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sábado, 26 de junho de 2021

As melhores adaptações de Stephen King - filmes

 E começando essa postagem logo de cara com um título que é uma metonímia meio uó, provando a falta de apego da professora de português aqui. 

Demorou um pouquinho pra que eu arranjasse tempo e vontade de escrever. Sabe como é, final de semestre, provas da escola, revisões que eu inventei de fazer, reação à AstraZeneca (parem de escolher vacina, vacinem-se com o que tiver) e um monte de streamings que precisavam ser assistidos, alguns livros recém comprados que precisavam ser lidos, essas coisas. Mas até que eu nem demorei tanto, né? Pois é.

Deixando de embromação, vamos logo ao que interessa, os melhores filmes baseados ou adaptados da obra de Stephen King.

Se, por acaso, você chegou até aqui e não sabe quem diabos é Stephen King, ok, não tem problema nenhum, eu digo pra você! Stephen King é um dos maiores escritores vivos de ficção científica e terror, muito provavelmente você já assistiu alguma coisa justamente inspirada na obra dele. Duvida? Confere a lista então.

Dito isso, vamos aos filmes!


Carrie de Brian de Palma



De 1976, já falei do filme por aqui, procura que você encontra. É a melhor versão dessa que foi a primeira história de Stephen King publicada e que deu início à sua carreira de sucesso. Ele já escrevia antes, muito antes, mas nunca dera certo, até ele acertar o tom certo da pobre garota vítima de bullying e de uma mãe maluca cristã (eu realmente nem sei qual é o pior dos dois estágios de flagelo, ser vítima de bullying ou sofrer o terror do fundamentalismo religioso). A direção e roteiro conduziram tudo no tom certo e, a minha xará, Elizabeth Spacek, ou Sissy Spacek, encarnou a Carietta White com perfeição. As outras adaptações são ruins, e a de 2013 é a pior de todas. "Pior do que aquela que a Carrie é vesga?" Sim, muito muito pior.


O Iluminado (desculpa, Stephen) 



Por que desculpa? Ora, porque simplesmente Stephen King odeia essa versão pro cinema de uma das suas obras mais conhecidas. Acho até que ele não é muito fã, porque justamente essa adaptação, do genial Stanley Kubrock, tornou a obra célebre. É até comum a gente falar "O Iluminado do Kubrick" e não o 'Iluminado do Stephen King". É osso, né? Eu entendo. Mas, o filme é muito bom, traz todos os elementos fílmicos do Kubrick, inclusive suas "adaptações", que mudaram significativamente o enredo. Contudo, apesar de que o filme é realmente uma obra prima do terror psicológico, o livro é melhor.


À espera de um milagre



Uma linda adaptação, bem ao gosto de Hollywood, com elenco estrelado e tudo. Sem dúvida uma das melhores realizações baseadas na obra do King e traz alguns daqueles elementos de sua obra que nos cativam, o elemento humano um primeiro plano, em todas as suas baixezas e grandezas. Um lindo trabalho de Frank Darabont, que se repete em outra adaptação,


O Nevoeiro



Talvez seja o filme mais terrorzão que melhor foi adaptado (eu sei o que vocês estão pensando... "e o It?" Gente, o It só prestou mais ou menos o I, o II é uma comédia com efeitos ridículos), conta com metade do elenco da série The Walking Dead, no tempo que a gente amava The Walking Dead e novamente, os elementos humanos são o destaque. Óbvio que as criaturas abissais, bem ao gosto terror cósmico, as mortes pavorosas também estão lá, mas é  nas relações humanas, pro bem e pro mal, que a história se baseia (como The Walking Dead do Kirkman!), e é por isso a gente gosta.


Conta comigo



Pra resumir, eu diria que é uma gracinha tensa e, por vezes, nauseante. Lindas interpretações do elenco infantil à época e uma linguagem fílmica bonita. Tem aquele sabor dos escritos de Stephen King, aquele gosto de tristeza que a gente fica, invariavelmente, quando termina uma história dele. Porque até quando parece que acaba bem, não acaba bem. O filme capta isso bem direitinho.


Misery


Eu me recuso a usar o nome em português, que parece mais tema de pornochanchada. Não tenho certeza, mas acredito que seja o único filme baseado na obra do King que ganhou prêmio grande, tipo, um Oscar de melhor atriz pra Kate Bates, merecidíssimo, diga-se de passagem. "Ah, mas ganhar Oscar não quer dizer nada". Não, imagina, só um monte de dinheiro, notoriedade, ou seja, tudo no que se baseia a indústria de cinema estadunidense, só isso mesmo. Todavia, Misery é muito mais do que isso, uma excelente história de sociopatia e terror psicológico conduzido com maestria pela força de interpretação da Kate Bates e de James Caan dando vida ao Paul Sheldon e que já havia conquistado todos os cinéfilos fãs de cinema clássico com seu  Sonny Corleone em o Poderoso Chefão (eu, particularmente, o adoro em Elf, como o pai justamente do Elf - Um Duende em Nova York - especialmente porque corre à boca pequena que ele odiava contracenar com o maravilhoso Will Ferrel, o nosso querido Elf, que é elfo e não duende... adaptações ara o português, vai saber, né? Eu acho que o James Caan tem um gênio parecido com o do Sonny Corleno mesmo. Ou o Paul Sheldon no final de Misery).


A Hora da Zona Morta



Eu sou uma fã muito fuleira, porque eu simplesmente descobri o filme agora em 2021, e o filme é de 1983" Dirigido por David Cronemberg (Sacnners, Videodrome, A Mosca) e estrelando como Johnny Smith, Christopher Walken. O filme segue o enredo de maneira quase perfeita, com todo aquele ar dos filmes oitentistas do Cronemberg, que sabe arrepiar, sabe revoltar e sabe entristecer. 


E esses são os meus favoritos, até agora. Tem quase tudo disponível por aí, recomendo com força uma maratona Stephen King, melhores adaptações, quem sabe uma prévia pro Hallooween.


Inté.



segunda-feira, 31 de maio de 2021

Stephen King - Thing of Evil


 A primeira vez que eu li Stephen King, ainda estava no ginásio, li uma edição do Iluminado, era o que chamo de "edição de banca de jornal": capa mal editada, folha estilo jornal, aquele tipo de material que desgasta rápido, tão rápido quanto li o livro, que eu devorei em horas e fiquei relendo e relendo até ter que devolver na biblioteca da escola. Quando assisti a versão do Kubrick pro cinema, eu gostei muito, mas me incomodou a dualidade de não se saber ao certo se tudo aquilo no Overlook era um surto coletivo ou a ação de algo perverso e sobrenatural. Um dos motivos que fez Stephen King não gostar muito do filme, apesar de que é um dos responsáveis por ele ficar ainda mais famoso e, antes da versão de Kubrick para o Iluminado, a Carrie por Brian de Palma (desse o Stephen King gosta).

