domingo, 3 de junho de 2018

Digital Influencers e o oitavo círculo do inferno



Quantos digital influencers são necessários pra se criar um consciente coletivo da frustração?

Acho que a quantidade já está excessiva, assim como as frustrações. Mas, as fias que se tornam isso, digital influencers, não pensam assim e seguem se multiplicando, tipo bolor no pão francês, escondido no fundo do armário da insegurança alheia. 

Eu escrevo blogs faz milênios e espero, Deusa, nunca ter influenciado ninguém a porra nenhuma, porque né? Sou um fracasso retumbante, que briga com véia surda no caixa da lotérica pra pagar os boleto. E no começo, éramos meia dúzia, utilizando Windows 95, compartilhando nosso azar na vida, que nem o Diário de Bridget Jones, escolhendo vodcka e chaka khan. Aí invetaram as blogueiras de moda e hoje, com a era Youtuber, as blogueirinhas (que eu não sei se o povo chama assim por carinho ou deboche). Elas não necessariamente escrevem algo, mas se filmam pra caramba no story do Instagram e Facebook, mostrando todo o seu "conteúdo" que consiste, basicamente, no que consomem, no que compram ou no que ganham porque são amadas por marcas e demais pessoinhas, ultrapassando os 10 k (10 mil seguidores). Ah, detalhe, pra pessoa digital influenciadora se dignar a te responder, reza a lenda que você também deve ter milhares de pessoas te seguindo, porém menos do que elas (a não ser que você também seja da panelinha digital) e, ser fã da blogueirinha e tals. Caso contrário, morra de base, efeito matte, esperando.

O problema não é que exista este fenômeno, ele era previsível até. Era óbvio que este povo migraria pra outra plataforma mais fácil do que a da escrita, levando em conta que mal sabiam escrever algo que prestasse ou valesse a leitura. Hoje por exemplo, me passou pelas vistas uma criaturinha dessas, regional (Ainda é tatuadora. Antes eram DJs, hoje são tatuadores) chamando um dos livros da Márcia Tiburi de enfadonho. Deve ser porque não tem gravura, né? Óbvio que a criatura humana pode achar enfadonho o que ela quiser. Eu só acho meio uó chamar um livro de escrita acadêmica, chorado e pensado pelos minguantes intelectuais que restam nesta república das bananas passadas que é o Brasil, de enfadonho. Enfadonha é a ignorância. E uma praga dessas é que influencia o povo, e não a Tiburi. Ou a Chauí. Porque a gente teima em não educar a galera, especialmente nossas meninas. 

Mas voltando, não se enganem, esse povo também não sabe falar. A maioria com problemas graves de dicção, fanhas e de vozes irritantes, agravadas pelas variações linguísticas e o pior de tudo, sem conteúdo. Porque, miguinhos, quando teu conteúdo consiste em tirar selfie do teu melhor perfil (a mesma pose, forever), de bico de pata, mostrando como você é privilegiada que não anda de busão, isso implica em dizer que vossa mercê não tem conteúdo, só aparência mesmo. Quando tem, né? Porque vejam bem, a Kylie Jenner, aquela moça pode ser qualquer coisa no mundo, menos bonita. Na verdade, ela já foi bem agradável aos olhos, antes de deformar o rosto com plásticas loucas. Mas todo mundo quer ser Kylie Jenner. O povo vai às lágrimas por ela, que não faz nada da vida (ela não canta, não escreve, não dança, não interpreta, não cria... nada). Ela é rica. E irmã da Kim Kardashian, que também é rica. A única ventura delas é que são filhas da Kris Jenner, que é uma figura, tipo a Gretchen, só que amiga do Lagerfeld. Se bem que... grande merda.

Dia desses, minha caçula me mostrou uma Youtuber negra num vídeo chorando porque estava cansada de não encontrar maquiagem pra pele negra. CHORANDO. É de cair a @ da bunda. Eu sou preta, gente. Não encontro base, corretivo, pó (dignidade humana também falta) desde os tempos em que se passava urucum na cara. E daí? É chato, mas que se lasque! Estou mais interessada em galgar meu espaço e me firmar nele, caso contrário, me derrubam sinistro, porque se mulher já não é considerada gente (e essa é a verdadeira luta do feminismo, pra nós, mulheres, sermos reconhecidas como seres humanos), pra mulher preta, pobre e nordestina é um tantinho pior, sabe? A criaturinha podendo fazer um canal massa, sobre empoderamento através da maquiagem ou até, olha que louco, algo mais relevante, tipo, cursos de maquiagem pra formar outras meninas, pra que tenham uma profissão e que não dependam de seu ninguém (liberdade, independência). Mas não, vai chorar pitanga porque cansou o vans de ir atrás de base. MEU POVO... MELHORE!

Imagem: Eu AMO! É duma moça de Hamburg (Alemanha) dentro da Weekday Store, numa festa de lançamento, em 2010. Pensando sério em fazer uma versão dessas pra mim, quiça trocando fashion blogger por digital influencers.

P.S.: Pra quem ainda não leu a Divina Comédia, a referência do título do post, o oitavo círculo é pra gente que é uma fraud. Inté.



quarta-feira, 30 de maio de 2018

Meu povo, melhore...



