteiro, mas a premissa da história é bem interessante, justamente por conta do Anúbis, a coisa de pesar os corações para ver se a alma pode continuar para o além. O final não tem sentindo (alguém assiste e me explica), mas no final de tudo eu gostei e recomendo.

Boo.


domingo, 19 de junho de 2016

Dark Side of the Rainbow



Vocês já ouviram falar na relação entre Dark Side of the Moon, da banda Pink Floyd, e do filme O Mágico de Oz (1939)? Não? Por onde você andou, seu tolinho? É quase uma lenda urbana, envolta em mistérios bestas e negações da banda e tal, o que deixa a coisa mais legal ainda. E eu confesso que já fiz, sincronizou e é muito maneiro, simplesmente por ser.

Para quem não conhece o fenômeno, Dark Side of the Rainbow (O Lado Sombrio do Arco-íris alusão ao filme e álbum) é o nome dado ao efeito criado ao tocar Dark Side of the Moon (1973) simultaneamente com o filme de O Mágico de Oz. O efeito consiste no fato de que há diversos momentos em que uma obra corresponde a outra, seja por parte das letras das músicas ou pela sincronia áudio-visual. Como já expliquei, o nome do efeito vem da combinação do título do disco The Dark Side of the Moon seria O Lado Sombrio da Lua, uma metáfora para ilustrar os conceitos de lado negativo da mente e da vida, e da icônica canção do filme Over the Rainbow (Além do Arco-Irís).

Apesar de famoso, a origem do efeito é misteriosa, bem como as ocorrências que levaram à sua descoberta. Eu ouvi falar disso a primeira vez conversando com um amigo (que depois veio a se tornar meu marido -agora ex), que havia lido sobre na internet, em 1994, no grupo de discussão sobre Pink Floyd, algo como um fórum. Ninguém sabia de quem foi a ideia de combinar as duas obras, mas virou cultura popular, virou manchete de grandes jornais, vários fãs começaram a criar sites onde descreviam suas experiências, procurando catalogar os momentos de sincronia. Teve o DJ de uma rádio de Boston que discutiu o fenômeno no ar, levando a mais uma série de artigos na mídia e um segmento no MTV News, que eu acompanhei inclsuive, muito grávida da minha erê caçula, Carolyne. Em 2000 um canal a cabo exibiu O Mágico de Oz com Dark Side como uma trilha-sonora opcional, e quase na mesma época Family Guy fez menção ao efeito. 



E a coisa virou uma mania estranha entre os fãs de Pink Floyd, just like me, Lily girl *_*. O ano que eu fiz a sincronia foi 2005 e olhe, funcionou e eu fiquei bem histérica. è muiito maneiro observar "balanced on the biggest wave" ("balançado na maior das ondas") de Breathe ser cantada no exaro momento em que Dorothy balança em cima de um muro, ou  "Brain Damage" passar enquanto o Espantalho aparece, e ainda, as batidas de coração ressoarem enquanto Dorothy encosta seu ouvido no peito do Homem de Lata. Esse efeito de sinergia foi descrito como um exemplo de sincronicidade, definido por Carl Jung como um fenômeno onde eventos coincidentes parecem relacionados, mas não podem ser explicados pelos mecanismos convencionais de casualidade. 

Os membros do Pink Floyd negam tudo, insistem que o fenômeno é pura coincidência. Contudo, no álbum ao vivo P.U.L.S.E.(Editado em 1995), cujo set-list incluí Dark Side of the Moon na íntegra, traz algumas referências à sincronia. A fala masculina em Great Gig In The Sky, que originalmente dizia I never said I was frightened of dying (Eu nunca disse que tinha medo de morrer), mudou para I never said I was frightened of Dorothy (Eu nunca disse que tinha medo de Dorothy). A ilustração da capa - um disco imitando um globo ocular, com um sol sendo eclipsado substituindo a íris - traz escondida algumas imagens referentes ao filme, como uma ilustração de uma garota com sapatos vermelhos e a silhueta do Homem de Lata. Aí né? Pois é.

Eu acredito que é um desses mistérios  magníficos do ocaso, que tornam a vida menos vulgar, mais absurda e inigmática. Sim, eu sou besta rs.