E são as várias adaptações de suas histórias pro cinema e pra televisão que fizeram Stephen King ser um dos autores mais conhecidos do mundo, salvo engano, está entre os dez mais traduzidos. Obviamente que ele não chegaria tão longe sem algum talento e isso ele tem de sobra. É um grande leitor desde sempre e não há outro caminho para um escritor que não seja a leitura voraz, profunda e apaixonada. Quanto mais áreas diferentes, melhor o leitor, melhor escritor. É claro que nem todo o leitor voraz vai se tornar escritor, porque é necessário o ingrediente extra do talento, mas ler muito e de tudo se faz necessário. Além da leitura e do talento pra escrita, Stephen King é curioso, observador, perspicaz e perscrutador das regiões sombrias da psiquê humana. E todos esses ingredientes muito específicos resultaram no fenômeno que é Stephen King. Quantos enredos inquietantes, perturbadores, quantas personagens que povoam nossas noites em claro.

E vão aí algumas décadas que sou fã e, se você está lendo isso daqui, possivelmente tem interesses parecidos com os meus e sabe da quase obsessão que nós, que gostamos de histórias de fantasia, terror, ficção científica, especialmente histórias  de Stephen King, sentimos quando sabemos que mais uma trama será adaptada pro cinema, televisão e mais recentemente streamings. E como tem coisa adaptada, né? Desde a Carrie de 1976, até Lisey's story que estreia agora em junho pra Apple Tv (estou enlouquecendo pra ver como assisto) tem muita coisa pra se assistir e comentar.

O que eu quero com isso tudo? Falar que vou fazer algumas resenhas sobre as minhas adaptações favoritas de filmes e séries de Stephen King, o que com certeza vai durar algum tempo. Quer dizer, se eu não desistir no meio do caminho. Veremos.

Já escrevi sobre adaptações de Stephen King.

On Writing livro do Stephen King obre seu nobre ofício, a escrita. fantástico.

Sonâmbulos, uma das coisas mais bizarras que já vi na vida. 

O Nevoeiro (filme), who Lovecraft?

Misery, amo a Anne. Sim, eu sou doida.

Rose Red, pens para fãs esforçados. 

Cemitério maldito (versão antiga)

O Iluminado (claro!)

Carrie (versão antiga)

It (versão antiga, pra televisão)

Para as novas postagens esperem minhas impressões sobre Outsider, The Stand, Castle Rock, Mr Mercedes e outras coisas mais antiguinhas, como a maldição do Cigano.

Inté.


Imagem: frente da casa de Stephen King. O cachorrinho acredito que seja dele, já que ele atualmente cria corgis, mas ele posta mais fotos no seu Twitter da Molly aka Thing of Evil 


terça-feira, 25 de maio de 2021

A minha relação com Gilmore Gilrs é muito pessoal




Oi gente, tudo bem? Voltei foi cedo, né? Pois é minha gente, até eu me surpreendi comigo mesma porque ando tão abusada de tudo. Para quem não é do Nordeste, quando a gente diz que está abusada de algo, não é uma coisa tipo letra de funk (ai como eu tô abusada, ai como eu tô bandida) não, é mais para 'ó que abuso do universo', entendem? Então.

Voltei pra falar de Gilmore Girls. E já falei algumas vezes da série.

Rory e sua lista de livros.

Falei da lista de livros da Rory Gilmore aqui. Problemas, muitos problemas. Na verdade, falei da minha ingênua intenção de adaptar a lista para comprar as edições que eu ainda não tinha, mas que já havia lido. E, recomprar edições de livros queridos. Ingênua, porque a Lilibete de 2014 não fazia ideia de tudo o que enfrentaria, incluindo quase morrer de desgosto (e de uma infecção no sangue) dando aula em colégio de riquinhos imbecis tipo o Logan (pra quem não sabe, o namorado riquinho imbecil da Rory, que parece, é o grande amor de sua vida, tipo o Christopher foi pra Lorelai). Enfrentar toda a sorte de problemas com dinheiro, como boa proletária mal paga e explorada. E quando Lilibete acreditava que tudo ficaria bem, veio então a pandemia. 

Eu até comprei livros sim (aqui, aqui e mais que eu posto no Instagram), mas esqueci completamente dessa lista besta. Não me entendam mal, você que por acaso me lê e está seguindo a lista da Rory e tal, está tudo certo, é apenas a opinião de alguém que padece de azedume adquirido. 

Li quase todos os livros citados ali. Alguns me arrependi amargamente de ler, outros não tenho interesse alguns porque ou são muito estadunidenses (demais da conta), outros são machistas, misóginos, racistas, xenofóbicos. E li tantos outros que nem constam ali. A lista da Rory não inclui um único livro de autor brasileiro, um erro da criadora das Gilmore, Amy Shermann-Paladino. Como alguém que tinha o sonho de conhecer o Brasil, como a Rory, e que ama literatura, nunca leu nenhum autor brasileiro? Um Paulo Coelho que fosse! Ficaria muito feliz se Rory aparecesse lendo Carolina Maria de Jesus, que foi traduzida pro inglês em 1998, mas né, pedir demais pra cabeças muito estadunidenses. Sim, eu estou problematizando. Continuo gostando da série, mas não sou cega.

Gilmore Girls

Muita coisa mudou desde que escrevi isso aqui. Finalmente assisti todas as temporadas, inclusive Um Ano Para Recordar. Quando eu comecei a assistir Gilmore Girls, eu tinha uns 25, 26 anos, assistia quando passava no SBT, que não passava a série na ordem correta. Meu grande interesse era Lorelai e a mãe incrível que ela era, que eu sempre quis ser, e sua relação linda com a Rory (que também é Lorelai, pra quem não sabe). Eu achava o Luke um sonho, dono de cafeteria charmoso, que fazia panquecas fofinhas. Detestava os pais da Lorelai, não conseguia de jeito algum sentir empatia por eles e, sonhava com Stars Hollow. Claro, né, minha realidade era o calor absurdo de Fortaleza e a coisa mais próxima do bucolismo era a lagoa do Opaia (acreditem em mim, não é bucólico).

Passados quase 20 anos de quando parei de assistir a série até hoje, 2021, o ano em que maratonei e acabei Gilmore Girls, Lilibete com seus 44 anos pode afirmar que algumas coisas mudaram, já outras não.