Observando toda a loucura desencadeada por conta da greve dos caminhoneiros e suas consequências, o desabastecimento que realmente está meio trevoso, eu me pego pensando, especialmente depois de conferir algumas postagens beirando a dor existencial via Twitter e Facetruque, de que algo errado não está certo com essa gente. Chego a conclusão de que o brasileiro atual não está iniciado na zoeira cíclica do própria país.

Obviamente que a situação em alguns lugares do Brasil está bem sinistra, falta remédio em vários hospitais, tem animais morrendo de fome e isso não é brincadeira. Mas véi, na boa, tem gente histérica porque tá faltando batata inglesa e alface! Meu povo, melhore. Sem falar na galera elitista e socialmente cega, que está pra cometer suicídio, porque já não encontra alho poró no Zona Sul (ou insira aqui o mercado metido a besta da sua cidade). Esse povo, essa gente, eu tô achando é graça, variando pra vontade sincera de meter um tapa no pé da orelha, quando o problema da criatura humana é a falta do melão japonês e das tâmaras do Egito.

Eu que sou professorinha sem fé, como diz aqui do lado, entendo o porquê do ódio que esse povo todo sente pela história, e continuo achando que burrice deveria doer. O tanto que o brasileiro médio emburreceu nos últimos tempos, que coincidiram com alguns dos melhores anos da história recente do Brasil, anos de fartura, de inflação controlada. Parece que o brasileiro gosta é de se lascar de verde e amarelo e agora, com patinho da FIESP.

Eu fui criança na década de 1980, peguei o final da Ditadura, do governo do meu xará Figueiredo, aquela santa criatura que preferia cavalo ao povo. O país completamente falido, arrasado, entregue pro defunto Neves que por consequência passou pro coronel do Maranhão, vulgo Sarney da ABL. Inflação de 84%. Você tem ideia do que é isso? Você acorda e o leite custa tanto e vai dormir com o mesmo leite custando 3 vezes aquele tanto. Tinha fila pra comprar leite que era limitado a dois litros por família.  E eram alguns dias da semana só. Foi daí que veio o hábito, que ainda persiste nos subúrbios de Fortaleza, das vacarias. Fulano cria umas vaquinhas leiteiras e pá, comercializa o leite, ali, na moita, sem fiscalização. O tal do leite mugido. Acho bucólico, mesmo odiando leite mugido ~ péssimas lembranças de ter que tomar com nata e tudo. Ah, e ainda me pedem intervenção militar e é pra já. Pra quê? Pra falir ainda mais o país? Todos fugidos das aulas de história, gente que acha bonito professor humilhado, vivendo de doação.

Quando meu pai morreu, eu tinha 11 anos e a gente se lascou bonito. Beiramos a fome várias vezes. Sobreviver era a meta e minha mãe, pobre soberba, gastava o que não podia pra me manter numa escola particular no Montese, quando a gente passava o mês comendo arroz com mortadela, comprado fiado na Bodega da Dona Maria. Mas eu tinha que estudar na escola particular. Não me entendam mal, eu reconheço os sacrifícios que ela fez pra conseguir me criar sozinha, mas era burrice manter filho em escola particular quando falta tudo dentro de casa, num país com inflação galopante e dinheiro desvalorizado. E faltava tudo mesmo lá em casa. Eu devo ter passado uns dez anos da minha vida sem comer chocolate e pra mim tudo bem. Mas você imagina uma criança ou adolescente dessa geração passar por isso? Desses que frequentam escola particular? Pois é. Minha última barra de chocolate na infância deve ter sido lá pros 10 anos, minhas tias, irmãs do meu pai, trouxeram pra mim de Pernambuco, mas daí meu pai morreu, a família dele nos enterrou juntos e, como éramos pobres de marré deci, só na vida adulta fui experimentar uma barra de chocolate inteira, só pra mim. Iogurte era uma vez por mês, quando saía a pensão. Eu passava o mês todo esperando. Rúcula eu pensava que era um xingamento. Quando ouvi a finada Ofélia, no seu programa de culinária, ensinando a fazer salada de rúcula com ricota e azeite (azeite?) eu, moça de família, até ruborizei. Como assim, palavrão na Tv Bandeirantes, na frente das câmeras, tá bom? Até hoje acho rúcula um negócio meio obsceno. Ofélia danadinha. 