Inté.

sexta-feira, 17 de junho de 2016

Filmes guilty pleasure



Semana passada me perguntaram quais filmes eu amo e ao mesmo tempo, tenho vergonha de amar rs, e daí eu tive a ideia de trazer pra cá minhas vergoinhas cinematográficas, como fiz com o post Séries guilty pleasures.

Rocky - E não só o primeiro ( Rocly, O Lutador) que ganhou Oscar (roubou o Oscar do Taxi Driver do Scorsese) e tudo, eu gosto de todos. Tá, gosto menos do IV e do V, mas até o III é amor incondicional e eu sei que é brega, mas eu amo. Toda vez que assisto, sofro nas lutas do Rocky, mesmo sabendo que ele sempre vai ganhar rs.

Máquina Mortífera - Amo rs! Típico filme policial americano, com uma dupla composta pelo policial bonzinho (Danny Glover) e o pirado (Mel Gibson). É muito piegas, divertido, lugar comum, me amarro rs.

Karatê Kid - O antigo mesmo, com Daniel San e Mestre Miyagi e aqueles golpes de karatê que não existem e tal rs. Eu torcia contra o Daniel San, tinha vontade de bater nele e torcia pro louro rs.

Se beber não case - Sim, é de profundo mal gosto, é apelativo, é ridículo, mas eu adoro, especialmente por causo do barbudo do Alan. Eu queria ser amiga dele e enchê-lo de beliscões. Eu gosto de mazelas.

Crepúsculo - Eu odeio essa série de livros e os filmes são terríveis, mas eu confesso que sempre assisto o filme um, o Crepúsculo, porque nem acho tão ruim assim e acho a cidade de Forks legal. Ah, e eu amo a cena do jogo de baseball maneira, muito por causa da música do Muse *_*.

Garota Infernal - Eu gosto, os diálogos são maravilhosos rsrsrs.

Arraste-me para o Inferno - É horrível e divertidíssimo, uma mistura nada bem dosada de terror clichê e comédia pastelão (o bode dançando rs).

Hellraiser - Falei dele aqui rs. 

Olhos famintos - Eu tenho medo e uma história pessoal bem terrível com esse filme. Foi o último filme em VHS que aluguei e na cena final, que a coisa meio que veste a roupa corpo do rapaz lá, o videocassete quebrou e cuspiu a fita e foi um susto danado, meus erês todos chorando. 

Sonâmbulos - Falei dele aqui.

Inté.

sexta-feira, 10 de junho de 2016

Os mortos que andam, um morto que não andará, Lucille e toda essa tralha



Um título enorme, eu sei.

E lá vem mais spoiler, aprendam a lidar, crianças, que a noite é escura e cheia de terrores.

Eu estou completamente traumatizada com o final da última temporada de The Walking Dead. na verdade eu já estou traumatizada com a série desde o começo de tudo, porque eu não sei se já contei pra vocês, mas um dos meus maiores medos é justamente de zumbis. Não é que eu tenha medo da imagem dos zumbis, ou de gente fantasiada como tal, eu tenho medo da ideia terrível dum apocalipse zumbi, ou seja, o enredo de The Walking Dead. Por mais absurdo e irracional que pareça, eu tenho medo disso ao ponto de perder o sono. Pode rir.

Por isso mesmo tive uma resistência terrível em assistir a série, eu sei do que se passa porque meu filho lê a HQ e eu aqui e ali dou umas lidas, daí sei que a série adapta muita coisa; por exemplo, Carol já morreu faz tempo, não existe o Daryl, dentre outras coisas. E (não leia a partir daqui se você não gosta de spoiler), sabemos que quem morre a golpes de taco de baseball (ou Lucille) é o Glenn :(. Muita gente não acredita que seja o Glenn que morra na série, porque todos já esperam isso e os roteiristas vêm alterando os fatos como já citei acima. Mas já pensou se eles mantém o Gleen, justamente porque ninguém espera que seja o Glenn? Não quero rs.

Inté.

Imagem: Fantástica, né? Norman Reedus e Twisty The Clown.

quarta-feira, 8 de junho de 2016

Outcast do capiroto ou algo assim



Alerta: sai que lá vem spoiler!

