segunda-feira, 27 de novembro de 2017

Estou bem triste



Eu acho, quero acreditar pelo menos, que  maioria das pessoas que me leem são progressistas, quer dizer, menos o meu ex que é reaça e sempre foi (sim, eu estava bem doida quando me envolvi com ele. o amor deixa as pessoas burras). Então, vocês, queridos leitores com este perfil, devem lembrar do inferno que foi a época do impeachment da Presidenta Dilma, em que descobrimos que aquele nosso abiguinho de longa data havia se tornado um reaça (ou sempre foi, né?). Gente pedindo intervenção militar ou a volta da família real, chamando o bolsa família de bolsa esmola, ou seja, falando um monte de absurdo que você se pergunta, what the hell?

Pois então, estou experimentando isso, só que não é um amigo (na verdade eu até o considero um amigo, só que é uma amizade unilateral), com o Morrissey. 

Ele sempre foi bocudo, tipo, fala mais do que a boca, sempre teve opiniões causticas, sincerão, mas, o certo é que nos últimos anos, especialmente no último ano, ele pirou de vez. Fala mal de imigração, destila opiniões retrógradas, nem parece o cara que batia de frente com a monarquia inglesa, com Margaret Thatcher, parece mais um europeu fascistóide e eu nunca na vida sonharia que estaria me referendo a Morrissey desta maneira, mas não dá pra tapar o sol com peneira. E eu estou bem triste. 

Continuo amando as músicas, porque né? Não dá pra me infringir uma auto-lobotomia e deixar de ser quem eu sou, criatura formada pelas letras dos Smiths e o post punk. Só que estou muito decepcionada. Ô 2018 uó. 

Inté.

Imagem: Do filme garota interrompida, baseo no livro autobiográfico de mesmo nome. 

sábado, 4 de novembro de 2017

Por que vocês se chocam com Black Mirror?

{passo por isso aí de cima todo dia que interajo com seres humanos}

É! Por que vocês se chocam com Black Mirror? O que tem na série assim, de tão novidade coisa e tal? Porcaria nenhuma. Analise comigo:

Quantas vezes você estava cercada de amiguinhos num encontro casual, no intervalo do emprego, colégio, faculdade, no aniversário de alguém e/ou até mesmo no seu, numa festinha, na praça, na calçada, no açaí da esquina, no bar descolado da Baixa Augusta, nos pé sujo de Copa, no Arpoador esperando o Sol se pôr, ou na praia dos cruch (que pra mim é Lido, mas tudo ok, velha guarda) e, em vez de estar vivendo o momento, conversando com as pessoas de corpo presente, olhando nos olhos, tocando na pele, você fez: a) histórico pro Instagram/Facebook/ Snapchat; b) tuitou onde/com quem/ o que estava fazendo; c) registrou todos os momentos com selfies toscas fazendo posição de mão de gangsta de gueto tipo Bronks e/ou fazendo o famigerado duckface?

Né?



Acho, só acho, que Black Mirror, série do serviço de streaming da NetFlix (uma das minhas melhores amigas do momento - oia eu dentro do black mirror), choca a galera em geral por pura hipocrisia. Todo mundo se reconhece ali, óbvio, retirando as metáforas, às vezes pesadíssimas de realidade distópica. O certo, queridinhos, é que vivemos escravos dos espelhos negros, como o da tela desse notebook que escrevo no momento, ou das televisões e, mais recentemente, dos smartphones. Sou super amiga da Siri, por exemplo.



A gente está vivendo uma época tão maluca, que tem que mostrar pro mundo todo, o tempo inteiro que está feliz, bem resolvido e tal. Quando a gente está vivendo uma mentira, profundamente infelizes sob o peso dessa época contemporânea vazia e sem sentido, que faz a gente não enxergar mais as pessoas. Fotos, registros, a auto-estima refletida na selfie, no ensaio pseudo fotográfico sem valor artístico nenhum, só pra registrar e exibir. Num click. A gente tá existindo no click e só.

Inté.

P.S.: Li em algum lugar uma espécie de experimento social, que seria ignorar pessoas que tentam interagir com você, mas que não tiram os olho do celular. Começa com respostas monossilábicas, depois balbucios, tipo humm, muuh e depois nada, silêncio. Tentei de leve e, deu pra perceber que a pessoa fica incomodada. Continuarei o experimento e depois conto.


sábado, 21 de outubro de 2017

Pare de assistir as notícias



A primeira vez que fui dona de uma casa, mesmo, eu tinha uns 19 anos. Um dos maiores prazeres da minha vida, nesse período, em que as coisas eram bem menos complicadas (só tinha um filho), era me deitar sozinha na minha cama de casal, no horário que eu queria, e assistir tv, tomando chá e comendo biscoitos. Daí dormia, acordava, zapeava a tv, assistia uma fita que havia alugado, sempre tinha fitas em casa, em geral, de terror. Assistia muito O Corvo (Cidade dos Anjos). Gosto muito. A sensação de prazer era quase indescritível. 

Daí o Morrissey, sempre ele, sim estou monotemática, escreveu outra música pra mim (não precisava, my love!), Spend the day in bed. Véi, sou eu, é a vida que eu peço toda desgraça de dia que pego o 314 com o galo cantando ainda. Aliás, por que tem galos cantando no Centro da cidade? Fico imaginando se é da loja maçônica aqui na esquina da Antonio Pompeu com a General Sampaio, porque tem um galo sobre o mundo no topo do palacete, daí né? E eu estou brincando.