O certo é que tudo na minha casa, e na casa de milhões de brasileiros pobres, num país em crise econômica e atrasado, era extremamente difícil. Um achocolatado pra colocar no leite, vulgo Nescau, Toddynho? Não, adoce com açúcar mesmo. Se a mãe estiver de bom humor, ela fazia um caramelo, açúcar queimado, e daí a gente tinha o leite colorido (até hoje gosto muito disso). Fruta? Banana maçã do quintal de casa, jambo e carambola das calçadas dos vizinhos, manga e caju dos sítios do bairro e acabou. Morango eu só sabia que existia  da tv, dos filmes e do sabor do Quick Morango, que era um dos meus luxos, também quando saía a pensão. Quando experimentei um morango pela primeira vez, minha cara retorceu toda, que deve ter entrado um grau, de tão azedo, coisa que eu não esperava. Eu esperava Quick, né? Batata frita? Gente, eu comi batata frita pela primeira vez na inauguração da McDonalds em Fortaleza (primeira vez com hamburguer também), meados da década de 1990. Refrigerante (que segundo Paola Carosella não é alimento... diz isso pra uma criança pobre que tem poucos prazeres na vida, fia)? Adivinha? Uma vez por mês também, tanto que eu sou viciada em refrigerante até hoje, especialmente o refrigerante mais gostoso do mundo, o de caju São Gerardo. Mas na minha época de erê era caro. Almoço era com um copão de água do filtro de barro e, aos finais de semana, um suco artificial, vulgo Kisuco, porque Tang também era luxo. Uma vez, fui fazer trabalho na casa de uma colega de escola, e a mãe dela pegou uma lata de doce de leite. UMA LATA DE DOCE DE LEITE. Abriu e serviu duas colheres enormes pra gente e, com suco de laranja que ela espremeu ali, na hora. Eu fiquei... What? Aquilo ali, pra mim, era o supra sumo da riqueza. Até hoje tenho como hábito comer doce de leite acompanhado de suco de laranja, feito na hora, porque hoje eu posso, mas eu sei o tanto que me custou conseguir, mesmo sendo pobre sinistra, proporcionar uma vida com menos carências pros meus rebentos.

Meus filhos não passaram por nada disso que passei e, mesmo assim, ainda se queixam da falta de microondas, do videogame, da boneca que falava, mas cresceram muito bem nutridas, com todas as frutas, verduras (inclusive rúcula), legumes e todos os mimos que eu podia fornecer, como bolo de chocolate com chantilly. E também não lhes faltaram os jambos e as carambolas roubadas das árvores da vizinhança, e as sacolas de mangas e cajus doados pelos donos dos sítios do bairro.

Daí eu vejo essa geração mimada, reclamando da escassez momentânea da abobrinha japonesa. Quanto despreparo, minha gente. Uma ilusão de vida confortável e plena, apenas uma ilusão burguesa. A gente tem que ser mais humilde diante da vida. Pode se cuidar com o bom e do melhor? Faça. Não pode? Sobreviva. Sou de uma geração de gente pobre sinistra que sobreviveu pra comprar mato orgânico e criar os filhos com açúcar demerara. Mas se não tiver, a gente vive sem. 

 Inté.

P.S.: O título desse post, segundo meus filhos, deveria ser "Cala boca, rapariga" hahaha, mas né?

domingo, 13 de maio de 2018

Forever 21 em Fortaleza e a vergonha seletiva



Eu sempre quis um brechó. Tá, nem sempre, mas é um desejo sincero. E possível! Tem umas peças  que eu quero me desfazer faz um tempo, todas novas e diferentes, fruto de muita pesquisa e do meu gosto peculiar. Inclusive, no meu tempo de faculdade, o povo achava que eu fazia estilismo em vez de letras. Apesar de que sou muito apegada com as coisas (lua em touro, né bebê?), mas como dizem, é bom pra fazer circular as energias e tal. 

De uns tempos pra cá, um monte de gente fofa está fazendo exatamente isso, via contas em redes sociais, especialmente o querido Instagram (insta não, gente, pelo amor da Deusa!). Algumas mais ousadas até vendem criações próprias, o pessoal da moda da UFC. Creio eu que o curso de Design de Moda da UFC deve ser um dos únicos em universidade pública no Brasil, cheinho de gente criativa e bacana. E bem intencionada. E de boas intenções o inferno está cheio, já dizia o cristão.

Esta semana foi marcada, aqui em Fortaleza, pela inauguração de uma Forever 21, fastfashion americana que aparece nos closets de 9 entre 10 blogueiras de merda desta internê das modas. Por que de merda? Porque este povo personal influencer de lookbook só sabe ostentar uma vida impraticável pra maioria das garotas e mulheres dum país proletário e lascado que nem o Brasil. Falam de consumo, mas sem consciência alguma, nem social, nem ecológica, é a ostentação pela ostentação, fora a falta completa de conhecimento mínimo sobre moda. E os estilos são os mesmos, ou seja, não é estilo porcaria nenhuma. E o pior é que realmente acabam sendo formadoras de opinião, só que torpe e deturpada, gerando uma visão deformada e doente, fazendo com que uma galera acredite que preencherá o vazio de suas vidas com compras e mais compras. Fora as que não conseguem comprar tudo o que querem, nem metade do que querem, e caem num estado patológico de ódio de si mesmas e da vida de pobre, sendo a tal vida de pobre não poder comprar 1000 micheisinhos de roupa, acessórios e maquiagem toda semana, como estas personal influencer fazem.

A culpa não é da Forever 21, a marca no caso tem outras culpas que se relacionam com a sua lógica de mercado, da roupa feita em larga escala, copiando outras criações e o pior, explorando o trabalho análogo ao escravo. A culpa é da gente que tem mente fraca, moldada pelas teias do fetiche do objeto, e acha que se a gente não acordar borrifando água micelar que a Alix do Cherry Blossom Girl usa, a gente não vai ser feliz. 