1. Lorelai, com todos os defeitos, ainda é uma querida, sigo amando e admirando Lorelai Gilmore, seu jipe, seu amor por cinema, o amor por inverno. Mas, tem péssimo gosto pra homens.

2. Eu não gosto do Luke. Eu gosto do Luke's, das panquecas com blueberries, dos donuts, dos baldes de café, mas eu não gosto do Luke. Ele é um machistão, mau humorado, chato. Lorelai merecia coisa melhor. Na verdade, ela teve, o Max Medina, o professor de Literatura da primeira temporada, responsável por um dos episódios mais memoráveis de Gilmore Girl, o pedido de casamento que encheu Stars Hollow de flores. Mas fazer o quê?

3. Consegui sentir uma certa dó dos pais de Loreali, até da Emily Gilmore. Eu consegui entender a  amargura de ser abandonada pela filha, que preferiu fugir de casa ainda adolescente, com uma bebê nos braços, pra trabalhar de camareira numa pousada. As expectativas quebradas, a ausência da única filha, que faz questão de ficar longe. Mas, só reafirmei que Lorelai, tirando os exageros da ficção, estava certa em se manter longe. Eu tenho uma relação mais ou menos parecida e uma história muito próxima do enredo entre Lorelai e Emily (hoje em dia, inclusive,  numa via de mão dupla) e é isso gente, não tem muito o que fazer, manter uma distância segura é a decisão correta. 

4. Continuo sonhando com Stars Hollow. Se todo o problema fosse o Taylor, pôxa vida!

Os namorados de Rory e a coisa do bad boy

Nunca tive muita paciência pras aventuras românticas da Rory Gilomore. Eu gostava/gosto da relação entre Rory e Lorelai, boa parte porque eu queria ser filha da Lorelai, sabe, e crescer numa casa cheia de música, de filmes, procurando fadas pelas várias árvores centenárias de Stars Hollow. Mas o certo é que a Rory herdou o dedo podre da mãe. 

O menos ruim dos amores de Rory foi o Dean. E sim, Dean tinha alguns problemas, o pior foi casar ainda gostando da Rory e trair a esposa com a Rory. O grande problema do Dean, além do péssimo gosto pra se vestir, era a Rory. 

Logan, que aparece por último e que marcou a vida da Rory pra sempre (pra saber do que estou falando, caso já não saiba, assista Um Ano Pra Recordar na NetFlix) é um riquinho, imbecil, fraco e idiota. E olha que ele nem é o que eu menos gosto, hein!

E o Jess é detestável. Ele é um Luke piorado. A única coisa boa desse sujeito é que ele gosta de ler. Mas ele gosta de ler Bukowski, geração beat... ai que sono. Não tenho paciência com bad boy nem na vida real, tampouco na ficção. Quer bad boy de verdade? Heathcliff de Morro dos Ventos Uivantes, aquele ali sim, é um garoto mau pra ninguém duvidar, do tipo que trapaceia, rouba, mata, desenterra o cadáver da "amada" pra olhar uma última vez pro seu rosto (crânio?). Vamos falar a verdade, Heathcliff é um macho ruim ficcional. As pessoas chamam a personagem de Emily Brontë de anti-herói, não, o nome correto é macho ruim ficcional! Anti-herói é o Darcy de Orgulho e Preconceito da Jane Austen. Rochester da Jane Eyre, da outra irmã Brontë, também se encaixa na definição (minha) de macho ruim ficcional (porque existem os machos ruins da vida real e desses, a gente não deve ler nem a capa).  Vejam bem, ele aprisiona a mulher, Bertha, num quarto secreto na mansão Rochester, porque a coitada enlouqueceu e daí tudo certo em prendê-la, afastando sua existência de tudo e de todos, porque assim é melhor pra ele. E o problemático é o Darcy da Jane Austen? Eu não entendo esse gosto por macho ruim. O Jess não chega a ser um macho ruim, mas ele não é um cara legal, ele foi um idiota com a Rory, com o tio, com a cidade que o recebeu bem. E não, idade e agruras não justificam tudo. A gente pode entender os porquês, mas é só.

Tudo isso, e foi muito, como sempre, cheio das minhas digressões, pra dizer que a minha relação com Gilmore Girls é muito pessoal. E é isso, as séries, os filmes, as músicas e, especialmente os livros favoritos com os quais nos envolvemos ao longo da nossa vida penetram tão profundamente em nossas almas que passam a ser parte de nós, como velhos amigos. Por isso, peço desculpas por quem gosta de Heathcliff e Rochester, eu gosto dos livros que eles protagonizam. E gosto muito muito de Gilmore Girls, mas do Jess e do Luke não.


Inté.

sexta-feira, 17 de janeiro de 2020

Parasita



Estou numa fase da minha vida que não quero ser desafiada ou, no mínimo, procuro não ser. Até que consigo ficar bem longe das notícias e ficar me martirizando com a estupidez coletiva dessa época. Tento fugir de reler trechos de livros que me corroem as entranhas. Ficar bem longe do Ensaio sobre a cegueira, ou O Conto da Aia, Admirável mundo novo e a barata da GH. Mas daí, a barata da GH me parece muito mais o surto de uma dondoca asquerosa da zona sul carioca, porque aquela dondoca infeliz é a barata. Resquício de crítica social? Toneladas de crítica social? Eu tento.

 Aí a criatura humana começa o ano assistindo Frozen 2. Vai a uma sala da Cinépolis, a mais cara da cidade, compra o balde de pipoca do Olaf, já pra né, não se desafiar a nada, fora terminar o mês pobre. Só que sede à tentação de ir até os cinemas do Centro Cultural Dragão do Mar, pra assistir Parasita. Por que eu fui fazer isso?

Um filme muito arriscado pra pessoas que não querem ser desafiadas, como eu nesse momento. Vou passar dias sem conseguir dormir direito por causa do Bong Joon-Ho (já gostei dele no Golden Globe, sugerindo que o povo começasse a ler as legendas).

É uma espécie de sátira-terror, uma mistura muito comum que acontece nos filmes contemporâneos, um passeio por alguns gêneros sem se prender a nenhum, como Bacurau. É engraçado, faz a gente rir, há o humor, mas muito atropelado. Há também a tensão do drama. Aterroriza por conta da violência gráfica. E é uma melancolia na falta de certeza do que realmente foi o desfecho.