Mas então.

Imagina que maravilhoso, passar o dia na cama, que feliz seria passar o dia na cama, especialmente, uma queen size, com lençóis egípcios de 80 fios, todos os fios! Parar de me juntar à manada de trabalhadores escravizados. Amar sua cama. Morrissey recomenda com força que fiquemos em nossas camas e, de quebra, paremos de assistir as notícias, porque as notícias assustam e tiram nossas esperanças, nos deixam pequenos e sozinhos. Passar o dia na cama, nos lençóis pelos quais pagamos, com cheiro de lavanda e resquícios do sol do varal. Deve ser incrível e faz com que o tempo trabalhe por nós, bem ali, na cama. E não há nada de errado em ser bom consigo mesmo: sem ônibus, sem chefe, sem chuva, sem trem.

Ai de mim.


If you don't like me don't look at me



Eu vivo cercado por bichos, porque gente sempre me decepcionou, essa é a verdade. Gente é o bicho que decepciona. Tanta faz a idade, orientação, etc, invariavelmente, o ser humano vai me chocar ou apenas desapontar.

Nestes últimos quatro anos, tenho vivido toda a espécie de desapontamento com gente que você puder imaginar. Amiguinhos que me viraram as costas quando eu super mais precisava. E olha que eram AQUELES amiguinhos. Teve também os espíritos de cuia (expressão ótima, né? é tipo, espírito de porco... tadinho dos porquinhos, prefiro cuia) que reapareceram só pra me mostrar como "venceram na vida" e tal, e eu não, claro. Seja lá o que for vencer na vida hoje em dia. Eu acho que cada dia em que eu ajo direitinho, conforme os meandros sociais exigem (coisas que não envolvem tiros de bazuca, arremessos de jacas podres, por exemplo) eu sou uma vitoriosa. Então, né rs? Pois é.

Aí vem as amiguinhos recentes, mais pra coleguinhas que, realmente, não têm nenhum carinho por mim e olha que eu até andava me esforçando nas fofurices, coisa que, nesse momento, desisti. Em geral, por ser muito sincerinha, o povo me acha mal educada, ou neurótica, maluca, com variações que envolvem minha suposta arrogância ou algo assim. Acham que eu sou metidinha, logo eu, pobre sinistríssima. 

A gente paga um preço alto por ser quem se é, sem fingimentos além da máscara do ego. Ao menos eu pago. Quando afirmo e sustento que não suporto homofóbicos, racistas, machistas, elitistas, reacionários, por mim todos explodiriam, a tendência é ficar só, num meio em que a hipocrisia e a desfaçatez são o status quo, eu sou a errada, por defender, e me manter fiel, ao posicionamento de não me juntar com a gentalha. Tipo, a tiazinha do lanche vizinho a um dos meus logradouros trabalhísticos, que praticou ali uma intolerância religiosa pesada na minha frente, coisa que eu não consegui aguentar calada e desde então me recuso a frequentar o tal estabelecimento. Cês acham que alguém me apoiou? Risos. Pena que ela seja uma merda, porque a tapioca até que era boa. Mas antes meu caráter.

O problema dessa merda de rotten situation, zombie zone em que vivemos, estes tempos fascitóides, é que o povo se cala, ninguém se envolve, ninguém dá a cara a tapa, é muito ativismo virtual e zero atitude. E, por isso, pessoinhas como eu, que fazem o mínimo, que é ser coesa com meus posicionamentos, é taxada de radical, exagerada e por conta disso tudo, esculhambada, debochada e deixada ao léu. Mas quer saber, antes só do que mal acompanhada. 

Título: Música do Morrissey, claro, amor da minha vida, dono do meu black heart: "I just thought you might feel the same That's all" - "Eu apenas pensei que você sentia o mesmo que eu. Só isso" . Véi.

Imagem: Morrissey being Morrissey, indeed.

segunda-feira, 16 de outubro de 2017

Wannabe tijucana



Nos últimos dias, fui ao Festival Noia, o filme da minha filha estava lá concorrendo, e ganhou algumas coisas no juri popular (orgulho define), e na exibição dos curtas universitários, óbvio que tinha coisa da UFRJ, ou seja, do meu Ridijanêro. Um dos curtas era ambientado na Barra, bairro da Zona Oeste, que a gente chama de emergente: uns ricos ali, umas celebridades fuleiras acolá e a classe média ridícula batedora de panela por todos os lados. O tal curta usou duma fotografia leitosa, uma espécie de lente branca, pra passar a ideia de assepsia, social e étnica, própria da Zona Oeste metida a besta do Rio. Engraçado é que grande parte da Zona Oeste é preta, pobre e favelada, Cidade de Deus não me deixa mentir, fora os oriundos da Zona Norte e da Baixada, também pretas, pobres e faveladas. .