Vocês viram que tem série nova de terror? Outcast, do mesmo filho da mãe de The Walking Dead, Kirkman (precisamos falar sobre isso também), já estava disponível há um tempo na Fox on, mas eu assisti na estreia na tv, morrendo de medo, porque né, sou dessas.

Até agora o que a gente sabe sobre o enredo? Sei mais agora do que antes, porque me passaram um monte de informações erradas, falaram de alienígenas, do Cthulhu (até que faz sentido). Eu não sei de nada, estou pior que John Snow, mas pelo o que li por aí, a trama de Outcast acompanha Kyle Barnes, um homem que é atormentado por essas coisas do capiroto desde a infância. Agora que já passou o primeiro episódio a gente ao menos já sabe que não, não é ele que é endemoniado (ao menos, não da forma que entendemos que isso acontece), mas que sim, ele sofre com pessoas próximas a ele que passam por possessões (ou algo que o valha) a mãe (que parece a criatura de REC), a mulher e a criancinha do trailer do primeiro episódio. Há algo tretoso no sangue e nas lágrimas de Kyle e eu, particularmente, achei a sobrinha dele u-ó no sentido demoníaco, mas vamos aguardar.

Bem, teremos mais 9 episódios pra tentar entender - ou não - o que se passa em Rome e com Kyle Barnes. É, você não leu errado, o nome da cidade onde a treta toda se passa é Rome, ou Roma, como a capital da Itália, só que a cidade fica em algum lugar whitetrash americano. Mas é curioso reparar que Kirkman escolheu o nome da capital ocidental do catolicismo para ambientar sua estória de demônios.

Inté.


quarta-feira, 30 de março de 2016

Resenha - The Witch, a New England folktale



Alerta de spoiler: leia por sua conta e risco.

Ainda estou meio tonta com tudo o que presenciei no filme The Witch, ou A Bruxa, em português, e Stephen King não poderia estar mais correto quando afirmou em sua conta no Twitter que se tratava de um filme perturbador. E é. E que precisa de uma certa sensibilidade, ou melhor, leitura mesmo para conseguir entender. Há de ter se lido muito Poe, Lovecraft, o próprio King, e, os contos de fadas das versões de Perrault, as mais assustadores, em que trolls e bruxas devoram criancinhas. Literalmente. E não só ter lido, mas ter entendido todo o terror na essência de todas essas histórias.

Uma dica: se a pessoa odiou O Anticristo do Von Trier, odiará The Witch, porque não são filmes para quem acredita que terror é sempre banho de sangue adolescente, etcetera coisa e tal. Os dois filmes são profundamente diferentes no meu ponto de vista, mas com algumas similitudes que me parecem homenagens, não sei ao certo.. Li em algum lugar uma comparação entre eles, que teriam um certo cunho feminista e tal, e na verdade Anticristo foi acusado de misógino. Até eu pensei assim durante um tempo, até macerar as ideias a respeito e constatar que nem tanto o céu, nem tanto a terra, mas de fato é um filme metafórico sobre a demonização da mulher pelas instituições. Mas as bruxas dos dois filmes são diferentes, bem diferentes, The Witch não tem nada disso, e quem viu algo assim, viu chifre em cabeça de cavalo, e eu não estou falando de unicórnios, apesar de que unicórnios têm tudo a ver com contos de fadas e estamos falando aqui de contos de fadas, só que diferentes das versões Disney, mas sim aqueles contos que afastavam as crianças das florestas, e acredito que por isso o subtítulo, a New England Folktale ou Um conto da Nova Inglaterra. 

O filme é muito corajoso, o diretor Roger Eggers foi muito ousado na maneira como trabalhou com certos aspectos tenebrosos dos contos de fadas. Muito ousado mesmo. Não tenho recordação de ter visto nada assim antes, trabalhado de forma tão literal e ao mesmo tempo, utilizando de certa sutileza, na coisa da fotografia e uma linguagem de cinema artístico.