Daí a Forever inaugura, na verdade foi forçada a inaugurar antes do que havia anunciado, porque invadiram o evento que era só pros ~sic~ VIPs e a imprensa local. E o povo lindo e bem intencionado dos brechós e similares da cidade começam a levantar (tentar, né) hash tag de #VergonhaFortaleza, por ser o que é, uma sociedade de consumo. Mas vem cá, isso não é todo dia, não? E este povo que está criticando tem criação de ovelha, faz tosquia, daí tece e confecciona as próprias roupas, que nem o pessoal das montanhas peruanas? Meu povo, melhore.

Eu estava lá no tal dia, fui quase à noitinha. Tinha fila pra entrar no provador, inferno na terra. Fiquei quase uma hora na outra fila, a do caixa, pra pagar umas poucas coisinhas que minha filha Carol queria muito, e eu não sinto vergonha alguma disso e nem acho que minha fama de bruxa comunista arrefeceu, muito pelo comentário. Eu sei exatamente o que estou comprando, sei exatamente o que a Forever 21 é, assim como a Zara. É o meu dinheiro proletário, suado, batalhado e já disse tio Marx, se a classe operário tudo produz, a ela tudo pertence, do iPhone à roupa fuleiragem da Forever 21. Acho lindo esse povo artista do Meirelles, da Aldeota, daquele tipo que vai no Poço da Draga fazer arte e usurpar o espaço dos artistas locais, deslocando seus lugares de fala, se passando. A exemplo duma certa marca aqui de Fortaleza, que tem endereço na Monsenhor Tabosa, a rua das sacoleiras da cidade, mas numa parte que é uma outra Monsenhor Tabosa, de rico, cuja cria da marca compra em labels elitistas, dessas de verdade, que você compra uma saia e uma 'brusinha' e gasta o equivalente pra comprar um carro tipo Gol 2000 (ou um iPhone X :P). Os hippie chic que fala, né? Bohemian Coachela, que vestem globais e querem entubar camiseta de malha vagabunda, com escritos se apropriando das pautas feministas, vendidas por 300 micheis... Como que fala de consumo consciente? E a noção, cadê? Ah, e ainda destrata vendedora. E uma criatura dessa quer se passar de good vibes, engajada e que está com nojinho de FortalezaPorra nenhuma. E é dessa gente besta, sem consciência social, sem empatia que eu estou falando. Faça seu brechó, garota do Meirelles, crie sua marca pro-diversidade, é lindo, mas deixe de ser escrota e trate esta sua miopia social. Não adianta boicotar a Riachuelo e ser miga da chef que humilha atendente de loja. Boicote, mas saiba que o povo que compra nas fast fashion brasileiras tem 180 pra comprar o vestido floral da primavera (parcelado em 8 x, sem juros, no cartão da loja), mas de repente não tem pra pagar 600 na grife que tem nome de fazenda, só que é praieira, e dessa grife, você tem ou teve coleção no seu closet, enquanto a gente, que tem que se envergonhar por comprar na Forever 21, tem é guarda-roupa comprado no queima da Magazine Luiza.

Sinceramente, quantos de vocês que estão com vergonha de Fortaleza por causa da Foreevr 21 compram de produtores têxteis cearenses, tipo Emcetur, Mercado Central, Beco da Poeira? Eu compro ó.

Inté.

Imagem: Orgulho define esta foto, duma vitrine de fastfashion brasileira, acho que foi em 2006. Momento certo, tudo a ver com o post.



domingo, 6 de maio de 2018

Vingadores, Guerra Infinita - Do pó viestes...



Filme de super-herói virou motivo de briga, de piada pseudo-intelectual, mais ou menos que nem novela, que se você admite que gosta, aparece aquele iluminado pra tirar onda, pra menosprezar sua inteligencia. Como se o fato de gostar desse tipo de filme fosse um crime ou atestado de ignorância, tipo usar croc. Brinks.

Agora a moda é desdenhar dos filmes da Marvel e da DC. Se bem que se os filmes em questão forem Lanterna Verde e Homem formiga, eu até que debocho junto, porque né? Brinks de novo. Tá, tudo bem, eu debocho mesmo, mas depois de assistir e avaliar que é ruim de verdade. Muito ruim. Taca fogo. Já a galera que estou citando, que está, por exemplo, fazendo pouco caso do excelente filme dos Vingadores (o melhor deles, até agora) é só pra se passar de sei lá o quê. Mero preconceito do pessoal que cresceu os dentes assistindo Bergman, só que não, né? Só se tiveram mães loucas, que nem eu, que assistia Gritos e Sussurros com os erês ao lado. É só uma gente presunçosa pra caramba.

Difícil é fazer essa galera entender que o mito não morreu e foi enterrado com Sócrates lá na Grécia. O mito, como viés de compreensão do todo, do nada, de nós, ainda está muito vivo. O que acontece é que eles se transformam em santos ou, em personagens de blockbuster de Hollywood e alguns ainda são deuses, como Thor e Loki. Eles representam o melhor de nossas expectativas, o extraordinário, o fantástico, em que a ressurreição, além do apocalipse, é real. Por isso nos emocionam, nos cativam, nos fazem rir de nós mesmos, e esquecermos de nossa pequeneza perante o incomensurável, numa sala de cinema, por algumas horas.