Vendo todo o seu realismo brutal, não consegui não lembrar de toda a legião de alunos fãs de KPop (não tem nada de Kpop no filme, é só um surto meu, que não sou dondoca, mas surto constantemente) e o tanto que KPop é errado e tudo o que tem por trás da sociedade sul-coreana, muito doente e pervertida, em busca de se americanizar e perder a própria cultura. Mas o pior mesmo, é a degradação a que são submetidos os pobres e miseráveis de um país que abraçou o modo mais aviltante do capitalismo. Decerto, é um filme muito contemporâneo e, desafiador, para o meu mal.

A família do filme (Kim), aninhada  num porão, o que sobra pra eles morarem, como uma família de ratos (parasitas), no estrato mais baixo da sociedade, consegue se embrenhar na família rica (Park), tentando sobreviver às custas dos ricos, que só são ricos porque são o topo de um sistema que não deixa quem está embaixo, subir. Quem é o parasita, né? Tá lá no Auto da Compadecida, "a esperteza é a arma do pobre." Só que nem a Compadecida, tampouco a família Kim esperava pelo pobre de direita adorador de quem o despreza.

Tem uma máxima popular que fala assim, que "todo castigo pra pobre é pouco." Eu vivo dizendo isso pra mim mesma. Dia desses falei isso, debaixo de uma chuva torrencial, carregando uma caixa de bolo, porque decidi vir a pé pra economizar o do táxi (pobre sinistra). Mas, são enredos como o de Parasita que me dizem que sim, mas também que o castigo quando vem pra rico, vem em tempo. 

Inté. Assistam Parasita.

Imagem: Não se enganem com a imagem.

quinta-feira, 16 de janeiro de 2020

Coringa - Afinal, Arthur Fleck imaginou tudo mesmo?



Escrevi o post sobre o Coringa, minhas impressões aqui. Gostei muito do filme, grande novidade né, porque muita gente gostou, Joaquim Phoenix ganhando vários prêmios e fazendo discurso besta, como o do Golden Globe, etc. Só que muitos não gostaram também, inclusive um monte de cinéfilos, críticos de cinema e tudo bem, porque como dizia Nelson Rodrigues (de quem eu por sinal não gosto - da obra - mas reconheço que é interessante), toda unanimidade é burra.

Mas, pra quem gostou, pra quem não gostou, ficou uma dúvida - porque no fundo todo mundo saiu meio intrigado do cinema - Arthur Fleck imaginou tudo mesmo?

Tem esse livro do Umberto Eco, A obra aberta, que eu sempre recorro nesses casos, pois valida uma coisa que a minha experiencia enquanto leitora e expectadora sempre me mostrou: uma obra de arte está aberta para a interpretação de quem a aprecia. Óbvio que um autor (escritor, roteirista) quando cria uma obra, por mais que a história não seja linear ou que ainda, como no Coringa de Todd Phillips, acompanhemos um lapso de tempo de alguém com sérias perturbações mentais - naaada linear tampouco confiável - quando essa obra chega até nós, ela será percebida de maneiras diferentes, pois todos nós temos formações diferentes, olhares diferente, maneiras diferentes de percepção.

Então pra uns, Arthur Fleck imaginou tudo e nada daquilo é real. Vejo muito essa perspectiva nos fãs mais radicais da DC, porque "esse Coringa não é o Coringa de verdade". Aí eu até concordo, ele é mais. Já pra outros, uma parte do que ele experimenta é delírio, que percebemos através de cenas e referências que se espelham ao longo do filme (o sonho com Murray ao assistir o programa com a mãe, a vizinha Sophie, uma parte da dança na escadaria - vocês perceberam que uma parte da dança é delírio?). O próprio diretor de fotografia, e até o próprio Todd, afirmaram exatamente isso, que uma parte é imaginação da personagem, mas não tudo. 

Mas, como falei antes, quando a obra cai em nossas mãos, ela meio que passa a ser nossa, inclusive pra criarmos superinterpretações e delirarmos junto com Arthur Fleck.

Inté.

domingo, 5 de janeiro de 2020

Indicados Golden Globe 2020 - Com palpites ;)



Eu já falei aqui em algum momento que amo assistir o Golden Globe, incluindo o red carpet. É um ótimo entretenimento conferir o que ganhou por merecer, as injustiças, vestidos lindos de conto de fadas, gente fazendo palhaçada etcetera coisa e tal.A premiação promete, até porque ficará a cargo de Rock Gervais (criador de The Office) então esperemos sua habitual língua ferina e cáustica, ao sabor britânico.

Ah, Parasita, filme coreano, está vindo forte pra ganhar. Pode ser que o Coringa seja completamente esnobado, então vão se preparando aí.

 Vamos conferir?


CINEMA 

Melhor filme de drama 
 1917 (zebra)
 O irlandês (forte candidato)
 Coringa (forte candidato - minha aposta)
 História de um casamento (forte candidato)
 Dois papas (forte candidato)


Melhor filme de comédia 
Meu nome é Dolemite
Jojo Rabbit”
Entre facas e segredos
Era uma vez em... Hollywood (forte candidato - minha aposta)
Rocketman (forte candidato)

 Melhor direção
 Bong Joon Ho, Parasita (forte candidato)
 Sam Mendes, 1917
 Quentin Tarantino, Era uma vez em... Hollywood (forte candidato)
 Martin Scorsese, O irlandês  (forte candidato)
 Todd Phillips, Coringa (zebra - minha aposta)

 Melhor atriz de drama (E a Lupita?)
 Cynthia Erivo, “Harriet”
 Scarlett Johansson, “História de um casamento” (forte candidata - minha aposta porque não indicaram Lupita)
 Saoirse Ronan, “Adoráveis mulheres”
 Charlize Theron, “O escândalo”
 Renee Zellweger, “Judy” (forte candidata)

 Melhor ator de drama (no idea)
 Christian Bale, “Ford v. Ferrari”
 Antonio Banderas, “Dor e glória”
 Adam Driver, “História de um casamento” (forte candidato)
 Joaquin Phoenix, “Coringa” (forte candidato - minha aposta)
 Jonathan Pryce, “Dois papas” (forte candidato)

 Melhor atriz de comédia 
 Awkwafina, “The Farewell”
Ana de Armas, “Entre facas e segredos”
Beanie Feldstein, “Fora de série”
Emma Thompson, “Late Night”
Cate Blanchett, “Cadê você, Bernadette?”

