quinta-feira, 26 de julho de 2018

Blood Moon


Amanhã, dia 27 de julho, teremos um eclipse lunar (total) bastante esperado e bem peculiar, pois envolve não só o eclipse em si, mas uma série de outros fenômenos, como a oposição de marte (o que quer dizer que estará mais próximo da terra, coisa que já podemos perceber olhando pro céu à noite), conjunção planetária (Marte, Terra) e uma chuva de meteoros. São eventos que, fora do contexto místico, pra quem acredita como eu, já proporcionariam uma noite muito especial pela beleza.

O certo é que pros cultos do Sagrado Feminino, o eclipse lunar de amanhã representa uma Blood Moon (Lua de Sangue ou Lua Vermelha). De forma prática, o Sol, a Terra e a Lua ficam alinhados fazendo com que a Lua entre na sombra da Terra, chamada de Umbra. Diferente da Lua Azul, onde a a Lua não muda de cor, durante um eclipse lunar total a Lua muda de cor sim, ganhando um tom avermelhado e por isso o nome. De forma mística, uma Blood Moon representa a união entre os Deuses, o que gera grande poder e magia (dia de feitiço, bebê!). 

Os mais básicos são feitiços que peçam prosperidade e inspiração, aproveitando que, apesar da constituição meio punk dessa conjunção astral (explico já), se você reparar bem, fechar os olhos e se concentrar, já dá pra sentir a inspiração. Os mais sensíveis devem estar 'ensimesmados', introspectivos e carregados de ideias (inspirações).

Ok, mas por que punk?

O mês de julho todo, falando do astral, está sendo um mês pesado por conta de sua configuração. Dia 12 último passamos por um eclipse parcial e, até esse dia, é possível que muitos tenham passado por rompimentos, separações, especialmente no âmago familar, eu por exemplo, passei. Já estamos sob a influência do eclipse do dia 27 e amanhã será seu ápice. Esse eclipse terá um efeito singular nos leoninos e aquarianos, por conta de toda a sua constituição (o eclipse ocorrerá num eixo fixo Leão-Aquário). 

Acredito (e farei) um rito de agradecimento à Deusa por tudo, porque a gente cai pra poder levantar, não é mesmo? Não vou ensinar um feitiço passo a passo, porque há tantos nesses dias fortuitos de internet (imagina que tenso na época das fogueiras, né?), mas se quiserem dica, procurem qualquer feitiço de Gerina Dunwich. Eu faço um bem simples:

No seu altar (ou em algum lugar que se veja a Lua, se possível, no meio do mato), os objetos de costume, uma vela branca acesa pra Deusa, um incenso do seu gosto, um instrumento musical ou, a disposição de cantar pra agradecer por tudo (lembrando que a voz humana é um instrumento perfeito). Trace o círculo, faça as coisas como devem ser feitas e chame a Deusa, cante (ou toque pra ela) e agradeça. 

É muito simples, sensível e muito poderoso, a ritualística dos filhos agradecendo sua Mãe.

So be.


quarta-feira, 25 de julho de 2018

Suspiria



Como que eu nunca havia assistido Suspiria, é o que me pergunto desde que assisti, há poucos dias. O nome do diretor italiano Dario Agento não me é estranho, até porque suas realizações influenciaram abertamente outros diretores cuja obra eu cresci assistindo, como Halloween, Sexta-feira 13 e os filmes de Tim Burton. Só que, infelizmente, Agento só me chegou agora, na minha maturidade, uma lástima pra mim. E se você gosta de filme de terror e ainda não entrou em contato com o espetacular universo de Agento, faça-o logo. 




 Os filmes de Argento não economizam nas mortes sangrentas e cenas aflitivas. Entretanto, o mestre do “giallo” (amarelo em italiano, nome dos filmes de terror italianos - explico já o porquê do nome) sempre foi considerado um cineasta inovador e esteticamente cuidadoso. Produções suas como Prelúdio para matar, Tenebre e O pássaro das plumas de cristal, realizadas nas décadas de 1970 e 1980, são clássicos de terror. Seu título mais conhecido é justamenteria Suspiria, graças à construção do clima de medo por meio de cores saturadas e uma trilha sonora arrepiante, é quase uma unanimidade. O filme me chamou a atenção por conta do remake, que será dirigido por Luca Guadagninob (Call me by your), inclusive parece que era um sonho antigo desse diretor, já que Suspiria é seu filme favorito. O remake tem no elenco as atrizes Tilda Swinton e as fraquinhas Dakota Johnson e Chloe Grace Moretz, essa última já tem no currículo a péssima versão do remake de Carrie A Estranha, uma desnecessidade. Daí que já se fica ressabiado, mesmo que o teaser do trailer seja bem convidativo. Ah, essa nova versão conta com trilha de Thom Yorke, o que é muito bom também, já que a trilha na versão original é incrível. 