Fazer pouco caso disso é que é verdadeiramente pequeno e só vale se você é a Judie Foster, aí sim Caso contrário, Méliès te despreza. 

Post scriptum: Ah, mas eu tenho certeeeeza que se Méliès estivesse vivo, ele amaria as peripécias pirotécnicas dos filmes de super-herói americanos.

sexta-feira, 4 de maio de 2018

O Karma de Bastet


Existe toda uma magia entre amantes de livros e gatos. Brega, né? Sim, muito. E mentira, tá? Tem mané magia porcaria nenhuma, só se a criatura humana tiver menos do que três gatos, forem todos fêmeas ou machos castrados e ainda, se passarem 20 horas dormindo. Ah, e que seus livros fiquem longe das unhas e das vontades malignas dos seus felinos. Caso contrário, é muita dor de cabeça e produtos especiais de higiene de casa.

Não me entendam mal, eu crio gatos há quase vinte anos, meus filhos cresceram com gatos e livros e por isso mesmo sei do que falo. A equação livros+gatosmachos+adultos+nãocastrados (e às vezes castrados também) é um inferno dantesco, do nono círculo.

Sabe aquele seu livro caríssimo, que você comprou na Amazon, edição especial, importado, capa dura, jacket fofa? Se você der bobeira, o gato vai marcar território nele, sei lá porque praga egípcia. Segundo consta (sonho profético), Bastet é minha Deusa guardiã, algo assim, e já perguntei pra ela inúmeras vezes o porquê dessa pataquada na minha vida, mas nada de resposta, não uma que eu entenda. Quer dizer, só mais gatos. Tipo, segura que o karma é teu.

Mas veja bem, mesmo passando por toda esta sina, nunca desistiria de nenhum dos meus gatos, porque apesar deles me enlouquecerem, eles fazem parte da família e estão sob a minha proteção. Todos dentro de casa, lugar de gato sempre é dentro de casa. Por isso que não suporto quando o povo vem falar de alergia a gato e sei lá o quê pra justificar sua raiva. Meu povo, eu é que tenho todos os motivos do mundo pra odiar gato e meu amor por eles não arrefece. Meus gatos já quebraram porcelanas importadas, já fizeram xixi em livros antigos, rasgaram cortinas, comeram meu alecrim, quebraram minha polaroid e nenhum voou pela janela, na verdade minhas janelas são todas teladas. Você não gosta de gato, porque é uma pessoa escrota e acabou.

Pra quem não sabe, Baste é uma deusa egípcia com cabeça de gato, divindade solar e da fertilidade, além de protetora das mulheres. Também tinha o poder sobre os eclipses solares. Quando os gregos chegaram ao Egito, eles associaram Bastet com Ártemis, embora esta deusa esteja eminentemente relacionada à lua, enquanto Bastet inegavelmente estava relacionada aos mitos solares. Os gatos sõ considerados portais pro outro lado, protegidos, obviamente, por Bastet.

Inté.

terça-feira, 1 de maio de 2018

Os pequenos tomates do Jóquei Clube



Um dia por semana eu almoço num dos bairros onde trabalho, no Jóquei Clube e como sou pobrinha, fico de olho nas promoções de almoço baratinho, porque né? Comer fora de casa é muito caro. Na maioria das vezes, é caro e ruim. No Jóquei, tem o shopping que é caro e não tem lá uma ótima variedade, e os restaurantes que vendem algo tipo um pf pelo bairro mesmo são daquele tipo, variando entre comida caseira mais ou menos e a horrível. Óbvio que o barato é horrível, invariavelmente.

Recebi uma recomendação desses pf via delivery duma pessoa que muito se assemelha a um amontoado de abóbora (jerimum). Não o pf, a pessoa mesmo. Daí você super acredita que alguém que se assemelhe com uma fruta (não é curioso que a abóbora é uma fruta? que nem pimenta, né?) vai dar dicas legais de comida, mas não, ledo engano. A comida era uma porcaria e numa porção que não mata fome nem de anão, pensando preconceituosamente que anões comam em proporção ao tamanho. deixeparalá. Abri a tampa do negócio e estava lá, aquela comida hor.ro.ro.sa numa porção esmola, que me deu vontade de chorar, e me levou lá pra 2002, na inscrição do vestibular, onde eu deveria ter escolhido arquitetura. E o pior da porcaria da comida era a salada, uma das coisas que eu mais amo, a coisa mais deprimente da refeição toda. Umas três tiras de alface e umas rodelinhas de tomate ridiculamente pequenos que não eram tomates cerejas. Depois vamos digredir sobre os tomates.