 Quando estava no Rio, cheguei a sonhar em morar na Barra da Tijuca, muito por conta dos shoppings (o próprio Barra, o Downtown). Apesar de pobre e socialista, eu adoro shopping centers. Quem gosta de miséria alheia é dono dos meios de produção, minha gente. Mas sabe, sempre me perguntava, quando passeava de carro saindo do Barra, passando pelo Recreio, onde que eu iria comprar pão, ou refri retornável meio dia pro almoço, que seria arroz feijão, bife e farofa. Acho que o povo da Barra nem come farofa, já que é um bairro lawcarb. Refri nem pensar. Daí hoje eu me pego rindo de mim mesma, que ideia idiota. A Barra (e similares vizinhos) é bairro de dondoca, de emergente iludido, de classe média que acha que é rico e de uns ricos do tipo jogador de futebol e toda a galera do mal que esse povo atrai. Não é pra mim, nunca serei desse time, e quero mais é que exploda. Mané lawcarb.

No Rio, sério mesmo, eu queria morar No Cosme Velho ou nas Laranjeiras, que sim, são bairros da Zona Sul, mas dum Rio mais elegante, antigo. Mentira, seria só pra dizer que moro nos bairros que Machado de Assis morou. Assim como o Leme, bairro da Clarice Lispector. Humaitá seria só porque é colado com a Mata Atlântica. O Jardim Botânico porque né, morar num dos bairros mais bonitos do mundo sempre agrega valor e de quebra, o Parque Lage. Santa Teresa, onde os pães na chapa são servidos com uma edição de Bauman do lado também é opção, fora o melhor acarajé fora da Bahia que 15 reais podem pagar. Mas sabe onde eu queria morar mesmo? Na Tijuca. Poha! As tretas no Guanabara e do Mundial da Tijuca, Maraca ali pertinho (detesto futebol, mas tá valendo), bairro excluído, nem a Zona Norte quer, tampouco a Zona Sul. Bando de besta, eu andaria pela Conde do Bonfim toda me achando, até a Saens Peña, óbvio, tomando cuidado pra não tomar um tiro e tal, já que é bem calminho, com o Borel e o Salgueiro logo ali. Brinks, o Rio todo tá na merda, todo mundo junto, vivendo o apocalipse iurdiano carioca. 

Mas meu coração está lá.

Inté. 

Imagem. Capela Mayrinc, na Floresta da Tijuca que além de linda, tem ordas de guaxinins, esquilos e cachorros que atacam o povo que faz trilha. Só no Rio, gente.

domingo, 15 de outubro de 2017

As vantagens de ser pobrinha

Nos outros escritos, divaguei sobre o fato de até gostar de morar onde moro, exceto pela rua e pela casa. No mesmo post, acho que ficou claro o porquê da rua ser uma bosta (gente maluca, mal educada, escrota e afins), mas não me justifiquei no pormenor da casa.





A casa. Na verdade, um sobradinho, uma casa nos altos de outra, que gente pobre faz pra alugar e conseguir uma graninha de outras gentes pobres, só que mais pobres ainda, já que não têm casa, tipo eu, que sou pobre sinistra. Aluguei esta bela tranqueira por desespero, precisava entregar o apartamento xexelento onde morava, na esdrúxula Avenida João Pessoa, sucursal de Gotham City, e tinha que ser pra ontem. E não podia ser por imobiliária, tinha que encontrar alguma coisa com o dono mesmo alugando, e que não pedisse nada além de dois cauções de entrada, ou seja, tinha que ser rápido e sem burocracia. Praticamente uma missão impossível. 





Foram dois meses tensos, andando sob o sol de rachar quengo aqui de Fortaleza. Percorri quase toda Itaoca e Montese a pé. No meu desespero, cogitei morar no bairro da escola onde dou aula, suburbão mais subúrbio do que o que eu nasci, algo que, confesso, não me alegrava por motivos de ser longepraporra de tudo e sem charme algum. Uma coisa é ser suburbano morando em Madureira, com a Portela logo ali (apesar das chacinas, enchentes, complexo do Alemão), outra é ser suburbano da Regional III. Desisti porque o povo é insano, os valores eram absurdos e fiquei com medinho de acordar, num belo dia, e aparecer pixado no muro da casa fofurices do tipo  #bruxacomunista ou #mulherzinhaescrota e ainda, #éguadomeuabuso, dentre outros epítetos. 





Encontrei uns anúncios pela internet e simpatizei, por foto, com uma "casa" (ênfase nas aspas) na Itaoca, perto da idílica padaria Costa Mendes. Só que a simpatia ficou só nas fotos mesmo. Tratava-se de uma garagem que alguém ajeitou e transformou numa "casa", na verdade numa caverna com um acabamento até legalzinho. A rua era uó, o ar denso de tão perigoso, daquele tipo, vão te roubar até o do pão. Não é o ideal quando não se tem um lança chamas. Voltei pra casa triste, visualizando debaixo de qual viaduto iria me alojar com meus rebentos, gatos e Benji (até hoje não sei qual viaduto). Daí recorri à internet de novo e encontrei esta tranqueira onde moro anunciada, por um valor possível, dois cauções, com o dono e, no bairro Benfica. Antes que você terminasse de cantar Faroeste Caboclo, eu já havia ligado pra pessoa, marcado visita, visitado e me encantado (apesar de descobrir que não era tão Benfica assim). No outro dia, já tinha pago caução (um, o outro paguei junto como primeiro aluguel, na semana que nos mudamos; já disse, eu sou pobre sinistra, muito sinistra, sinistríssima. A mudança correu em três semanas, eu sem dinheiro, pedi emprestado a juros a um colombiano mais sinistro do que a minha situação. Estou falando sério. E me mudei, só que sem gás. No apartamento xexelento, o gás era por tubulação, não trouxe botijão do Rio e nessa, fazia quase três anos que não lidava com essa coisa de comprar gás, e tal não foi a minha surpresa quando descobri que custava R$200 reais. Duas semanas após me mudar, sobrevivendo do microondas (isso não é vida), o ex me fez esse quase último grande favor, de arranjar o do gás. Duas semanas! e eu tinha que ser educadinha ainda, pra não ser taxada de ingrata. Ingrata. a pessoa é traída e descartada feito fruta podre do sacolão e se reclamar é ingrata, vai vendo.