Assistindo Suspiria, dá pra perceber a importância do expressionismo alemão da década de 1920, de diretores como Fritz Lang e F.W. Murnau, e o cinema surrealistas de Luis Buñuel. Sua estreia como diretor foi 1970 com “O pássaro das plumas de cristal”. No filme, o assassino aparece com luvas pretas, que são usadas pelo próprio Argento. A marca se repetiria em diversas produções suas. O pássaro é a primeira de uma trilogia sobre animais que também inclui “O gato de nove caudas” e “Quatro moscas sobre veludo cinza”. Em 1975, ele lança “Prelúdio para matar”. Sanguinolento, o filme foi pioneiro dos slasher films, em que um assassino trucida pessoas com instrumentos cortantes. Entre os influenciados está “Halloween - A Noite do Terror”, dirigido por John Carpenter, de 1978. O título original do filme, “Profondo rosso” (ou “vermelho profundo”), alude a sangue, mas também sinaliza a importância da cor, portanto do cuidado visual, na violência filmada por Argento. Seus filmes são decerto brutais e frequentemente estéticos. Em “Prelúdio para matar”, Argento colabora pela primeira vez com a banda de rock progressivo Goblin. Liderada pelo brasileiro radicado na Itália Claudio Simonetti, a tensão musical criada pelo grupo se tornaria um componente essencial da obra de Argento. 


 Suspiria: Uma estudante descobre um mundo de bruxaria e horror em uma escola de dança na Alemanha. A trama de “Suspiria”, como de costume nos filmes de Argento, é simplória, quase nula (a maneira como a bruxaria é retratada no filme em termos de enredo-roteiro é de uma tosquice comparável à Uma noite Alucinante, mas é apenas um detalhe). O filme de 1977, entretanto, é considerado o ponto alto da filmografia do cineasta. Com os anos, se tornou objeto de culto, junto com a trilha sonora, outra vez da banda Goblin. O impacto e a ousadia em “Suspiria” vêm em grande parte de seu uso de cores. Vermelho, azul e verde, os tons primários, surgem saturadas, artificiais, fortemente contrastadas com partes profundamente escuras. Argento empregou uma variante do processo de colorização Technicolor para conseguir o efeito visual. Com elementos clássicos como feitiços, bruxas e a floresta negra, “Suspiria” foi descrito como “um conto de fadas gótico”. Para fazer Suspiria, uma total abstração do que chamamos de ‘realidade diária’, foram usadas cores primárias, que são geralmente tranquilizantes, apenas na sua forma mais pura, fazendo com que ficassem violentas e provocativas de forma imediata e surpreendente. Argento constrói a história de maneira que os momentos mais horrendos têm uma beleza horripilante. Mesmo os espirros de sangue parecem meio que com uma pintura viva de Jackson Pollock. Como dito no começo, em italiano, “giallo” significa “amarelo”. A cor passou a ser associada no país a histórias de terror e mistério na década de 1930 graças a uma série de livros “pulp” chamada “Il giallo Mondadori”. Publicadas pela editora Mondadori, as capas vinham sempre com um fundo amarelo. Com o sucesso dessas edições, outras editoras começaram a imitar a estética. 



O termo “giallo” ganhou abrangência nas décadas seguintes, sendo usado na Itália para designar livros e filmes de suspense e terror. A partir da década de 1960, “giallo” entrou para a língua inglesa como uma designação genérica para filmes italianos de terror. O diretor Mario Bava é um reconhecido pioneiro deste cinema, com fãs como Martin Scorsese e Tim Burton. Em 1956, dirigiu “I vampiri”, considerado um dos primeiros filmes italianos de terror. A obra de Bava inclui títulos como “Seis mulheres para o assassino”, de 1964, e “Banho de sangue”, de 1971, que inspirou produções como a série “Sexta-feira 13”.

terça-feira, 24 de julho de 2018

Westworld - Is this now?



Agora que já se passaram algumas semanas do término da segunda temporada de WestWorld, e que se passou, um pouco, o impacto de tanto plot twist, venho aqui pra perguntar pra vocês se têm certeza de que agora é agora e se não somos todos hosts. Porque olha, eu não tenho mais certeza de nada, tipo o William no final (antes do extra do extra) da temporada.

 Tirando meus delírios (Hello Ford, my old friend...), o que ficou pra gente, ao menos pra mim, é o que vai acontecer na já muito esperada terceira temporada, que por sinal só vai ao ar em 2020. Os realizadores, Nolan-Joy-Abrams, já andaram falando o que não vai ter: Teddy, a sequência pra explicar o que era aquela cena final, o tal futuro apocalíptico distópico (mais ainda) ectecera coisa e tal. E daí que a gente que está com um baita dum vazio existencial sem Dolores e Maeve nos domingos da HBO, fica que nem náufrago num botinho no meio do oceano de angústias.

 Mas o que há de tão fascinante nessa série? É o que muitos se perguntam, levando em conta que a história não é lá muito agradável, já que, basicamente, WestWorld paira no mote do como a humanidade é uma merda - salvo raríssimas exceções, como o Felix. De que à medida do potencial criativo, ao ponto de se desenvolver não apenas inteligencia artificial, mas corpos artificiais funcionais perfeitos, criados por super impressoras, para lém do 3d, que levaram o ser humano a bater de frente com a morte e, a recriação da mente humana, conduzindo a espécie à eternidade, o que se faz com tudo isso é no final das contas, sórdido, feio e vazio. E aí, contrariando os iluministas como Rouseuau, que afirmavam que o ser humano é essencialmente bom, vamos de encontro a Hobbes, que afirmava o contrário, que somos todos uma porcaria e daí os contratos sociais, que nos regulariam, ouvimos isso da boca de William em dado momento da série. Na boca dum Logan, adoecido, contudo mais lúcido do que nunca, ele profetiza de que nós mesmos nos destruiremos através dessa F"nova espécie" criada por nós.