 Em contraste com meus almoços no Jóquei, na minha casa como muito bem, nos restaurantes do Benfica, onde moro, como Mandir, Rango Verde a gente encontra orgânicos, saladas nada ridículas, azeite, óleo de coco, óleo de uva verde, especiarias, coisas que você que não é lá muito chegado, pode estar pensando que é ruim caro, quando não é. Um pote de curry custa menos de 3 golpes e dura meses, uma alface orgânica custa apenas 50 centavos mais cara que a cancerígena não orgânica, fora que você ainda compra de produtores locais, da agricultura familiar, que ainda vai salvar o planeta (eu sou uma pessoa de fé) e é uma comida que é simplesmente maravilhosa. 

Do outro lado da cidade, do meu outro trabalho, digamos que é a área elitista, e tem comida de tudo que é jeito. Tem até um café coreano agora, olha só, grande bosta, né rs? Até que é, vai, Fortaleza está ficando cosmopolita, ao menos na gastronomia. Tem o Take a Juice, perto do meu trampo nas Aldeia, que tem uns sandubas naturais que eu classificaria como maravilhosos. Tem a Natural leve, a POT, que é longe, mas eu gosto bastante e todos entregam onde você está. Quando eu abro a embalagem, vem aquele aroma de azeite e vinagre de maça, mostarda e mel, leveza e saúde. Ok, eu posso até estar me enganando e toda aquela verdura bucólica e árcade estar carregada de agrotóxico, apesar do que os restaurantes afirmam, de que não, e daí os preços abusivos, mas é completamente diferente. E fico pensando, será realmente que as pessoas do bairro periférico não querem comer desse jeito, ou é o mercado que quer que pobres comam mal, muito mal, assim como estudem pouco, e não vão ao teatro, galerias de arte, etc coisa e tal? E daí me dá uma tristeza, sabe?

Mas né? Pois é. Comecei a viajar sinistro no tamanho dos tomates do Jóquei Clube. Um dia, alucinada olhando pra tristeza da comida que eu havia acabado de comprar no delivery do homem abóbora, umas folhas de alface cortadas, um peixe mal empanado do outro lado, reparo no tamanho dos tomatinhos. Não, não eram tomates cereja, ou as tomates grape (por que uva?), eram tomates supostamente daqueles que a gente compra pra salada, só que ridiculamente pequenos. E lembrei que do outro lugar que comprei por delivery, no mesmo Jóquei Clube, me veio de novo estes tomatinhos sem vergonha, pequenos e ridículos. Mas aí, tive um insight orgânico, de que estes tomatinhos tão miudinhos, mas docinhos que só eles, suculentos, pra terem aquele tamaninho, produzidos numa terra que não é a apropriada, só poderiam ter aquele tamaninho sem intervenção humana, plantados ao natural, nascidos num quintal, numa chácara do Passaré (de onde, inclusive compro minhas plantas) e, sem agrotóxicos. E fiquei feliz, que de repente, todos estamos cercados pela santa armadilha do pensamento verde, até quem não sabe.

Inté.

Imagem: coisas lindas e orgânicas da feira da Praça da Gentilândia. Menos o azeite, claro. Ah, o manjericão é da minha sacada ;). Pense verde, bebê.

domingo, 29 de abril de 2018

Lua Rosa



Quem me conhece um pouquinho mais sabe que eu, faz muito tempo, professo duma outra fé, ligada à ideia do Sagrado Feminino, do Matriarcado, da Grande Deusa, algo que é caloroso, verde, afetuoso, um caminho de se descobrir ou redescobrir através do exorcismo da culpa cristã. Eu, nascida e criada por uma pseudo-carola metida a rezadeira, super precisava dessa libertação. Encontrei este caminho quando morei em Brasilia, num encontro esotérico que teve de tudo, incluindo a religião da Deusa. De lá pra cá, foram muitos anos em que oscilei entre a dedicação quase sacerdotal  e o afastamento difícil de entender, e que me fez muito mal. Nunca deixei de crer na Mãe, mas algo me desviou do caminho e abandonei as celebrações da Roda do ano, e até os Esbats. E é óbvio que isso tudo me fez muito mal. Estou voltando agora, ainda falhando na coisa da prática meio canônica da coisa, mas sim, reintegrada. E, num dia tão especial como hoje, vejo que estou de volta às sendas corretas, poque hoje é dia de Lua Rosa!

É um Esbat muito especial. Pra quem não sabe, Esbat é o primeiro dia de Lua Cheia, temos 13 ao todo no calendário lunar. É uma celebração celta e outras fés matriarcais também compartilham, mas com outros nomes. A palavra é de origem gaulesa, ou francês arcaico, algo entre o latim e o francês moderno, esbattre, que significa alegrar-se, e é isso que toda filha da Grande Mãe sente num Esbat, uma profunda alegria! 

Hoje, acordei cedo como sempre, mas fui cuidar da limpeza da casa, uma profunda limpeza, com água corrente, tirando as impurezas, mentalizando a limpeza do ambiente em todas as instâncias. Acender incensos apropriados ajuda no clima. Depois, fui cuidar do meu jardim de vasos. Como moro num sobrado que não tem terra, é assim que chamo o meu jardim, jardim de vasos. Fui meio ousada e podei minhas bougainvilles, apesar de que a lua certa pra isso é a crescente, mas eu senti que era preciso e elas me pediram. Sim, eu escuto minhas plantas, óbvio que não com palavras, mas com a linguagem herbal, todo mundo que toma conta do verde entende sua linguagem.