Uma família é expulsa por excesso de fanatismo, ou heresia, e isso dá o tom do filme. Thomasin,  a garota, aparece logo no início pedindo perdão a Deus por todos os seus pecados, ali, à luz da puberdade e com os olhos bem abertos quanto a tudo que acontece na família. Uma vez expulsos, a família vai à procura de um novo lar, um paraíso perto de um bosque (olha o Anticristo aí). E já estamos na cena em que o bebê, irmão caçula de Thomasin, some, durante uma brincadeira de peek-a-boo, levada por alguém de capa vermelha (Chapeuzinho Vermelho). Corta para uma cena onírica, um pesadelo, em que o bebê é acariciado por mãos femininas, que depois o castram (sim)  e daí mulheres banham-se em seu sangue, porque bruxas comem criancinhas. Gente. A partir daí a família desconfia da nossa Thomasin, especialmente a mãe, meio megera.

Caleb, o irmão do meio, aparece abalado com o choro da mãe, Thomasin quase que impávida e os dois irmãos menores gêmeos, duas pestinhas detestáveis que só aprontam e odeiam a irmã. Entre o sofrimento da mãe e outros peculiaridades, como o comportamento bizarro do patriarca e do próprio Caleb, ambos demonstram interesse em Thomasin, tem a cena da floresta. Numa noite, os pais conversam sobre "a venda" de Thomasin, que já é quase mulher, e que portanto já pode ser negociada por mantimentos, o tal do dote para o acordo (ou pacto). Caleb decide caçar para evitar que a irmã seja vendida, a irmã o acompanha, eles se perdem na Floresta (João e Maria) e Caleb encontra com uma mulher sedutora, com atrativos maiores que Thomasin, que o domina e meio que se insinua o que seria uma relação sexual. Lembrando que Caleb tem 12 anos. Outro choque. E Caleb some, dado como morto. E de novo a culpa recai em Thomasin.

Mas Caleb reaparece nu, no meio duma noite, e fica enfermo, prostrado. Num outro dia surta, e começa a repetir frases que parecem desconexas, que lembram um encantamento (de bruxa), todos entram e começa uma bizarrice de mini exorcismo, com uma ladainha, uma reza cristã. Os gêmeos insinuam que não conseguem rezar, acusam Thomasin de ser a bruxa, Caleb começa a repetir a reza, num tom de zombaria, seguido de uma risada e de um orgasmo (sim). E morre. E os gêmeos desmaiam. E é claro que tudo é culpa de Thomasin, que é trancada no arremedo de celeiro com os animais e os gêmeos encapetados (ah, eles estavam fingindo o tempo todo, mas afirmam que ouvem os animais, inclusive o bode preto, Black Philip). E é nesse mesmo celeiro que aparece uma criatura que bebe o leite de uma das cabras (uma bruxa), e as crianças e Thomasin ficam aterrorizadas (e eu também). Enquanto isso, a mãe tem uma visão/sonho com seus dois filhos mortos, Caleb com o bebê no colo, diz para a mãe que ela deve ler o livro (que seria o livro de pacto), e pega seu bebê no colo para amamentar, mas na verdade está amamentando um corvo, e chora. O pacto não é aceito, na verdade, porque o interesse paira sobre outra pessoa. De manhã, o patriarca acorda, a mulher com o seio sangrando, ele sai e se depara com o celeiro destruído, os gêmeos sumiram e só resta Thomasin, que seria agredida pelo pai (antes disso tudo eles travam uma discussão esclarecedora). Mas nossa Thomasin é defendida por Black Philip, que mata a figura paterna. A mãe sai, começa a agredir a filha, mais por recalque do que por medo, ou algo que o valha, e Thomasin mata a figura materna. E nessa parte eu só lembrei do Psicanálise dos Contos de fadas de Bettelheim.

E aí vem o final, a cena do Black Philip andando como um homem, é tudo insinuado, mas sabe-se que é o bode (metáfora do Baphomet), e daí o pacto derradeiro, quando Thomasin se torna A Bruxa.

O filme é isso, um enredo que reproduz o terror das histórias contadas para crianças nas antigas 13 colônias americanas, herança das histórias europeias. O que o torna diferente e perturbador é, como já citado, a ousadia de mostrar como esses contos são terríveis de verdade, sem perlimpimpim da Disney: pedofilia, magia negra, rituais com sacrifício de crianças, a maldade que corrompe os mais puros, tudo ali, escondido na floresta. Sensacional. 

Boo.

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