 A essência disso não é nova, vimos em Terminator e de maneira mais sofisticada em Matrix, contudo, não dessa maneira perversa como vemos em WestWorld. Ao passo em que assisto, vão se imbricando em mim todas as minhas leituras. Na visão de Nietzsche, por exemplo, o conceito de bom ou mau na esfera moral não possui sentido em si mesmo, de modo que nada, em sua essência, é objetivamente bom e tampouco mau  aí teríamos a justificativa pra personagens como Ford. 

O que será de nós, no final de tudo?

segunda-feira, 23 de julho de 2018

Virada no diabo



Acabei de resistir à tentação de deletar esse blog. Resisti, não porque ele seja imprescindível, porque ele não é, blog nenhum é e, no final das contas, nada ou ninguém é. Não fiz porque não seria certo comigo mesma, já que ele nasceu como uma âncora pra minha sanidade e olha, houve momentos em que não acreditava que sairia ilesa (forte e bela feito cavalo novo) do que estava passando, mas saí. E este blog aqui ajudou. Ajudou a não me perder de vez de vista. Ajudou a ocupar a minha mente com algo mais salutar do que fumar, beber sozinha à noite ou pensar em pegar um ônibus pra outro estado, abandonando tudo.

E agora, nessa fase, às voltas com aquarelas e cristais, quero reclamar do preço do papel do montval ou melhor ainda, falar das black houses de Salem (black não people, mas house mesmo. Né bizarro? Por que eu não nasci em Salem?). E daí que eu quero escrever sobre isso e eu já mudei um bocado a "essência" do Solilóquios e voilà, outra mudança? Não parece certo (ao menos não pareceu meia-hora atrás) e o certo seria acabar com este blog e criar um outro, sei lá, Riscos e Feitiços, algo horrível assim. 

Só que né, voltei ao normal e desisti disso. Então, minha gente, se preparem pra posts sobre pintura, desenho e bruxaria, porque teremos. 

Inté.

Imagem: AHS Coven.

segunda-feira, 16 de julho de 2018

Sharp Objects - You could be anywhere on the black screen



Um dos grandes lançamentos da HBO para 2018, "Sharp Objects" recebeu, antes mesmo de estrear no último domingo (8), uma alcunha incômoda: a de "nova Big Little Lies", em referência à minissérie super premiada de 2017.  Assim como sua predecessora, "Sharp Objects" tem uma estrela hollywoodiana. como Amy Adams, traz mulheres como protagonistas, é uma adaptação de um livro (mesma autora de Gone Girl) e é dirigida por Jean-Marc Vallée. Mas a comparação não é totalmente justa, já que a nova minissérie tem méritos próprios, muitos por sinal. 



Amy Adams é Camille, uma jornalista que viaja a Wind Gap, uma cidadezinha esquecida do sul dos Estados Unidos, para investigar o assassinato de uma menina e o desaparecimento de outra. Acontece que Wind Gap é a cidade natal da protagonista, cheia de recordações traumáticas que ela deixou para trás há muitos anos. Ou, acha que deixou. Por conta disso, "Sharp Obejcts" não é um suspense convencional: importa menos o "quem matou" do que a exploração profunda e detalhada da psiquê aquebrantada de Camille. Assombrada pelas feridas do passado, ela tem pequenas garrafinhas de vodca como companheiras inseparáveis, alé, de cigarros, doces e analgésicos, e mantém o hábito de se cortar - daí o título da minissérie e do livro.



 A trama lembra, de certa forma, o que a mesma HBO fez na primeira temporada de "True Detective", também mais interessada na bagagem psicológica de seus personagens. Mas, em "Sharp Objects", isso acontece a partir de uma perspectiva feminina, potencializada pelo fato de Camille conviver intimamente com duas personagens tão interessantes quanto ela: sua neurótica mãe Adora (Patricia Clarkson), que não está exatamente feliz com seu retorno, e sua meia-irmã Amma (Eliza Scanlen), que dentro de casa é uma garota inocente, e fora mostra seu lado mais rebelde. 