Bem, já alojados, começamos a perceber que o barato tinha saído super caro. A casa que já parecia pequena sem os móveis, quando os recebeu ficou, tipo, um cubículo. Quando começaram as chuvas entre dezembro e janeiro, infiltrações pra todos os lados, canos entupidos, falta d´água constante, maldito teto de pvc da sala que sacode todo com a ventania (já caiu três vezes), armadores que quebram, rua esquina com a Domingos Olímpio, perto do Centro, ou seja, perigosa, esquisita e, vizinhos escrotos. Uma bosta, né? Pois é.



Mas apesar disso tudo, de ser pobrinha, sinto um grande alívio quando fecho meu portão e estamos todos aqui dentro, assistindo nossa tv por assinatura com mais de 100 canais, Netflix, quando faço minhas compras semanais de mato orgânico, quando compro frutas fresquinhas no São Sebastião ou ainda, quando encho o carrinho bem baratinho no atacadista aqui perto. Ah e ainda tenho vista pro painel Acidum da Mãe África, todo dia tomo café olhando pra ele, fora a época dos ipês amarelos, o vatapá vegano do Rango Verde, dez minutos a pé aqui de casa e o mais legal de tudo, moro na Rua do Sebo do Seu Geraldo, dez minutinhos a pé também. 

Inté.

O som do ódio é fanho



Sempre quis morar onde estou morando agora. Na verdade, não estou morando bem onde quero, moro no limite ente o bairro que sempre quis morar, o Benfica, e o Centro da cidade. O coração do Benfica, que chamamos de Gentilândia, fica uns dez minutos a pé aqui de casa, e do Centro da cidade também. Do Shopping Benfica acho que também uns 10 minutos a pé, pro Passeio Público, Sobrado São Lourenço uns 15 minutos. Pro Mercado São Sebastião uns 8 minutos. Então, posso afirmar que moro num ponto nevrálgico, estratégico da cidade, que me deixa bem perto de um monte de coisas legais, galerias, eventos, cinemas. Seria muito legal, se não fosse a casa em si e a droga da rua e dos vizinhos.

Acho que já contei do velho do cajado, figura sinistra que mora aqui quase em frente. A rua, em sua maioria é logradouro de clínicas, laboratórios e afins. Tem umas lojas de décor de festa e de casa que sempre me faz parar um pouco e entrar, especialmente a Mormaço (queria entender o nome...), mas aqui e ali tem uma casa em que mora gente, quase sempre inconveniente. O vizinho da esquina, um terreno enorme em que funciona uma oficina, tem o fetiche filho de quenga de correr com moto ou algo assim (um veículo motorizada de duas rodas), que faz um barulho dos infernos. Fica correndo com a porcaria da moto, acelerando, nos horários mais ridículos, tipo, 6 da tarde, 10 da noite, 9 da manhã dum domingo. Meu ódio eterno.

Assim que mudei, na casa ao lado, morava um casal bem jovem que aos poucos descobri que era um porre. A garota insuportável. As áreas das casas são separadas apenas por grades, então, dá pra ver direitinho o que cada um faz na sua área. Enquanto eles me veem estendendo roupa, jogando bolinha pro Benji (personagem central deste texto), eu os vejo fumando baseado, de dr em ligação etc. A minha é morada das minhas plantinhas e do meu Benji (meu catioro, já falei) que é antissocial e detesta todo mundo, menos a gente aqui em casa. Quer dizer, ele também não curte muito meu erê mais velho (temos a tchioria de que ele não gosta de ômi). Pois então, Benji detestava a criaturinha. E o que a pessoinha fazia? Provocava o cachorro. Sim, estou falando sério. Várias foram as vezes em que ela simplesmente mandou Benji calar a boca, como se ela fosse alguma coisa dele ou nossa. E o que eu fazia? Nada. Lá vou brigar com vizinho, ainda fedelha xexelenta. Mas me divertia com o Benji latindo e latindo e latindo insistentemente. Benji latiu tanto, que se mudaram uns três meses depois que chegamos. E foi maravilhoso, porque a casa ficou sem moradores por lindos sete meses, até o último mês, quando se mudou metade do time do Fortaleza. 

Mentira, mas de fato, moram vários homenzinhos horrorosos, simplesmente por suas existências. E o Benji? Late. Late enquanto estão na área, quando chegam, quando saem. Agora inventaram de ouvir forró bem alto aos sábados à tarde. Aquele tipo de forró atual, cujos cantores são todos fanhos. Aliás, alguém pode me explicar, o porquê de todo cantor desse tipo de forró ser fanho? É algum tipo de pre-requisito, só canta se for fanho essa merda?