Este Esbat é ainda mais especial porque temos uma Lua Rosa, que é uma lua cheia próxima de algum dos quatro grandes Sabbats. É chamada também de Lua dos Desejos ou Lua dos Pedidos, por conta da energia desse período e, se você merecer, seu desejo pode se realizar. Tem muita gente apostando na coisa amorosa, por conta da lua cheia estar em escorpião neste momento, signo da água, muito ligado à sexualidade. Veja bem, sexualidade. Cuidado com o que deseja.

O que eu faço? Penso num desejo e o escrevo num papel pra depois guardá-lo no meu altar, sob um cristal, daí repito este pequeno ritual a cada mudança da lua, até a próxima Lua Rosa. Se for merecedora, o desejo se realiza em três luas cheias. Mas não deve parar de repetir o ritual.

Slán.

sábado, 28 de abril de 2018

Laços



Esta semana, estava lembrando de mim, quando erê, meus planos pra vida adulta. Teve a fase em que eu queria ser pirata. Sim, eu queria muito ser pirata. Daí eu substitui por capitã da Enterprise, mané Kirk o quê. Isso tudo, viajando lokona do toddy, debaixo da mesa da sala de janta, que foi convés de navio, foi sala de comando da Enterprise dentre outras coisas. Acho que por isso também não cresci né? Segundo a lenda urbana cearense, criança que brinca debaixo da mesa não cresce, genética nada tem a ver com isso.  Depois eu queria ser Indiana Jones. Repare que não era arqueóloga, eu queria SER o Indiana Jones, correndo da pedra coisa e tal. E é claro que teve a fase em que eu super queria ser da Rebelião de Star Wars e dar um jeito de estar na Millenium Falcon. Deixe que isso tudo na minha cabeça era possível, eu com 6, 7 anos. Daí fiquei mais velha e descobri o que ficção significava. 

Não que eu tenha me convencido 100% disso, 'cause I do believe in fairies ;). Isso tudo veio numa conversa com meus filhos, eles me contando que bem novinhos, acreditavam que as cartas da Sakura (Card Captors) eram mágicas de verdade, e que eles, escondido de mim, pegavam meu Tarot e ficavam esperando algo fantástico acontecer. Eu fico imaginando isso com o arcano 15 (O Diabo), eles pensando "Vem, capeta!" e o 16 ( A Torre), "tiro, porrada e bomba". Seria no mínimo curioso, um crossover da quinta temporada de Supernatural, Dragon Ball Z e Congresso brasileiro.

Mas aí que eu comecei e me indagar, o que aconteceu com uma parte das crianças de hoje, ao menos as que eu conheço, que não acreditam em nada a não ser em laços gigantes na cabeça (o que, pelo nome da Grande Deusa, são estes laços gigantes? Quem inventou esta moda?)? Não acreditam em criaturas fantásticas, não querem saber onde habitam, não brincam com bolinhas de sabão, o negócio é tablet e eu aposto que, se virem uma joaninha, em vez de se encantar, vão buscar um inseticida. Sério, o que aconteceu com o mundo? Ou com Fortaleza, em que o cinismo chegou à infância? Ou eu  que sou retardada mesmo?

Inté.

Imagm: Tim Walker para Vogue Italia.

domingo, 22 de abril de 2018

Westworld Segunda Temporada - eita pleura



Depois daquele shade sinistro do diretor de Westword, de que revelaria spoilers no segundo trailer e daí desmentiu, mas eis que sim, vieram os spoilers! Pra você, queridinho, que não gosta desse tipo de coisa, pare por aqui. Pra você que, como eu, sofre de bicho carpinteiro da curiosidade, vamos lá!

Gente, o pulha do William/homem de preto está vivo. Que droga rs. Tanto que eu torci pra que ele fosse m.a.s.s.a.c.r.a.d.o., mas daí o cara me aparece vivinho no trailer e ainda tem aquela cena cabulosa dele com alguém (Dolores). O que sairá daí, meu povo?!? E qual é a desse mané, afinal de contas? Já sabemos que ele é ruim com traços de psicopatia (que nem o ministro lá do Supremo brasileiro), mas o que ele quer com a "libertação" dos anfitriões? Ver quem ganha no final? Libertá-los e daí falir, já que o parque todo é dele? Véi, na boa, não entendo. 

Ford, ao que parece, morreu mesmo. Pode ser que aquele anfitrião que estava sendo feito naquele "esconderijo" fosse um Ford sintético (ou outra coisa pior), vai saber, mas o certo é que nada de Sir Anthony Hopinks nesta temporada. Mas, o véi capiroto morreu, armou a própria morte inspirado no antigo sócio, Arnold. E por falar em Arnold, e o Bernard? Pelo trailer, parece que ninguém, ou quase ninguém (a parte em que vemos Charlotte e os três Bernards é tensa) sabe que ele é um anfitrião, mas a Maeve sabe. E ela , hein? Que finalmente despertou, quando decidiu sair do trem pra encontrar a filha.