 Cuidadosamente construída, a história tem um ritmo mais lento, a ser digerido aos poucos - como pede sua grande carga dramática. E isso está longe de ser um demérito: nos dois primeiros que já foram ao ar, a gente se sente instigado a continuar o mergulho na vida de Camille, em uma atuação fascinante de Amy Adams, mesmo quando ela se torna muito sombria. A série traz uma aura onírica à série, com belas sequências em que passado, imaginação e realidade confluem. E fora da luxuosa mansão da família de Camille, o mundo construído pelo diretor passa longe do luxosa mansão da família de Camille, o mundo construído pelo diretor passa longe do luxo de "Big Little Lies": Wind Gap é uma cidade decadente, que não esconde que há algo de muito errado por lá. Talvez exista em todas as cidades pequenas. O pacote é arrematado por uma trilha sonora que se torna parte indissociável da jornada da protagonista, com,o o primeiro episódio cheio de músicas de Led Zeppilin e, em especial, a música do final do segundo episódio, que foi ao ar ontem, Black Screen, do LCD SoundSystem.


domingo, 15 de julho de 2018

Férias passadas



Sextas, sábados e domingos no shopping com as crianças. Algodão doce do tamanho de montanhas russas. Brinquedos coloridos que provocam espasmos e náuseas. Uma baleia orca. A interminável fila pra comprar Mclanhe feliz e Big Mac e depois, sundae de baunilha com cobertura de morango. Mas sem castanhas, não combina. Loja de brinquedos que ri e é feliz. Cheiro de plástico novo. Cheiro de cabelo de boneca nova. 

É tão bom que a gente sorri, ri e é feliz, lembrando dum passado nosso, só nosso, sem finais de semana em shoppings, mas que tinha o perfume sintético do cabelo da boneca nova da mercearia, que tinha cheiro de cesta de vime e pão.

Testinhas suadas querendo voltar pra casa no táxi apertado. A mais nova dorme no meu colo, segurando a boneca, mas o que dá pra sentir é o cheiro da boneca humana, cheiro de chega de lágrimas e lavanda infantil. Vestidinho de algodão com fita.

Chegando em casa, cheiro de cédula nova, retirada na carteira pra pagar o moço do táxi. Crianças entrando em casa numa fila indiana, menos a mais nova, carregada no meu colo, agarrada á boneca. Tiro os sapatinhos mary jane e as meias de morango, repouso-a na minha cama com perfume de brisa da manhã, que é meio doce e azul.

Que horas vamos partir o bolo de chocolate?

Partir tem vários sentidos.


quarta-feira, 27 de junho de 2018

Hereditário - brincando com a Goetia



Estou impactada. E assustada. Podia fácil resumir o que tenho pra escrever sobre o primeiro longa de Ari Aster (não parece nome de vídeo-game?), Hereditário. Muito porque sou uma pessoa impressionável, que ainda guarda muito da menina que via monstros com braços de galhos de árvores na penumbra do quarto. Muito porque, como persona-gótica envolvida com as sombras e a escuridão, acredito piamente que há muita coisa que não somos capazes de entender. E nem deveríamos. E, quando um filme "brinca" com estes elementos, que realmente existem e são cultuados em algum nível, a coisa muda de figura. Ou não, vai saber.

O filme em questão se tornou um sucesso de bilheteria e crítica, apontado como um filme tão revolucionário para o horror como Bebê de Rosemary e Exorcista. Embora o impacto inicial de filmes de horror tenha o costume de atrair exageros, havia motivos para aguardar de forma ansiosa a estreia do filme no Brasil. Primeiro porque a produtora do filme, a A24, famosa outrora pelos filmes de Tarkovsky e por agora A Bruxa e Ao Cair da Noite (que eu ainda não assisti), considerados dois dos melhores filmes de horror dos últimos anos. Depois, porque a confiança na sua própria produção é tão grande, que a A24 já anunciou que pretende brigar pela indicação ao Oscar de Melhor Atriz da protagonista do filme, Toni Collette, algo que tem ainda mais relevância, considerando o desprezo da Academia por filmes de horror. 

 Então, o filme acumulou altíssimas expectativas que, no entanto, foram insuficientes para se preparar para a experiência toda. Hereditário não é só um excelente filme de horror, mas uma experiência perturbadora. Em seu âmago, é um filme sobre uma família disfuncional e como os pecados de nossos pais afetam quem nós nos tornamos. A estética do horror, no entanto, está marcada desde o primeiro momento do filme. É durante um funeral que recebemos os elementos que sustentam a trama. Annie (Toni Collette) precisa confrontar a morte de sua mãe e o fato de que essa não é uma perda que a deixe particularmente triste, consequência de uma vida secreta da matriarca, que resultou no agravamento de seus transtornos psiquiátricos. Seus dois filhos, Peter (Alex Wolff) e Charlie (Milly Shapiro - acho que a triz tem algum problema facial, alguma displasia, como Dustin de Stranger Things), sentem essa morte de diferentes maneiras. Peter, que cresceu acostumado com a ausência da avó, não parece se incomodar com seu falecimento; já Charlie, que cresceu sob seus cuidados, se pergunta como irá sobreviver no mundo agora que perdeu um de seus principais apoios. Esses questionamentos são ainda mais relevantes para Charlie devido a seu isolamento, fruto de algum transtorno psicológico que nunca se torna explícito; sabemos apenas que a menina tem dificuldades em prestar atenção nos outros e não mantém relações próximas com ninguém fora do círculo familiar. O pai, Steve (Gabriel Byrne), completa o núcleo central da narrativa, com uma personalidade menos marcante, mas que deixa transparecer o modo como ele toma para si a tarefa de sempre intermediar os conflitos familiares e oferecer o suporte necessário para a esposa e os filhos. 