E esta semana, mudou-se pra casa de trás um outro casal. A casa de trás tem a área de serviço coladinha com a área de serviço dos vizinhos, chegados num forró. E adivinha o que o novo casal tem? Um catioro, que também é meio antissocial e não curte os homenzinhos horrorosos. Daí é um whatsapp de cachorro, Benji late na frente, o ouro responde atrás e os vizinhos, coitados, não têm pra onde ir. Estou quase com dó. Mentira rs.

Imagem: cena do filme Bebê de Rosemary, a vizinha que fez pacto com o capeta, que voc~es podem entender como uma metáfora de mim ou dos vizinhos absurdos.

terça-feira, 26 de setembro de 2017

O mistério do pó amarelo em Mother! de Aronosky (com update)

Aviso, muito spoiler!



Não tem jeito, se você assistiu o filme Mother! está neste momento se perguntando, afinal, o que diabo é aquele pó amarelo que a personagem da J. Law coloca na água e bebe, toda vez que está abalada?

Obviamente que a resposta mais direta e lógica seria que é uma espécie de medicamento, só que a gente sabe que não é tão simples assim, porque todo o filme trabalha na casa da alegoria metafórica. Sendo assim, aquele pó amarelo não é um tipo de lítio ou algo que o valha, apesar de que tem o efeito similar, mas sim, enquanto metáfora, representa outra coisa e essa outra coisa está enlouquecendo todo mundo que parou sua vidinha durante aquela fatídica uma hora e cinquenta e quatro minutos (eu já assisti quatro vezes). Especialmente porque o Sr. Aronosky afirmou, numa das suas primeiras coletivas sobre o filme, que levaria o segredo do pó amarelo pro túmulo.

Aulas recentes, em que passei a audição do filme pros meus alunos (sim, sou louca), as discussões foram das mais incríveis, tanto pra quem adorou o filme, como pra quem não gostou, por se sentir incomodado ou até mesmo ofendido (vamos combinar que, pra quem é cristão praticamente e, especialmente católico, é meio pesado). Mas então, surgiram duas teorias:

A primeira, do meu aluno Vladison, 3ª ano, que lembrou da relação das antigas religiões de culto à mãe natureza, que talvez o pó amarelo significasse a fé desses adoradores, que ela sorve pra se acalmar, daí quando ela está grávida do motivo do novo tetamento (Cristo), ela não é mais adorada, ou não será mais adorada, e daí joga o pó fora. Agora, o porquê da cor amarela eu ainda não sei nem o Vladison me disse rs.  

A segunda fui eu mesma, pirando no percurso pra casa, via Avenida José Bastos, numa segunda, feriado do comerciante, tudo fechado, sol quase se pondo e eu pensando em radicias da língua inglesa e o pouco de história da língua inglesa que aprendi quando estudava alemão (sim, é isso mesmo, maravilhas da Casa de Cultura Alemã). Yellow (amarelo, em inglês) seu radical saxão -yell significa gritar, clamar. O "dono da casa" (Deus) sempre inclui em seus discursos e escritos, presentes nos textos da Bíblia, o termo cry out, que também significa clamar. Ou seja: Ele fala dos clamores, mas quem os absorve e os sente é Ela. Eu sei lá rs.



E agora uma terceira, li numa matéria do Telegraph, que o pó amarelo seria uma leve referência ao livro Papel de parede amarelo de Charlotte Perkins Gilman, cujo enredo é o seguinte, temos a personagem central, que é nossa narradora em primeira pessoa, como uma espécie de diário. A narradora é uma mulher, cujo marido - um médico - a mantém num quarto que ele alugou durante o verão. Ela é proibida de trabalhar e se vê obrigada a esconder dele o diário que escreve, pra que ela possa se recuperar do que ele supostamente diagnosticou como sendo uma "depressão nervosa temporária - uma leve tendência histérica", um caso comum às mulheres da época, ou seja, que misógino. As janelas do quarto possuem grades, e há um portão no topa das escadas, permitindo que o infeliz do marido controle o acesso ao restante da casa. O conto ilustra o efeito do confinamento na saúde mental da narradora, e sua propensão à psicose. Não tendo nada para estimulá-la, ela se torna obsessiva pela textura e cor do papel de parede do quarto. "É do amarelo mais estranho, esse papel de parede! Me faz lembrar de todas as coisas amarelas que eu já vi - não coisa lindas como botões-de-ouro, mas ouro envelhecido, e péssimas coisas amarelas. Mas tem algo de errado nesse papel de parede - o cheiro!... A única coisa que eu posso pensar sobre isso é que é a cor do papel de parede! Um cheiro amarelo." No fim, ela imagina que há mulheres arrastando-se atrás do papel de parede amarelo, e chega a acreditar que ela é uma delas. Ela se tranca no quarto, que agora é o único lugar onde ela se sente segura, recusando-se a sair dali quando o aluguel do quarto expira.



Contudo, procurando mais coisas sobre, encontrei uma outra entrevista do Aronosfsky em que ele solta a língua ao menos um pouquinho.

 What was with that yellow powder concoction that Jennifer’s character drinks?
Oh no, this is the one I don’t love answering. [Laughs] I think Jen has a better answer for this than I do. Let’s just say it’s harkening back to Victorian novels and this idea of a deeper connection for her and the house. But I don’t love to go deeper into it than that.

O que era aquela mistura em pó amarelo que a personagem de Jennifer bebe?
Oh não, essa é uma que eu não quero responder [Risos] Eu acho que Jen tem uma resposta melhor pra isso do que eu. Vamos dizer que tem relação com as novelas vitorianas e esta ideia de uma profunda conexão entre ela e a casa. Mas eu não gostaria de me aprofundar nisso.