 Melhor ator de comédia 
 Daniel Craig (“Entre facas e segredos”)
 Roman Griffin Davis (“Jojo Rabbit”)
 Leonardo DiCaprio (“Era uma vez em... Hollywood”)  (forte candidato)
 Taron Egerton (“Rocketman”)
 Eddie Murphy (“Meu nome é Dolemite”) (forte candidato)

 Melhor atriz coadjuvante 
 Annette Benning, “O relatório”
 Margot Robbie, “O escândalo”
 Jennifer Lopez, “As golpistas”
 Kathy Bates, “O caso Richard Jewell”
 Laura Dern, “História de um casamento” (forte candidato - minha aposta)

 Melhor ator coadjuvante 
 Tom Hanks, “Um lindo dia na vizinhança”
 Al Pacino, “O irlandês” (forte candidato)
 Joe Pesci, “O irlandês” (forte candidato)
 Brad Pitt, “Era uma vez em... Hollywood” (forte candidato)
 Anthony Hopkins, “Dois papas” (forte candidato - minha aposta)

 Melhor trilha sonora 
 “Brooklyn — Sem pai nem mãe”
 “Adoráveis mulheres”
 “Coringa” (forte candidato - minha aposta)
 “1917”
 “História de um casamento”

 Melhor canção 
 “Beautiful Ghosts” – "Cats"
 “I’m Gonna Love Me Again” – "Rocketman" (forte candidato)
 “Into the Unknown” – "Frozen 2"
 “Spirit” – "O rei leão"
 “Stand Up” – "Harriet"

 Melhor roteiro
 "História de um casamento" (forte candidato - minha aposta)
 "Parasita" (forte candidato)
 "Dois papas"
 "Era uma vez em Hollywood"
 "O irlandês"

 Melhor filme estrangeiro 
 “The Farewell” (China)
 “Les Misérables” (França)
 “Dor e glória” (Espanha)
 “Parasita” (Coreia do Sul) (forte candidato)
 “Retrato de uma jovem em chamas” (França)

 Melhor animação 
 “Frozen 2”
 “O rei leão”
 “Link perdido”
 “Toy Story 4” (forte candidato)
 “Como treinar o seu dragão 3”

 TELEVISÃO 

Melhor série de drama 
 “Big Little Lies” (minha aposta)
 “The Crown”
 “Killing Eve”
 “The Morning Show”
 “Succession”

 Melhor atriz em série de drama 
 Jennifer Aniston, “The Morning Show”
 Jodi Comer, “Killing Eve”
 Nicole Kidman, “Big Little Lies” (minha aposta)
 Reese Witherspoon, “The Morning Show”
 Olivia Colman, “The Crown” (forte candidato)

 Melhor ator em série de drama 
 Brian Cox, “Succession”
 Kit Harington, “Game of Thrones”
 Rami Malek, “Mr. Robot”
 Tobias Menzies, “The Crown” (forte candidato)
 Billy Porter, “Pose”

 Melhor série de comédia ou musical 
 “Barry”
 “Fleabag”
 “O método Kominsky” (forte candidato)
 "The Marvelous Mrs. Maisel” (forte candidato)
“The Politician”

 Melhor atriz em série de comédia 
 Christina Applegate (“Dead to Me”)
 Phoebe Waller-Bridge (“Fleabag”)
 Natasha Lyonne (“Boneca russa”)
 Kirsten Dunst (“On Becoming a God in Central Florida”)
 Rachel Brosnahan (“The Marvelous Mrs. Maisel”) (forte candidato)

 Melhor ator em série de comédia 
 Ben Platt, “The Politician”
 Paul Rudd, “Living With Yourself”
 Rami Yousef, “Rami”
 Bill Hader, “Barry”
 Michael Douglas, “O método Kominsky” (forte candidato)

 Melhor minissérie ou telefilme 
 "Catch-22"
 "Chernobyl" (minha aposta)
 "Fosse/Verdon"
 "The Loudest Voice"
 "Inacreditável"

 Melhor atriz em minissérie ou telefilme 
 Kaitlyn Dever (“Inacreditável”)
 Joey King (“The Act”)
 Helen Mirren (“Catherine the Great”)
 Merritt Wever (“Inacreditável”)
 Michelle Williams (“Fosse/Verdon”)

 Melhor ator em minissérie ou telefilme 
 Chris Abbott (“Catch 22”)
 Sacha Baron Cohen (“The Spy”)
 Russell Crowe (“The Loudest Voice”)
 Jared Harris (“Chernobyl”) (forte candidato)
 Sam Rockwell (“Fosse/Verdon”)

Melhor ator coadjuvante em série, minissérie ou telefilme 
Alan Arkin, “O método Kominsky”
 Kieran Culkin, “Succession”
 Andrew Scott, “Fleabag”
 Stellan Skarsgård, “Chernobyl” (minha aposta)
 Henry Winkler, “Barry”

 Melhor atriz coadjuvante em série, minissérie ou telefilme 
 Meryl Streep, “Big Little Lies” (minha aposta)
 Helena Bonham Carter, “The Crown”
 Emily Watson, “Chernobyl”
 Patricia Arquette, “The Act”
 Toni Collette, “Unbelievable”

Inté.

Imagem: Parasita.

Coringa



Prometi a postagem sobre Joker antes de 2019 acabar, ma não deu. O texto até que já estava rabiscado, mas não estava pronto. Eu não estava pronta ainda, talvez eu nunca esteja preparada pra falar sobre esse Coringa, que me fez um rasgo no peito, similar ao que senti no Cisne negro, aquele fantasma que te possui daquele ballet kamikaze. 

Esperei pelo pior dentro da sala de cinema. O medo de que ele aparecesse perante a plateia na pré-estreia espalhada pelas salas Imax pelo mundo, como a minha aqui em Fortaleza. Todas uma só. Eu olhava em volta e o via, porque ele era o cinema inteiro, ele era a pulsão do meu medo de infância: de ser abandonada. de nunca conseguir nada, de não ser amada, de ser humilhada, diminuída até desaparecer. Vi-me então frágil e deslumbrada. E vi uma das maiores atuações, alcançar a própria zona abissal. Diante de mim, quadros fotográficos pintando um bailarino, Joaquin Phoenix (Arthur Fleck) e sua orquestra de intenções. Uma obra magistral acena para a arena e a clareira de um sujeito autofóbico, no resíduo psíquico permanente, uma sequela subjetiva que já não depende mais de uma alteração de estado estético ou livramento interno, nem a assimilação normativa e o posterior acolhimento por parte do opressor. A autofobia seria um estado latente de inadequação mesmo ao aparente adequado. É como receber um elogio muito evidente e não se reconhecer nele. Achar que é sobre um outro que não você, mesmo sabendo que é sobre você. É assustador quando a arte ousa expor a sombra do mundo deixando a própria se explicar. E a sombra nos conta que talvez não haja nada ali adiante, é apenas a consciência supondo o visível, e o invisível e uma larga ausência do depois.