Como o próprio argumento do filme já antecipa, a vida secreta da avó morta irá trazer consequências graves para toda a família, sobrenaturais ou não, e é com o desenrolar desses eventos que Hereditário mostra a incrível capacidade de seu elenco de dar vida e peso aos conflitos emocionais que tornam o filme tão perturbador, não só pela forma como explora o mal secreto que irá assombrar a família, mas, principalmente, pela construção de relações reais, com forte carga emocional. 

 A forma como Aster decide filmar Hereditário também reflete a profissão de Annie, uma artista especializada em fazer cenários em miniatura; a câmera distante, enquadrando determinada sala, faz com que o cenário lembre sempre uma casa de bonecas. Conforme chega ao seu desfecho, Hereditário se aproxima cada vez mais do horror sobrenatural e se afasta do drama familiar. Essa é uma progressão natural do filme, porém que faz com que cada vez mais elementos grotescos sejam introduzidos, a ponto de que espectadores mais desatentos possam ficar confusos em relação ao que está acontecendo na tela. Essa incerteza faz parte da forma como o filme constrói o medo e a angústia constante, porém é também o que pode afastar parte do público. 

O final lembra bastante o final de A Bruxa e, ao mesmo tempo, não. É quase a mesma coisa, mas de outro jeito. Não se trata, no entanto, de um final aberto e sem resposta, já que cada imagem de Hereditário foi produzida minuciosamente para que a repetição de certos elementos deem pistas sobre o sentido global por trás da trama, desde objetos espalhados pelo cenário até reações quase imperceptíveis de figurantes no fundo da tela.

Gostando ou não do filme, o gênero horror mais do que chocar, é pra nos tirar de qualquer zona de conforto. 


domingo, 3 de junho de 2018

Digital Influencers e o oitavo círculo do inferno



Quantos digital influencers são necessários pra se criar um consciente coletivo da frustração?

Acho que a quantidade já está excessiva, assim como as frustrações. Mas, as fias que se tornam isso, digital influencers, não pensam assim e seguem se multiplicando, tipo bolor no pão francês, escondido no fundo do armário da insegurança alheia. 

Eu escrevo blogs faz milênios e espero, Deusa, nunca ter influenciado ninguém a porra nenhuma, porque né? Sou um fracasso retumbante, que briga com véia surda no caixa da lotérica pra pagar os boleto. E no começo, éramos meia dúzia, utilizando Windows 95, compartilhando nosso azar na vida, que nem o Diário de Bridget Jones, escolhendo vodcka e chaka khan. Aí invetaram as blogueiras de moda e hoje, com a era Youtuber, as blogueirinhas (que eu não sei se o povo chama assim por carinho ou deboche). Elas não necessariamente escrevem algo, mas se filmam pra caramba no story do Instagram e Facebook, mostrando todo o seu "conteúdo" que consiste, basicamente, no que consomem, no que compram ou no que ganham porque são amadas por marcas e demais pessoinhas, ultrapassando os 10 k (10 mil seguidores). Ah, detalhe, pra pessoa digital influenciadora se dignar a te responder, reza a lenda que você também deve ter milhares de pessoas te seguindo, porém menos do que elas (a não ser que você também seja da panelinha digital) e, ser fã da blogueirinha e tals. Caso contrário, morra de base, efeito matte, esperando.

O problema não é que exista este fenômeno, ele era previsível até. Era óbvio que este povo migraria pra outra plataforma mais fácil do que a da escrita, levando em conta que mal sabiam escrever algo que prestasse ou valesse a leitura. Hoje por exemplo, me passou pelas vistas uma criaturinha dessas, regional (Ainda é tatuadora. Antes eram DJs, hoje são tatuadores) chamando um dos livros da Márcia Tiburi de enfadonho. Deve ser porque não tem gravura, né? Óbvio que a criatura humana pode achar enfadonho o que ela quiser. Eu só acho meio uó chamar um livro de escrita acadêmica, chorado e pensado pelos minguantes intelectuais que restam nesta república das bananas passadas que é o Brasil, de enfadonho. Enfadonha é a ignorância. E uma praga dessas é que influencia o povo, e não a Tiburi. Ou a Chauí. Porque a gente teima em não educar a galera, especialmente nossas meninas. 

Mas voltando, não se enganem, esse povo também não sabe falar. A maioria com problemas graves de dicção, fanhas e de vozes irritantes, agravadas pelas variações linguísticas e o pior de tudo, sem conteúdo. Porque, miguinhos, quando teu conteúdo consiste em tirar selfie do teu melhor perfil (a mesma pose, forever), de bico de pata, mostrando como você é privilegiada que não anda de busão, isso implica em dizer que vossa mercê não tem conteúdo, só aparência mesmo. Quando tem, né? Porque vejam bem, a Kylie Jenner, aquela moça pode ser qualquer coisa no mundo, menos bonita. Na verdade, ela já foi bem agradável aos olhos, antes de deformar o rosto com plásticas loucas. Mas todo mundo quer ser Kylie Jenner. O povo vai às lágrimas por ela, que não faz nada da vida (ela não canta, não escreve, não dança, não interpreta, não cria... nada). Ela é rica. E irmã da Kim Kardashian, que também é rica. A única ventura delas é que são filhas da Kris Jenner, que é uma figura, tipo a Gretchen, só que amiga do Lagerfeld. Se bem que... grande merda.