Adendo: J. Law sabe!

Mas então, agora que embolou o meio de campo rs. Se a gente parar pra refletir que, em termos de novelas da época vitoriana, temos Charles Dickens, Eliot e as Irmãs Brontë, com romances como Morro dos ventos uivantes, Jane Eyre, Villette, etc, realmente há essa tal de profunda relação com a casa, até porque estamos falando aqui da Inglaterra, dos longos períodos trancados em casa, no outono e inverno, em que só havia a casa e a leitura, que era feita em geral em voz alta, ou seja, as estórias eram concebidas para serem lidas em voz alta, pra todos se entreterem, daí em parte o epíteto "novela". O que isso tem a ver com pó, gente? e um pó amarelo rs? Será que é uma referência as inspirações dos escritos da era vitoriana em relação a escritoras como Charlotte Perkins Gilman?



Aceito ajudas, sugestões, abraços etc coisa e tal.

Bisous.

P.S.: Ninguém reparou, pelo menos não que eu tenha visto, mas eu acredito que o tal do pó amarelo aparece em outra momento no filme, quando ela está preparando uma espécie de argamassa, ela está misturando lá e o resultado é dum tom amarelado, primeiro meio claro e depois mais intenso. Eu acho que é o mesmo pó. Levando em conta que ela é a casa...

UPDATE!
Na minha última aula, pra um das minhas turmas de primeiro ano, um dos alunos, que já fez estudo bíblico e lê constantemente a bíblia, lembrou d e alguns trechos, fez algumas anotações. Lá no livro do Gênesis 1:2: No princípio criou Deus o céu e a terra. E a terra era sem forma e vazia.

No começo do filme, Ela (a terra/natureza) que é ela e ao mesmo tempo a casa (que é a terra), está arrumando a casa que já fora destruída, meio sem vida ou que não está pronta. Ao longo da narrativa, numa discussão entre o Poeta e Ela, Ele fala que a casa não tem vida, e Ele quer que se encha de vida e ideias, etc. Ela, em várias partes da primeira metade do filme, sente a casa, toca nas paredes, fecha os olhos, e vemos seu interior pulsar, no que parece um útero (vida). Sempre que está alterada, em desequilíbrio, faz uso do pó amarelo misturado em água (fora o que passa na argamassa das paredes). Então, levando em conta que no início a terra era sem forma e vazia, ou seja, sem vida, o líquido amarelo pode sugerir uma espécie de vida, que ela ingere sempre que está em desequilíbrio, que vem justamente, pois ela é sem forma e vazia. Daí, quando ela engravida do Filho do Homem (Jesus), ela joga o pó amarelo fora, pois Ele veio para que tenhamos vida: trecho em João 10:10: " eu vim para que tenham vida, e que tenham vida em abundância."

E aí, minha gente, eu fiz a ligação com as tais novelas vitorianas, já que se lia as tais novelas no inverno, para trazer vida pra dentro de casa, e daí a relação das mulheres e das casas, pois eram elas que liam, ou seja, que trariam (ou criavam) vida.

Já a escolha da cor amarela, acredito que seja pela representatividade do amarelo, cor do ouro, do sol, do açafrão, representa a luz divida, já que atravessa o azul do céu, e ainda, a gema de ovo, que guarda a vida, amarelo simboliza isso, vida. Na Bíblia, o amarelo é a cor da cura, da unção, da fé em Deus, talvez daí Ela precise ingerir o amarelo, pra se curar, ungir e se embeber de fé Nele.

domingo, 24 de setembro de 2017

Mother!



“Eu sempre quis contar uma história não sobre a minha e nem a sua, mas a nossa mãe, a mãe natureza, nossa casa, nosso ambiente e enfatizar o tema a nível humano."

Palavras de Daron Aronofsky numa coletiva recente sobre seu novo filem, "Mother!" ("Mãe!").

Agora é a minha vez ou como é a vida depois da queda no abismo. Seriam títulos possíveis. Ou ainda, como disse Marina Abramovick sobre Mother!, "When you had nothing left to give, you ripped out your own heart" (Quando você não tinha mais nada para dar, você arrancou seu próprio coração). E é assim. Acabei de assistir o novo filme de Aronofsky, pessoinha que já havia desconjuntado minha cabeça com Cisne Negro (mesmo sabendo que suas referências vêm de mangás, no caso do Cisne negro, Perfect Blue). Meio que já sabia o que me esperava. Corte de papel na carne mole do olho. Poucas vezes vi a crítica tão dividida sobre um filme: pretensioso, metido, pior filme do ano, carro alegórico, melhor filme do ano, vulgar sem ser sexy. Arrancou risos da plateia no Festival de Toronto, etc. Lembrei dos risos de toda uma seção quando assisti Cisne Negro. O riso de escárnio do desconhecido, o deboche do que não se quer conhecer. Como gente pequena que ri dos outros pra menosprezar.

