sexta-feira, 18 de março de 2016

Resenha: Mad Max Estrada da Fúria



É com um atraso de mais de um ano que finalmente faço minha resenha sobre um dos filmes mais sensacionais que assisti nos últimos tempos, indicação do meu aluno Caio, Mad Max - Estrada da Fúria.

Diferente da versão original, o novo Mad Max fala menos de Max e mais sobre uma personagem nova, Furiosa, interpretada lindamente pela querida Charlize Theron. Não é à toa que Mad Max recebeu 6 Oscars nessa última premiação da Academia. Todos técnicos, e merecidos, e merecia mais. Pena que a antiquada academia hollywoodiana dificilmente dá atenção a filmes de ação, que são vistos apenas pelo barulho literal, do que pelo barulho filosófico, e é nesse plano que o novo Mad Max é ensurdecedor.

Desde que o filme de George Miller teve lugar nas salas de cinema pelo mundo que já virou um clássico do gênero, um blockbuster de 100 milhões de dólares, que caiu nas graças da crítica (até Cannes), algo impressionante e que não me lembro de ter visto recentemente, talvez apenas O Cavaleiro das Trevas em 2008 tenha conseguido se aproximar dessa proeza, outro filme de ação, veja bem. 

Mas vamos ao que está nas entrelinhas rasgadas de Mad Max, coisas incríveis que são desconstruídas sem sequer existir um diálogo, e que alguns não conseguiram captar e se me permitem, não conseguiram, porque uma das desconstruções mais literais do filme é justamente o empoderamento feminino, e o mundo não está preparado para um filme de ação em que mulheres não são coisificadas e sim empoderadas. E de novo as mulheres, aparentemente algo tão natural como mulheres não terem uma existência falocêntrica e mostrarem independência e empoderamento, andou incomodando certas pessoas por aí. Sempre incomoda. 

E ainda temos a crítica à destruição do meio ambiente com propósito de dominação. E nem deveria ser difícil de entender, aliás deveria ser bem óbvio. As ações do ser humano e sua ambição são completamente reais. Uma das premissas básicas de Mad Max, herança do filme de 1979 aliás, é trazer a reflexão de como seria se guerras nucleares e a utilização inadequada de substâncias tóxicas afetassem a humanidade, e como seria sobreviver ao fim do mundo sem itens básicos como a gasolina e a água. Durante o enredo de A Estrada da Fúria, existe uma pergunta muito emblemática sobre este assunto: Quem destruiu o mundo? As responsáveis por esta pergunta são as maravilhosas mulheres deste filme, Furiosa e as meninas do harém de Immortan Joe, que questionam a desgraça em que estão e quem ganhou com isso. Melhor do que apenas questionar, elas decidem não aceitar o sistema e fazem algo para melhorar suas vidas, para saírem do controle doentio do ditador psicopata. 

Ainda temos a coisificação de humanos em ferramentas do sistema capitalista, e vou além, uma crítica ao próprio capitalismo, algo muito ousado de se fazer, num filme hollywoodiano. Até que ponto somos manipulados e forçados a servir interesses alheios? Quando Max é capturado no deserto, logo no início do filme, a desumanização é brutal: cabelo é raspado para ser reaproveitado, as costas são tatuadas para identificação de características físicas, e por fim, o símbolo do reinado do Immortan Joe é queimado em sua pele, como se ele fosse um novo boi em seu gado. Daí já se pode observar outro ponto, a escravidão de mulheres com fins reprodutivos e meramente sexuais. Provavelmente a crítica mais clara e uma das mais incômodas do filme. Mad Max (A Estrada da Fúria) é que foram as próprias mulheres que resolveram o problema de não serem máquinas de reprodução do tirano. E como isso tudo é atual, é só comparar com a realidade de países com alto índice religioso e com células terroristas como o Boko Haram, que faz horrores com as mulheres que eles sequestram. O problema é real. Isso me fez cair de amores pela Imperatriz Furiosa, que foi sequestrada ainda criança de sua terra natal, o que deixa totalmente em livre interpretação que ela também foi escrava do Immortan Joe, ainda mais considerando a sua beleza. Ela não tem um pedaço de um braço, provavelmente lutou demais para ter o direito de dirigir aquele caminhão. Furiosa também foi privada de sua própria identidade ao raspar o cabelo e se tornar mais parecida a estética masculina dos War Boys, já que suas conterrâneas do Vale Verde tem o cabelo bem longo. 

E aí vem o ponto mais sensível das críticas contidas em Mad Max, a manipulação mental de jovens para o sacrifício em nome de um deus, ou seja, crítica ao fundamentalismo religioso, que existe em todas as religiões, em graus diferentes. Desde o jovem que se explode em nome de deus, até os que abrem mão de ouvir música "mundana", abrindo mão da própria personalidade, porque assim são mais fáceis de manipular. No filme, os jovens de meia-vida chamados War Boys acreditam que o Valhalla é o destino de todos aqueles que morrerem para a glória de Immortan Joe. Todo o exército de garotos tem coisas muito características de uma tropa da vida real, como gritos de guerra, estética padronizada, uma organizada estrutura de funções. A diferença é que eles não têm absolutamente nada a perder. Nux, o “kami-crazy” que se desgarra do exército por vergonha em ter falhado três vezes em sua missão na frente de seu soberano, nos oferece a melhor visão da vulnerabilidade destes meninos, cedendo rapidamente a uma oferta de carinho da ruivinha Capable e revelando que é ainda apenas um jovem inocente ao desenhar carinhas e nomear os seus tumores do pescoço.

Liderança fraca e alegórica que mantém controle através do terror: onde já vimos isso antes? Immortan Joe, um senhor com muitos problemas de saúde, devido a exposição ao meio ambiente tóxico, tem um filho monstrão descerebrado chamado Rictus Erectus (olha o nominho), que consegue apenas repetir palavras e espancar coisas, e outro filho chamado Corpus Colossus, que nasceu com sérias deformidades, mas aparentemente é o mais inteligente e estrategista da família. Para auxiliá-lo em seus domínios, tem o chefe do financeiro e de provisões, The People Eater, conhecido por comer pessoas vivas (ironia maravilhosa á economia), e o chefe das provisões de batalha, The Bullet Farmer, que lidera uma tropa em um híbrido de tanque de guerra com um carro normal e se auto denomina a balança da justiça. Todos são distanciados de figuras humanas e representam as forças da uma estrutura de poder do capitalismo. O líder estava morto faz tempo em seu próprio reino quando uma conspiração, de quem ele menos esperava, estava acontecendo nas suas costas. A grande lição aqui é que nenhuma liderança opressora é invencível. 

A maioria está no povo, que tem o poder de mudar o que quiser, se estiver em busca do mesmo objetivo e unir forças de maneira organizada e sem piedade nenhuma. 

Inté. 

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