Dia desses, minha caçula me mostrou uma Youtuber negra num vídeo chorando porque estava cansada de não encontrar maquiagem pra pele negra. CHORANDO. É de cair a @ da bunda. Eu sou preta, gente. Não encontro base, corretivo, pó (dignidade humana também falta) desde os tempos em que se passava urucum na cara. E daí? É chato, mas que se lasque! Estou mais interessada em galgar meu espaço e me firmar nele, caso contrário, me derrubam sinistro, porque se mulher já não é considerada gente (e essa é a verdadeira luta do feminismo, pra nós, mulheres, sermos reconhecidas como seres humanos), pra mulher preta, pobre e nordestina é um tantinho pior, sabe? A criaturinha podendo fazer um canal massa, sobre empoderamento através da maquiagem ou até, olha que louco, algo mais relevante, tipo, cursos de maquiagem pra formar outras meninas, pra que tenham uma profissão e que não dependam de seu ninguém (liberdade, independência). Mas não, vai chorar pitanga porque cansou o vans de ir atrás de base. MEU POVO... MELHORE!

Imagem: Eu AMO! É duma moça de Hamburg (Alemanha) dentro da Weekday Store, numa festa de lançamento, em 2010. Pensando sério em fazer uma versão dessas pra mim, quiça trocando fashion blogger por digital influencers.

P.S.: Pra quem ainda não leu a Divina Comédia, a referência do título do post, o oitavo círculo é pra gente que é uma fraud. Inté.



quarta-feira, 30 de maio de 2018

Meu povo, melhore...



Observando toda a loucura desencadeada por conta da greve dos caminhoneiros e suas consequências, o desabastecimento que realmente está meio trevoso, eu me pego pensando, especialmente depois de conferir algumas postagens beirando a dor existencial via Twitter e Facetruque, de que algo errado não está certo com essa gente. Chego a conclusão de que o brasileiro atual não está iniciado na zoeira cíclica do própria país.

Obviamente que a situação em alguns lugares do Brasil está bem sinistra, falta remédio em vários hospitais, tem animais morrendo de fome e isso não é brincadeira. Mas véi, na boa, tem gente histérica porque tá faltando batata inglesa e alface! Meu povo, melhore. Sem falar na galera elitista e socialmente cega, que está pra cometer suicídio, porque já não encontra alho poró no Zona Sul (ou insira aqui o mercado metido a besta da sua cidade). Esse povo, essa gente, eu tô achando é graça, variando pra vontade sincera de meter um tapa no pé da orelha, quando o problema da criatura humana é a falta do melão japonês e das tâmaras do Egito.

Eu que sou professorinha sem fé, como diz aqui do lado, entendo o porquê do ódio que esse povo todo sente pela história, e continuo achando que burrice deveria doer. O tanto que o brasileiro médio emburreceu nos últimos tempos, que coincidiram com alguns dos melhores anos da história recente do Brasil, anos de fartura, de inflação controlada. Parece que o brasileiro gosta é de se lascar de verde e amarelo e agora, com patinho da FIESP.

Eu fui criança na década de 1980, peguei o final da Ditadura, do governo do meu xará Figueiredo, aquela santa criatura que preferia cavalo ao povo. O país completamente falido, arrasado, entregue pro defunto Neves que por consequência passou pro coronel do Maranhão, vulgo Sarney da ABL. Inflação de 84%. Você tem ideia do que é isso? Você acorda e o leite custa tanto e vai dormir com o mesmo leite custando 3 vezes aquele tanto. Tinha fila pra comprar leite que era limitado a dois litros por família.  E eram alguns dias da semana só. Foi daí que veio o hábito, que ainda persiste nos subúrbios de Fortaleza, das vacarias. Fulano cria umas vaquinhas leiteiras e pá, comercializa o leite, ali, na moita, sem fiscalização. O tal do leite mugido. Acho bucólico, mesmo odiando leite mugido ~ péssimas lembranças de ter que tomar com nata e tudo. Ah, e ainda me pedem intervenção militar e é pra já. Pra quê? Pra falir ainda mais o país? Todos fugidos das aulas de história, gente que acha bonito professor humilhado, vivendo de doação.