 Há o risco moral mas não a tal romantização da barbárie ou a fundação do web-exército Columbine. Não enxergo uma apologia ao terrorismo, mas antes noto na narrativa um embasamento político em que duas ruas ideológicas podem ter inclusive um mesmo nome. Entendo como uma divisão de responsabilidades, inclusive essa que nos aponta enquanto sociedade cruel. O isolado tem sempre hipóteses como ser um náufrago na ilha de si, desviar dos cegos que o rejeitam ou fingir pra si que está sendo visto por todos eles. É perigoso se descobrir invisível, se descobrir invisível é não existir diante do outro. Veja o exemplo das redes sociais, esse grande abrigo de invisíveis, muitos deles cruéis, outros muitos não - ainda mais nesse quarteirão vazio aqui, o dos blogs, cheio de entes virtuosos. Ser invisível é estar sozinho dentro de um duelo de vozes. É quando a gente chega a contestar se até mesmo existimos, que o eu é um aparelho fragmentado feito de pelo menos 2 vozes internas. É preciso então olhar para elas duelando para se acessar a própria cartilha moral e então negociar consigo ou desistir. 

O próximo perigo é binarizar esse repertório dialógico, acreditar que essas supostas 2 vozes não podem ser 3 ou 4 ou infinitas. Uma coisa que aprendi com meu pai é que a ignorância é a mãe de todos os malefícios, coisa de Charles Dickens que no seu Cântico de Natal elencou a ignorância e a carência como os filhos da humanidade. Mas, também aprendi por mim mesma que toda maldade nasce da dor, e esse é Arthur Fleck. No núcleo de tudo, a solidão da aberração, Arthur não sente amparo nem em seu suicide watch sazonal. A ênfase na criança-adulta começa a anunciar a tragédia do futuro. Desorganiza-se primeiro o centro de comando e depois isso se amplia na desorganização dos corpos ao redor, o átimo do caos aos poucos é convidado ao passeio. Um futuro que não poupará ninguém. 

E daí o Coringa nasce no seu modo de colorir lacunas, a densidade em seus dois olhos litorâneos, tão rei quanto coringa, alguém que sempre puxa a gaveta da própria loucura. Em mim uma história que parece começar na melodia mais grave de um cello. Ainda não estou pronta. A arte não conta tudo porque tudo é um oco de nada.

Inté.

quinta-feira, 26 de dezembro de 2019

Filmes 2019



O ano de 2019 foi muito especial pra mim pelo simples fato de que fui muito ao cinema. Muito mesmo, coisa de ao menos duas vezes por mês e, alguns meses, todas as semanas e o mais legal, alguns filmes várias vezes, como Joker, por exemplo, que passei das três vezes. Não vou dizer quantas.

E depois do advento da meia-entrada cultural na minha vida e de tirar carteirinha unique, cinépolis aproveitei várias promoções, vouchers o que transformou o ano de 2019 no ano do cinema, ao menos pra mim. Sim meu povo, foi um ano terrível em vários aspectos, o próprio cinema nacional sofreu vários golpes, o desmonte da Ancine está a pleno vapor, mas em ano de Bacurau a gente tem é que ficar feliz, a arte e a cultura brasileiras resistem, então né? Força. Estou tentando fazer a coisa do copo meio cheio. Antes, eu só via o meio vazio, agora também vejo o meio cheio, então estou equilibrando as coisas ;)

Então, antes do ano acabar, devo fazer umas resenhas dos filmes (e séries) que mais gostei e tal. Agora é só um balanço dos filmes que fui conferir em 2019.

Glass - Comecei o ano intensamente assistindo o crossover de Shyamalan. Fui morrendo de medo de odiar, porque o realizador em questão é uma criaturinha com altos e baixos. Havia gostado bastante de Fragmentado, mas ninguém precisa lembrar de Avatar, né? Pois então. mas Glass e a mítica dos super heróis funcionou que foi uma beleza.

Spider-Man: Into the Spider-Verse - Falando em super heróis, bem no começo do ano fui conferir Homem-Aranha no Aranhaverso também morrendo de medo de não prestar. Confesso que nem assisti em 3d com pena de pagar o ingresso e ser uma porcaria e me arrependi, porque a animação é incrível. Impossível não se apaixonar por Miles Morales, caso você não o conheça das HQs.

Captain Marvel - Aliás, este foi o ano dos super-heróis, né? Então! Capitão Marvel assisti com tudo o que tinha direito, tela I-Max e tal. Fui com as expectativas lá em cima e não me decepcionei. Obviamente, o povo reclamou pra caramba e nós sabemos o porquê. A gente ignora e pronto.

Us - Está na minha lista dos três melhores que assisti este ano, talvez um dos melhores pós-terror que já assisti. Por que Lupita foi ignorada pelo Golden Globe? Bem...

Shazam - Outro filminho que fui sem fé alguma, paguei uma sala mais baratinha e me surpreendi positivamente. Muito divertido.

Dumbo - Chorei pra c*&$#%@. Amei que mudaram a história e adaptaram a coisa dos animais no circo e fiquei mais satisfeita porque foi um acerto do meu querido Tim Burton.

Avangers Endgame - E como a Capitã, com tudo o que tinha direito, sala I-Max, na estreia com os fãs de verdade que vibraram o filme inteiro, em todos os fanservice do filme, e que bom que teve. A maior bilheteria da história do cinema e eu ajudei, fui mais de uma vez.

Cemitério Maldito - Foi uma grata surpresa, alteraram o final o que foi bem interessante, porque né, uma altura dessa, quem não sabe como acaba, tem o livro, já tivemos outro filme. Algumas pessoas podem se aborrecer, mas eu entendo que cinema precisa de outras ferramentas que ajudam a vender, cinema americano quer dinheiro, afinal eles são uma indústria.

Brightburn - A história do Superman do mal, bem terrorzão, curti. Tinha possibilidade de ficar muito ruim, mas funcionou bem.

Fênix Negra - Uma porcaria, uma das piores coisas que assisti no ano.

MIB - Engraçadinho, valeu a pipoca.

Aladdin - Surpreendente e muito mágico. Eu pensei que a live action não ficaria fiel, mas ficou ainda melhor do que o desenho. E as adaptações na história ficaram incríveis. Will Smith de gênio? Incrível!

Toy Story IV - Uma decepção. Que final foi aquele? Qual o problema da Pixar?

Spider-man - Far from home - Exatamente do jeito que eu imaginava, uma ótima continuação, incrível, não vejo a hora do filme 3. O final? gente, é o Spider-man, se ele não se lascar, não é o Spider-man.