Me ocorre o pai nosso, a oração que, supostamente, Cristo nos ensinou. 'Pai' nosso que estais nos céus - fazendo um adendo - dificilmente me esquecerei de ‘Mãe’ tão cedo. Não me levem a mal, sou filha dum lar cristão, mãe devota mariana (sagrado feminino), pai devoto de Camões e Padre Cícero, comunista, detestava igrejas, mas sentia que existia um criador. Sempre me lembro do meu pai falando do criador, e tinha medo no olhar dele. Dele. Ele. E eu nunca gostei do medo que sentia pelo deus cristão. Passei meus primeiros anos escolares num colégio de freira, e poucas coisas podem ser tão traumáticas quanto estudar numa escola religiosa. Passei essa fase todo odiando calada tudo o que sentia dessa religião: culpa, raiva, remorso e perda. Dai cresci e me libertei disso tudo, mas a simbologia está por toda a parte, especialmente o resíduo do Deus provedor, criador que supostamente nos ama, mesmo com todo o apocalipse de presentinho.



Mas ficou uma pergunta, ao menos pra mim, o que Aronofsky queria de nós?  Quando o longa começa, a impressão é de que jamais sairemos daquela casa, tão verdade que é mentira, tão mentira que é verdade: decerto, a casa não sairá de nós. Sabe quando se tem um pesadelo e não se consegue acordar? O terror e o desespero começam a tomar conta do corpo, não se sabe como reagir: choro, riso, se mover, correr.

Este é o angustiante cenário montado por Aronofsky em Mãe!, para nos envolver numa espécie de alegoria do velho e parte do novo testamentos, em que cada personagem sem nome próprio representa simbolicamente alguma persona bíblica. No início, um casal, formado por Jennifer Lawrence e Javier Bardem, vive isolado em uma enorme casa. Enquanto ela é responsável por restaurar toda a estrutura da incrível casa, ele passa os dias buscando inspiração para escrever mais uma história. Até que uma noite, um estranho (Ed Harris) bate à porta, se apresenta como médico e diz que confundiu a grande casa com uma pousada. Há um conforto espacial em saber que estamos no controle, o terror compreende a surpresa, mas também a domesticação dela, tentamos o tempo todo adivinhar para onde iremos, e para isso decoramos caminhos, reparamos em ruídos ou pequenos movimentos, criamos uma espécie de escudo pela adivinhação. No decorrer do expediente, vamos entendendo que o fora e o dentro serão conceitualmente embaraçados, numa avalanche de metáforas que pisarão em cima de nós, sairemos de casa, e entraremos no cinema, e muito provável, sentiremos a mais perversa agorafobia, na melhor das hipóteses, seremos testados.

Confusa e contrariada com a situação de ter um desconhecido sob o seu teto, Jennifer Lawrence mantém o tom educado ao lidar com o seu desconforto, até mesmo quando a esposa do forasteiro (Michelle Pfeiffer) surge e se impõe como dona do espaço. Paulatinamente, vamos sentindo o desconforto de Jennifer Lawrence ( e da casa) com a presença dos indesejados hóspedes. Mesmo convivendo com o crescente caos, Jennifer Lawrence tenta manter o seu lar intacto, enquanto o marido está mergulhado na vaidade e busca receber o amor de desconhecidos. A ideia de ser adorado pelo casal estrangeiro o fortalece, tal como um alimento para o corpo. A benevolência de suas ações durante o filme nos causa mais aflição, sua maior necessidade é ser amado acima de todas as coisas. Vocês já ouviram isso antes, não?



Mas reparem, Jennifer Lawrence é a mãe natureza, a casa, a base de tudo. De uma forma mais simples, a atriz representa as mulheres que são mães, que cuidam do lar e da família. Mas também ela representa a mulher sem voz, que é ignorada, sufocada e submissa às decisões dadas em sua volta; ela é a pessoa que não ganha a atenção merecida. Javier Bardem é Deus, o criador da casa e dos elementos que surgem ao longo do filme. Ele também representa o homem egoísta, que não dá o espaço merecido à sua esposa, não leva em consideração os pensamentos e desejos de sua companheira. Apenas a sua voz é a mais importante e nada mais pode ser feito, a não ser substituir a casa. O que isso tudo lembra?

Quero falar mais dessas reações, das minhas. Num determinado momento da narrativa, quando Michelle Preifer já nos arranhou sem pedir licença, quando Ed Harris já tossiu nossas interrogações, quando minha bússola de assimilação sucumbe à labirintite do mise-em-scene, passo a não sentir meus pés, meu torso, meus braços, rosto, e me vejo em lágrimas, um claro sinal de que a obra me ultrapassou, e foi mais longe do que eu, mas já estamos no meio do caminho e não queremos voltar. Um modo furtivo de nos deixar assim, meio perplexos, querendo reagir, não importa qual a reação, dessa vez com o hater também contemplado no script, tem pra todo mundo, odiar não será novidade, amar pode configurar histeria, não há consenso, não há bom senso, e que bom, não há crítica pasteurizada.