Quando meu pai morreu, eu tinha 11 anos e a gente se lascou bonito. Beiramos a fome várias vezes. Sobreviver era a meta e minha mãe, pobre soberba, gastava o que não podia pra me manter numa escola particular no Montese, quando a gente passava o mês comendo arroz com mortadela, comprado fiado na Bodega da Dona Maria. Mas eu tinha que estudar na escola particular. Não me entendam mal, eu reconheço os sacrifícios que ela fez pra conseguir me criar sozinha, mas era burrice manter filho em escola particular quando falta tudo dentro de casa, num país com inflação galopante e dinheiro desvalorizado. E faltava tudo mesmo lá em casa. Eu devo ter passado uns dez anos da minha vida sem comer chocolate e pra mim tudo bem. Mas você imagina uma criança ou adolescente dessa geração passar por isso? Desses que frequentam escola particular? Pois é. Minha última barra de chocolate na infância deve ter sido lá pros 10 anos, minhas tias, irmãs do meu pai, trouxeram pra mim de Pernambuco, mas daí meu pai morreu, a família dele nos enterrou juntos e, como éramos pobres de marré deci, só na vida adulta fui experimentar uma barra de chocolate inteira, só pra mim. Iogurte era uma vez por mês, quando saía a pensão. Eu passava o mês todo esperando. Rúcula eu pensava que era um xingamento. Quando ouvi a finada Ofélia, no seu programa de culinária, ensinando a fazer salada de rúcula com ricota e azeite (azeite?) eu, moça de família, até ruborizei. Como assim, palavrão na Tv Bandeirantes, na frente das câmeras, tá bom? Até hoje acho rúcula um negócio meio obsceno. Ofélia danadinha. 

O certo é que tudo na minha casa, e na casa de milhões de brasileiros pobres, num país em crise econômica e atrasado, era extremamente difícil. Um achocolatado pra colocar no leite, vulgo Nescau, Toddynho? Não, adoce com açúcar mesmo. Se a mãe estiver de bom humor, ela fazia um caramelo, açúcar queimado, e daí a gente tinha o leite colorido (até hoje gosto muito disso). Fruta? Banana maçã do quintal de casa, jambo e carambola das calçadas dos vizinhos, manga e caju dos sítios do bairro e acabou. Morango eu só sabia que existia  da tv, dos filmes e do sabor do Quick Morango, que era um dos meus luxos, também quando saía a pensão. Quando experimentei um morango pela primeira vez, minha cara retorceu toda, que deve ter entrado um grau, de tão azedo, coisa que eu não esperava. Eu esperava Quick, né? Batata frita? Gente, eu comi batata frita pela primeira vez na inauguração da McDonalds em Fortaleza (primeira vez com hamburguer também), meados da década de 1990. Refrigerante (que segundo Paola Carosella não é alimento... diz isso pra uma criança pobre que tem poucos prazeres na vida, fia)? Adivinha? Uma vez por mês também, tanto que eu sou viciada em refrigerante até hoje, especialmente o refrigerante mais gostoso do mundo, o de caju São Gerardo. Mas na minha época de erê era caro. Almoço era com um copão de água do filtro de barro e, aos finais de semana, um suco artificial, vulgo Kisuco, porque Tang também era luxo. Uma vez, fui fazer trabalho na casa de uma colega de escola, e a mãe dela pegou uma lata de doce de leite. UMA LATA DE DOCE DE LEITE. Abriu e serviu duas colheres enormes pra gente e, com suco de laranja que ela espremeu ali, na hora. Eu fiquei... What? Aquilo ali, pra mim, era o supra sumo da riqueza. Até hoje tenho como hábito comer doce de leite acompanhado de suco de laranja, feito na hora, porque hoje eu posso, mas eu sei o tanto que me custou conseguir, mesmo sendo pobre sinistra, proporcionar uma vida com menos carências pros meus rebentos.

Meus filhos não passaram por nada disso que passei e, mesmo assim, ainda se queixam da falta de microondas, do videogame, da boneca que falava, mas cresceram muito bem nutridas, com todas as frutas, verduras (inclusive rúcula), legumes e todos os mimos que eu podia fornecer, como bolo de chocolate com chantilly. E também não lhes faltaram os jambos e as carambolas roubadas das árvores da vizinhança, e as sacolas de mangas e cajus doados pelos donos dos sítios do bairro.

Daí eu vejo essa geração mimada, reclamando da escassez momentânea da abobrinha japonesa. Quanto despreparo, minha gente. Uma ilusão de vida confortável e plena, apenas uma ilusão burguesa. A gente tem que ser mais humilde diante da vida. Pode se cuidar com o bom e do melhor? Faça. Não pode? Sobreviva. Sou de uma geração de gente pobre sinistra que sobreviveu pra comprar mato orgânico e criar os filhos com açúcar demerara. Mas se não tiver, a gente vive sem. 

 Inté.

P.S.: O título desse post, segundo meus filhos, deveria ser "Cala boca, rapariga" hahaha, mas né?

domingo, 13 de maio de 2018

Forever 21 em Fortaleza e a vergonha seletiva



Eu sempre quis um brechó. Tá, nem sempre, mas é um desejo sincero. E possível! Tem umas peças  que eu quero me desfazer faz um tempo, todas novas e diferentes, fruto de muita pesquisa e do meu gosto peculiar. Inclusive, no meu tempo de faculdade, o povo achava que eu fazia estilismo em vez de letras. Apesar de que sou muito apegada com as coisas (lua em touro, né bebê?), mas como dizem, é bom pra fazer circular as energias e tal. 

De uns tempos pra cá, um monte de gente fofa está fazendo exatamente isso, via contas em redes sociais, especialmente o querido Instagram (insta não, gente, pelo amor da Deusa!). Algumas mais ousadas até vendem criações próprias, o pessoal da moda da UFC. Creio eu que o curso de Design de Moda da UFC deve ser um dos únicos em universidade pública no Brasil, cheinho de gente criativa e bacana. E bem intencionada. E de boas intenções o inferno está cheio, já dizia o cristão.

