domingo, 15 de outubro de 2017

As vantagens de ser pobrinha

Nos outros escritos, divaguei sobre o fato de até gostar de morar onde moro, exceto pela rua e pela casa. No mesmo post, acho que ficou claro o porquê da rua ser uma bosta (gente maluca, mal educada, escrota e afins), mas não me justifiquei no pormenor da casa.





A casa. Na verdade, um sobradinho, uma casa nos altos de outra, que gente pobre faz pra alugar e conseguir uma graninha de outras gentes pobres, só que mais pobres ainda, já que não têm casa, tipo eu, que sou pobre sinistra. Aluguei esta bela tranqueira por desespero, precisava entregar o apartamento xexelento onde morava, na esdrúxula Avenida João Pessoa, sucursal de Gotham City, e tinha que ser pra ontem. E não podia ser por imobiliária, tinha que encontrar alguma coisa com o dono mesmo alugando, e que não pedisse nada além de dois cauções de entrada, ou seja, tinha que ser rápido e sem burocracia. Praticamente uma missão impossível. 





Foram dois meses tensos, andando sob o sol de rachar quengo aqui de Fortaleza. Percorri quase toda Itaoca e Montese a pé. No meu desespero, cogitei morar no bairro da escola onde dou aula, suburbão mais subúrbio do que o que eu nasci, algo que, confesso, não me alegrava por motivos de ser longepraporra de tudo e sem charme algum. Uma coisa é ser suburbano morando em Madureira, com a Portela logo ali (apesar das chacinas, enchentes, complexo do Alemão), outra é ser suburbano da Regional III. Desisti porque o povo é insano, os valores eram absurdos e fiquei com medinho de acordar, num belo dia, e aparecer pixado no muro da casa fofurices do tipo  #bruxacomunista ou #mulherzinhaescrota e ainda, #éguadomeuabuso, dentre outros epítetos. 





Encontrei uns anúncios pela internet e simpatizei, por foto, com uma "casa" (ênfase nas aspas) na Itaoca, perto da idílica padaria Costa Mendes. Só que a simpatia ficou só nas fotos mesmo. Tratava-se de uma garagem que alguém ajeitou e transformou numa "casa", na verdade numa caverna com um acabamento até legalzinho. A rua era uó, o ar denso de tão perigoso, daquele tipo, vão te roubar até o do pão. Não é o ideal quando não se tem um lança chamas. Voltei pra casa triste, visualizando debaixo de qual viaduto iria me alojar com meus rebentos, gatos e Benji (até hoje não sei qual viaduto). Daí recorri à internet de novo e encontrei esta tranqueira onde moro anunciada, por um valor possível, dois cauções, com o dono e, no bairro Benfica. Antes que você terminasse de cantar Faroeste Caboclo, eu já havia ligado pra pessoa, marcado visita, visitado e me encantado (apesar de descobrir que não era tão Benfica assim). No outro dia, já tinha pago caução (um, o outro paguei junto como primeiro aluguel, na semana que nos mudamos; já disse, eu sou pobre sinistra, muito sinistra, sinistríssima. A mudança correu em três semanas, eu sem dinheiro, pedi emprestado a juros a um colombiano mais sinistro do que a minha situação. Estou falando sério. E me mudei, só que sem gás. No apartamento xexelento, o gás era por tubulação, não trouxe botijão do Rio e nessa, fazia quase três anos que não lidava com essa coisa de comprar gás, e tal não foi a minha surpresa quando descobri que custava R$200 reais. Duas semanas após me mudar, sobrevivendo do microondas (isso não é vida), o ex me fez esse quase último grande favor, de arranjar o do gás. Duas semanas! e eu tinha que ser educadinha ainda, pra não ser taxada de ingrata. Ingrata. a pessoa é traída e descartada feito fruta podre do sacolão e se reclamar é ingrata, vai vendo.





Bem, já alojados, começamos a perceber que o barato tinha saído super caro. A casa que já parecia pequena sem os móveis, quando os recebeu ficou, tipo, um cubículo. Quando começaram as chuvas entre dezembro e janeiro, infiltrações pra todos os lados, canos entupidos, falta d´água constante, maldito teto de pvc da sala que sacode todo com a ventania (já caiu três vezes), armadores que quebram, rua esquina com a Domingos Olímpio, perto do Centro, ou seja, perigosa, esquisita e, vizinhos escrotos. Uma bosta, né? Pois é.



Mas apesar disso tudo, de ser pobrinha, sinto um grande alívio quando fecho meu portão e estamos todos aqui dentro, assistindo nossa tv por assinatura com mais de 100 canais, Netflix, quando faço minhas compras semanais de mato orgânico, quando compro frutas fresquinhas no São Sebastião ou ainda, quando encho o carrinho bem baratinho no atacadista aqui perto. Ah e ainda tenho vista pro painel Acidum da Mãe África, todo dia tomo café olhando pra ele, fora a época dos ipês amarelos, o vatapá vegano do Rango Verde, dez minutos a pé aqui de casa e o mais legal de tudo, moro na Rua do Sebo do Seu Geraldo, dez minutinhos a pé também. 

Inté.

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