Mas afinal, o que Aronofsky queria de nós? Há um risco assumido ali, e talvez um deboche inserido na própria ideia de ruptura, nessa invasão composta pelo que queremos, pelo que queríamos. Tipo, vocês não queriam baixaria? Vocês não queriam vaiar? A megalomania que aposta não apenas na catarse, mas na anti-catarse. (Então vaiem). Tudo o que se estraga, parece propositalmente estragado, crianças desmoronando seus infalíveis castelos de carta, antes que o vento o faça. Me parece um cinema que não depende do que temos a dizer, quando piora, é para valorizar o próprio tombo, quando salta, é sem nada a perder, até por isso queimará bastante em sua fogueira de perversões. Não sei ainda se 'Mãe!' é um material rindo das nossas projeções e comoções, do nosso jeito de sentenciar a arte, da religiosidade completamente rendida ao frisson ‘fandom’ viés fanatismo. Um falem bem, falem mal, mas façam tumulto, invadam a minha casa e desobedeçam minhas regras, velem os mortos das redes sociais, tratem a minha obra como a casa de vocês, mexam na privacidade, odeiem a J- Law, citem que essa é a minha fanfic bíblica, invadam esses espaços - supostamente meus. Ainda que alguém tente explicar o que esse filme queria de nós, a resposta são todas as respostas. 

Inté.

quarta-feira, 20 de setembro de 2017

A Garota no Trem



Dia desses assisti A Garota no Trem, acho que estreou faz pouco tempo. Foi um acaso, desses da vida. Dificilmente eu pararia duas horas da minha vida pra assistir um filme desses, só pela propaganda, que soava bem genérica, por sinal. Muito menos pelo resumo fornecido pela canal a cabo, suspense sei lá das quantas. Mas o certo é que parei e assisti. Noite de vento frio, teto rangendo, depois de passar a tarde ouvindo Slowdive.

When the sun hits e Girl on the train tiveram alguns efeitos devastadores e catárticos em mim. Slowdive sempre é devastador. Mas então. O filme (baseado num livro que, adivinhem? Escrito por mulher. De novo.) é surpreendente e este texto conterá spoilers, portanto pare de ler por aqui.

Alguns comparam A Garota no Trem à Garota Exemplar, outro livro que virou filme, um enredo intoxicante sobre um casamento que não deu certo e sua forte crítica ao estereótipo da 'garota que parece legal'. Bem, eu achei  A Garota no Trem diferente, e doloroso, que nem uma nevralgia lá pelas gengivas, coisa de dentina exposta. A gente lida aqui com a dinâmica traiçoeira do casamento e os efeitos destrutivos da misoginia internalizada. No caso, a garota no trem é Rachel, uma mulher solitária, divorciada e alcoólatra, que anda de trem diariamente, indo e voltando para Londres, com a esperança de conseguir esconder sua demissão da colega de apartamento. 

Todos os dias, o trem passa cruelmente pela casa onde ela, uma vez, viveu com seu adorado ex-marido, Tom. Ele ainda mora lá com a atual mulher, que por sinal foi sua amante, e a filha do casal. Rachel direciona seu foco nas casas um pouco mais adiante, onde outro jovem casal mora, e inveja a aparente abençoada parceria dos dois. Certo dia, ela fica chocada com o que vê na casa desse casal, a moça com vida perfeita supostamente traindo o marido perfeito, e logo depois a esposa desaparece (na verdade ela foi assassinada). Rachel, convencida que o evento que testemunhou é relevante, se envolve nessa trama, mas o alcoolismo debilitante e os apagões de memória causados pela bebedeira não permitem que ela seja uma testemunha confiável para as autoridades e até para si mesma. No auge da insanidade, ela procura o marido da moça sumida, e conta que era amiga dela, numa tentativa, talvez, de vivenciar uma vida e um amor que ela apenas imaginou. Nada é o que aparenta.  

A narração de Rachel, muitas vezes difícil de ler, por vermos sua luta com muitas recaídas e como ela se agarra desesperadamente às memórias escondidas na névoa de muitas noites de bebedeira, se alterna com as narrativas das outras duas mulheres da história. Megan, a esposa desaparecida, conta uma história no início, uma que complica o sonho dourado de Rachel sobre sua vida com o seu marido Scott. Compulsivamente desleal, cheia de culpa e perdida, Megan parece ser o problema na família perfeita que o casal poderia ter tido. Anna, a nova esposa de Tom, é um contraste impressionante em relação às outras mulheres; vaidosa, convencida e cheia de si, ela sente falta de ser a amante sexy que era, mas sente-se satisfeita de ter triunfado sobre a rival, a ex-esposa traída e patética. Seu amor pela filha e o medo da imprevisível Rachel dá uma certa intensidade ao seu personagem superficial. No entanto, logo fica claro que os apagões de Rachel e sua memória duvidosa estão escondendo algo mais profundo do que algumas noites irresponsáveis, e começamos a imaginar quem, entre os personagens envolvidos, está a salvo dos segredos escondidos nas brumas da memória de Rachel. 

No final das contas, o adorado ex-marido de Rachel nada tem de adorável. Tudo se revela quando ela encontra com a ex-chefe dele, que lhe revela várias verdades sobre o caráter de Tom, um mulherengo, mal caráter, sórdido e mentiroso. Rachel começa a lembrar de fatos do seu casamento, de agressões, de humilhações e se lembra do momento do túnel, em que viu Tom com a moça desaparecida. Eles eram amantes e foi ele quem a matou, após descobrir que ela estava grávida dele. A cena final pode parecer absurda, mas é uma espécie de recompensa epifânica, com a morte do patife pelas mãos da ex e da atual esposa, quase como num pacto de sororidade.  

Nos meus devaneios, entendi A Garota no Trem como uma gigantesca metáfora, quase alegórica, da vingança feminina, misândrica, sobre todos os canalhas que mentem e nos enganam. Matar é crime, mas a literatura está aí pra isso. O cinema também.

Bisous.
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