Esta semana foi marcada, aqui em Fortaleza, pela inauguração de uma Forever 21, fastfashion americana que aparece nos closets de 9 entre 10 blogueiras de merda desta internê das modas. Por que de merda? Porque este povo personal influencer de lookbook só sabe ostentar uma vida impraticável pra maioria das garotas e mulheres dum país proletário e lascado que nem o Brasil. Falam de consumo, mas sem consciência alguma, nem social, nem ecológica, é a ostentação pela ostentação, fora a falta completa de conhecimento mínimo sobre moda. E os estilos são os mesmos, ou seja, não é estilo porcaria nenhuma. E o pior é que realmente acabam sendo formadoras de opinião, só que torpe e deturpada, gerando uma visão deformada e doente, fazendo com que uma galera acredite que preencherá o vazio de suas vidas com compras e mais compras. Fora as que não conseguem comprar tudo o que querem, nem metade do que querem, e caem num estado patológico de ódio de si mesmas e da vida de pobre, sendo a tal vida de pobre não poder comprar 1000 micheisinhos de roupa, acessórios e maquiagem toda semana, como estas personal influencer fazem.

A culpa não é da Forever 21, a marca no caso tem outras culpas que se relacionam com a sua lógica de mercado, da roupa feita em larga escala, copiando outras criações e o pior, explorando o trabalho análogo ao escravo. A culpa é da gente que tem mente fraca, moldada pelas teias do fetiche do objeto, e acha que se a gente não acordar borrifando água micelar que a Alix do Cherry Blossom Girl usa, a gente não vai ser feliz. 

Daí a Forever inaugura, na verdade foi forçada a inaugurar antes do que havia anunciado, porque invadiram o evento que era só pros ~sic~ VIPs e a imprensa local. E o povo lindo e bem intencionado dos brechós e similares da cidade começam a levantar (tentar, né) hash tag de #VergonhaFortaleza, por ser o que é, uma sociedade de consumo. Mas vem cá, isso não é todo dia, não? E este povo que está criticando tem criação de ovelha, faz tosquia, daí tece e confecciona as próprias roupas, que nem o pessoal das montanhas peruanas? Meu povo, melhore.

Eu estava lá no tal dia, fui quase à noitinha. Tinha fila pra entrar no provador, inferno na terra. Fiquei quase uma hora na outra fila, a do caixa, pra pagar umas poucas coisinhas que minha filha Carol queria muito, e eu não sinto vergonha alguma disso e nem acho que minha fama de bruxa comunista arrefeceu, muito pelo comentário. Eu sei exatamente o que estou comprando, sei exatamente o que a Forever 21 é, assim como a Zara. É o meu dinheiro proletário, suado, batalhado e já disse tio Marx, se a classe operário tudo produz, a ela tudo pertence, do iPhone à roupa fuleiragem da Forever 21. Acho lindo esse povo artista do Meirelles, da Aldeota, daquele tipo que vai no Poço da Draga fazer arte e usurpar o espaço dos artistas locais, deslocando seus lugares de fala, se passando. A exemplo duma certa marca aqui de Fortaleza, que tem endereço na Monsenhor Tabosa, a rua das sacoleiras da cidade, mas numa parte que é uma outra Monsenhor Tabosa, de rico, cuja cria da marca compra em labels elitistas, dessas de verdade, que você compra uma saia e uma 'brusinha' e gasta o equivalente pra comprar um carro tipo Gol 2000 (ou um iPhone X :P). Os hippie chic que fala, né? Bohemian Coachela, que vestem globais e querem entubar camiseta de malha vagabunda, com escritos se apropriando das pautas feministas, vendidas por 300 micheis... Como que fala de consumo consciente? E a noção, cadê? Ah, e ainda destrata vendedora. E uma criatura dessa quer se passar de good vibes, engajada e que está com nojinho de FortalezaPorra nenhuma. E é dessa gente besta, sem consciência social, sem empatia que eu estou falando. Faça seu brechó, garota do Meirelles, crie sua marca pro-diversidade, é lindo, mas deixe de ser escrota e trate esta sua miopia social. Não adianta boicotar a Riachuelo e ser miga da chef que humilha atendente de loja. Boicote, mas saiba que o povo que compra nas fast fashion brasileiras tem 180 pra comprar o vestido floral da primavera (parcelado em 8 x, sem juros, no cartão da loja), mas de repente não tem pra pagar 600 na grife que tem nome de fazenda, só que é praieira, e dessa grife, você tem ou teve coleção no seu closet, enquanto a gente, que tem que se envergonhar por comprar na Forever 21, tem é guarda-roupa comprado no queima da Magazine Luiza.

Sinceramente, quantos de vocês que estão com vergonha de Fortaleza por causa da Foreevr 21 compram de produtores têxteis cearenses, tipo Emcetur, Mercado Central, Beco da Poeira? Eu compro ó.

Inté.

Imagem: Orgulho define esta foto, duma vitrine de fastfashion brasileira, acho que foi em 2006. Momento certo, tudo a ver com o post.



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