São vários elementos a serem analisados e que possivelmente não revelam porcaria nenhuma, talvez uma ou outra coisa bem superficiais.

O tema da primeira temporada era O Labirinto, a maneira como os anfitriões chegam à consciência, à vida, uma jornada para dentro de si. Desta temporada é A Porta. Aí você já fica: Oi? Que mané porta? De saída?(!)

Até agora temos o nome dos cinco primeiros episódios:
1. Jornada noite adentro, que deve ser a sequência do último episódio da primeira temporada, com flash backs, sangue, gritaria.
2. Reunião: ou seja, temos um encontro ou um reencontro.
3. Virtù e Fortuna: Príncipe, de Maquiavel, basicamente, virtú deve ser vista como uma forma do livre-arbítrio do governante, sendo a principal variável na condução do principado. Já a Fortuna constitui-se na indeterminabilidade de parte dos resultados do governo: ela deve ser dominada, conquistada para o benefício do príncipe. E quem é o Príncipe? William? 
4. O Enigma da Esfinge: Decifra-me ou te devoro.
5. Akane no mai (Bem-vindo a Shogun Park): e aí teremos chegado à metade da temporada, direto pra este outro parque, e aí a série deve ter uma reviravolta ou algo que o valha.

E aí? Até daqui 5 semanas.

Inté.


Maternidade



Assistir Divinos segredos despertou uma série de coisas em mim. Parece que faz tempo, já que a última postagem sobre é de uma semana atrás. Mas, devo confessar que este post estava agendado - aliás, vou ver se faço assim, pra ver se consigo deixar ao menos uma publicação por mês por aqui. Primeiramente, lembrei dos outros filmes de mães disfuncionais que coleciono, como A Excêntrica família de Antônia, Álbum de família. Depois, da onda recente de desromantização da maternidade, fenômeno pós boom do feminismo nas redes sociais e em nossas vidas.

Fui mãe muito cedo, tinha só 18 anos quando meu filho mais velho nasceu e lá se vão quase 23 anos. Como já confessei no dito cujo do post sobre Divinos segredos, minha relação com a minha mãe é um lixo e, óbvio que quando engravidei ainda adolescente do namorado da escola, namoro que foi proibido, a relação que já era uma bela duma merda, ficou ainda pior. Não, minha mãe não se enterneceu pela gravidez da única filha, pela vinda de mais um membro da família, mesmo quando soube que era menino, ela que sempre quis um filho homem, foi aí aliás que eu comecei a errar pra minha mãe, porque não nasci homem. Né, que triste? Então, minha santa mãezinha - capte a ironia - nunca conversou comigo sobre nada que tivesse a ver com sexualidade e, muito menos maternidade. Nada me falou das dores ao longo do processo de gestação, do desconforto, da insônia, do susto que a gente toma quando o trenzinho começa a mexer. Não me falou dos exames pré-parto que passamos, que lembram muito mais um assédio sexual, inclusive eu dei na cara do obstetra. Não falou da violência que é um parto, dos cortes, do pós -parto, dos seios machucados, e de todo desespero que é cuidar de um recém-nascido.

Então, por conta de todos estes traumas, eu sempre que tinha oportunidade, desconstruía essa coisa romântica da gestação como um estado de graça, pra todas as mulheres da minha vida, desde filhas, amigas até alunas, pois me sentia na obrigação. Ser mãe é uma coisa muito maluca e difícil, muito difícil mesmo. Todas as etapas da maternidade são uma luta. Talvez, pra mães solo, como eu, seja ainda um pouco mais assustador, porque a gente erra e voilà, a culpa é toda nossa, sem compartilhamento com o companheiro fujão. Apesar de que conheço mulheres casadas em que a coisa funciona do mesmo jeito, coisas desse patriarcado quengo.

Agora estou na fase dos filhos no final da adolescência e já passei por poucas e boas. Ou melhor, passamos por poucas e boas e, a tendência, acredito com força, é fica melhor, porque eles são meus companheiros e amigos, inclusive daquele tipo de amigo sincerão que joga umas verdades na cara. E como jogam. Criá-los paticamente sozinha foi duro, doloroso, mas também foi muito muito bom, tanto que nunca me imaginei sem eles, nunca desejei voltar no tempo e não tê-los, nem mesmo nos piores momentos. Às vezes, me sinto culpada, porque me acho egoísta. Eles mereciam ter uma mãe mais boazinha da cabeça, que não tomasse tantas decisões erradas, menos socialista, mais capitalista de repente. Mesmo eles me dizendo que gostam da nossa vida de aventuras proletárias.

Isso tudo pra dizer a todas as futuras mães que, por acaso passarem os olhos neste texto, que sim, a gravidez não é um romance do século XIX, idealizado. Na verdade, está mais pros piores e melhores momentos do Realismo/Naturalismo. Mas, por muitas vezes, é tão lindo quanto um soneto de Shakespeare. Sim, há muita dor e desespero no caminho da maternidade, mas há o amor, e é daquele tipo que faz tudo valer a pena.

Inté.

Imagem: Selma de Dancer in the Dark.
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