Annabelle 3 - Um lixo. Talvez eu tenha achado isso porque foi a pior experiencia de sala de cinema que já tive na minha vida inteira. e em um dos cinemas mais caro da cidade, no shopping mais caro, mais elitista. As pessoas da sala eram tão idiotas e mal educadas, gritaram tanto, fizeram tanto escândalo, que ligaram as luzes da sala pra pararem de gritar. SÉRIO. Mas acho que fora isso, o filme é ruim mesmo. Caça níquéis dos infernos.

O Rei Leão - Ficou lindo, uma boa adaptação e não concordo que os leões estavam sem expressão. Nunca vi leão sorrir, mas né?

Scary stories to tell in the dark - Excelente filme de terror e um ótimo exemplo como maquiagem funciona melhor do que CGI.

Once upon a time in hollywood - Falei dele aqui.

Bacurau - Um do filmes mais inacreditáveis que já assisti na vida. Falei dele aqui.

A vida invisível de Eurídice Gusmão - Aqui.

It (Part II) - A maior decepção do ano.

Midsommer - Mesmo diretor de Hereditário, que já havia me deixado atordoada. Mexeu muito comigo. 

Joker - Ainda vou escrever sobre. Arthur Fleck não sai de mim.

Malleficent II - Desnecessário, mas bonitinho. Aurora boring. Viva Titia Maléfica.

Doutor Sonho - Muito bom, a melhor das adaptações dos textos de Stephen King deste ano (foram três - Cemitério maldito, It e Doutor Sonho). 

Exterminador - Desde o Exterminador II que não acertavam um filme da franquia. Este ficou excelente, revisitando elementos que deram certo outrora.

Star Wars - Ascensão Skywalker - Eu adorei essa última saga, eu amo Star Wars, comecei a amar cinema graças a Star Wars. Mas não sou uma fã cega, consigo ver todos os problemas com a saga, como um todo e a história de Rey & Kylo Ren foi mal desenvolvida, cheia de falhas e tal. Mas, mesmo assim, eu gostei. Escreverei mais sobre. Por enquanto, fiquem com isso e, isso.


Inté.

sábado, 31 de agosto de 2019

A vida invisível de Eurídice Gusmão





"Preciso continuar te escrevendo para não esquecer da pessoa que um dia eu fui"

Mexeu muito comigo o filme do meu conterrâneo Karim Aïnouz. Uma vida quase toda imperceptível é uma coisa que conheço de perto e é isso o filme, sobre como nós mulheres muitas vezes não somos enxergadas como pessoas, e a visão que chega até nós é a da violência e do silenciamento. A frase acima é escrita pela protagonista e bateu fundo. Entre 2008 e 2014, anos em que estive invisível pelo Rio (onde se passa a narrativa) escrevia pra uma amiga muito querida, uma espécie de irmã, apesar de que nunca soube direito o que isso significa. Hoje eu sei que, além da saudade que me incitava à escrita de cartas e e-mails, eu também escrevia pra não esquecer de mim mesma. E nunca mais nos vimos.

O filme é baseado no livro de Martha Batalha, que narra a trajetória de duas irmãs, cujos sonhos são oprimidos e soterrados pelo machismo da nossa sociedade que, nos idos de 1950 era sensivelmente mais voraz, contudo, que o século XXI ainda não conseguiu vencer. 

A vida invisível tem um ar de telenovela maravilhoso, as telenovelas que cresci assistindo, como as de Janete Clair e ainda, algo dos filmes que passavam na Sessão da Tarde de anos atrás. Interessante que faz pouco tempo, gostar de novelas era sinônimo de cafonice ou pouca inteligência: "eu não assisto novela" era a frase padrão. Mas hoje, observo vilãs de novelas como Odete Roitmam, Nazaré Tedesco e Carminha virarem ícones dessa mesma gente e mais, outros elementos telenovelescos ganharem a tela grande e seguirem pra conquistar uma vaga na corrida rumo ao Oscar - o filme de Karim está na disputa pra concorrer a melhor filme estrangeiro. Ah  ironia do tempo. Ou da moda.

Mas voltando à estória só que nem tanto, uma vez ouvi de uma das minhas professoras de Literatura da faculdade, que se não todo, quase todo homem era canalha. Naquela altura, eu já meio que sabia disso, era quase uma verdade absoluta. Teimando, por conta de alguma mandinga universal, terminei de confirmar a canalhice, a maldade e a perversidade de homens que abusam do sistema que é feito pra eles e que exploram todos os malogros do machismo, pra fazer da vida das mulheres ao redor, uma agonia. A gente cala e mata nossos sonhos, silencia perante abusos emocionais e físicos e tem que ficar feliz quando é abandonada, porque temos de recompensa, mesmo que aos pedaços, a nossa vida, quando muitas de nós terminam mortas.

Soube que Karim sentiu-se homenageando a avó e a mãe, responsáveis por sua criação. Elas não serão invisíveis. Não sejamos também.

Inté.

Imagem: de um dos postais do filme, entregue na primeira exibição de A vida invisível, que abriu o Cine Ceará 2019 no Cine Teatro São Luiz, aqui em Fortaleza, e que contou com a presença do elenco do filme, incluindo a maravilhosa Fernanda Montenegro e o diretor Karim Aïnouz.

domingo, 25 de agosto de 2019

Bacurau - Você não quer conhecer a nossa história?



"Estamos sob a ação de forte psicotrópico. Tu vai morrer."

Não sei se um dia deixarei de me sentir impactada por Bacurau, última realização dos maravilhosos Kleber Mendonça Filho e Juliano Dornelles. Bacurau, que é ave braba que só sai à noite, que batiza o vilarejo onde se passa a nossa distopia faroéstica. E fui ter com Bacurau sem ler quase nadinha sobre, como tem que ser quando o filme presta. É quase uma atitude vintage, como quando a gente frequentava as salas de exibição lendo um parágrafo ou dois na revista Set (gente, a revista Set).

O que eu sabia do filme? Que era um western com algo de ficção científica. Acho que a pessoa que escreveu isso esqueceu da palavra distopia, talvez sob o efeito de estar vivenciando uma agorinha mesmo no Brasil. Traumas à parte, a palavra certa pra Bacurau é distopia da peste e, na coisa do western (faroeste), Kleber Mendonça reinventa e melhora, engrandece e agiganta esse gênero tão norte-americano e também por isso, tão cafona, e o que é melhor, pra meter bala nos fi duma égua.

E se você for sudestino/sulista e não for uma pessoa auto-crítica, e não reconhecer toda a xenofobia, racismo, em suma, falta de decência de algumas várias pessoas dessas regiões, pode ser que você se ofenda. Ou não, vai saber. Porque é bem fácil estar do lado que ridiculariza os cabeças-chatas, paraíbas, paus-de-arara ignorantes dos nove estados do Nordeste, mas quando a posição se inverte, quando se enfia o dedo na chaga aberta da violência e do preconceito que humilha e mata, a experiência pode ser um pouco cáustica. Ademais meu amigo, se você é capaz, mesmo não sendo nordestino, de reconhecer todas essas coisas e se indignar, porque no final das contas, não tem descendência italiana, alemã que faça ninguém do Brasil ser visto como um igual na baixa da égua da gringa, porque nem de binóculos, cara a cara, eles te enxergarão como igual, aí sim, a epifania vai bater forte. Pode até ser que você consiga chegar ao riso catártico da minha sala de exibição lotaaaada no Dragão do Mar aqui em Fortaleza, colada com a Praia Iracema, a delícia do escárnio e da revanche, que é uma espécie de resistência aqui por essas terras.

Aí você decide, se você quer viver ou se você quer morrer, escolha e responda o título dessa postagem. 

E dá-lhe Lunga!



Era uma vez em Hollywood... e a sina do gringo.




Foi na faculdade que me apresentaram aos filmes de Tarantino. Na época, eu tinha uma amiga que gostava muitomuito de seus filmes (e foi ela que me apresentou) e um outro que detestava. Dois amigos, duas opiniões completamente contrárias. Passados alguns anos, alguns filmes de Tarantino depois, eu quase que mantenho minha primeira impressão, a de que são filmes muito divertidos e é só isso mesmo. Mas já já falo sobre isso.

 É uma forte linha de trabalho do diretor, que cinema é, acima de tudo, entretenimento, que cinema é diversão, ele até faz todo o set repetir isso quando está filmando algo (ou é e amamos fazer filmes, algo que o valha). E pra quem conhece o trabalho de Quentin Tarantino, uma coisa que dá pra perceber muito bem é o quanto ele se diverte e o quanto ele ama Los Angeles, Hollywood e toda aquela aura do cinema norte-americano dos anos 1960. E é justamente aí em que se ambienta Era uma vez em Hollywood, criando um faz de conta tarantinesco, (com violência pornográfica, caricaturas e preconceitos), alusões às memórias da infância do diretor, como a rede KHJ no rádio, os passeios por Los Angeles num Karmann Ghia, as marquises dos teatros, os anúncios fluorescentes e a paisagem de bairros como Cielo Drive, onde moravam as estrelas da época, em que também não havia o distanciamento entre público e estrelas, até o caso Tate-LaBianca na vida real. Mas, os filmes de Tarantino não são vida real (na verdade nenhum é) e numa altura dessas, todos vocês já sabem o que acontece no filme. 

O detalhe do filme que mais gostei foi a doçura e ingenuidade que Sharon Tate é apresentada. Um lindo retrato, me deixou até um pouco melancólica, que é, ao menos pra mim, uma bela marca de autoria de Tarantino, fazer um filme puro entretenimento a base de ultra violência e comicidade nos deixar um pouco tristinhos. Um simulacro de reflexão, numa cultura tão ensimesmada, que pouco ou mal consegue olhar pra fora, isso é provocar. Não sei se é a isso que Tarantino se refere quando se autodeclara um provocador, mas é onde eu o reconheço, mesmo com o ranço xenofóbico (a parte do Bruce Lee).

Voltando ao começo, hoje seguramente posso afirmar que, os filmes de Quentin Tarantino, pra mim, são sim cinema entretenimento quase que absolutamente, só que, com classe e personalidade, apesar de ser muito norte-americano, a catarse se processa através de alguns momentos pra se refletir um pouco e, ficar triste.

Inté.

quarta-feira, 25 de julho de 2018

Suspiria



Como que eu nunca havia assistido Suspiria, é o que me pergunto desde que assisti, há poucos dias. O nome do diretor italiano Dario Agento não me é estranho, até porque suas realizações influenciaram abertamente outros diretores cuja obra eu cresci assistindo, como Halloween, Sexta-feira 13 e os filmes de Tim Burton. Só que, infelizmente, Agento só me chegou agora, na minha maturidade, uma lástima pra mim. E se você gosta de filme de terror e ainda não entrou em contato com o espetacular universo de Agento, faça-o logo. 




 Os filmes de Argento não economizam nas mortes sangrentas e cenas aflitivas. Entretanto, o mestre do “giallo” (amarelo em italiano, nome dos filmes de terror italianos - explico já o porquê do nome) sempre foi considerado um cineasta inovador e esteticamente cuidadoso. Produções suas como Prelúdio para matar, Tenebre e O pássaro das plumas de cristal, realizadas nas décadas de 1970 e 1980, são clássicos de terror. Seu título mais conhecido é justamenteria Suspiria, graças à construção do clima de medo por meio de cores saturadas e uma trilha sonora arrepiante, é quase uma unanimidade. O filme me chamou a atenção por conta do remake, que será dirigido por Luca Guadagninob (Call me by your), inclusive parece que era um sonho antigo desse diretor, já que Suspiria é seu filme favorito. O remake tem no elenco as atrizes Tilda Swinton e as fraquinhas Dakota Johnson e Chloe Grace Moretz, essa última já tem no currículo a péssima versão do remake de Carrie A Estranha, uma desnecessidade. Daí que já se fica ressabiado, mesmo que o teaser do trailer seja bem convidativo. Ah, essa nova versão conta com trilha de Thom Yorke, o que é muito bom também, já que a trilha na versão original é incrível. 




Assistindo Suspiria, dá pra perceber a importância do expressionismo alemão da década de 1920, de diretores como Fritz Lang e F.W. Murnau, e o cinema surrealistas de Luis Buñuel. Sua estreia como diretor foi 1970 com “O pássaro das plumas de cristal”. No filme, o assassino aparece com luvas pretas, que são usadas pelo próprio Argento. A marca se repetiria em diversas produções suas. O pássaro é a primeira de uma trilogia sobre animais que também inclui “O gato de nove caudas” e “Quatro moscas sobre veludo cinza”. Em 1975, ele lança “Prelúdio para matar”. Sanguinolento, o filme foi pioneiro dos slasher films, em que um assassino trucida pessoas com instrumentos cortantes. Entre os influenciados está “Halloween - A Noite do Terror”, dirigido por John Carpenter, de 1978. O título original do filme, “Profondo rosso” (ou “vermelho profundo”), alude a sangue, mas também sinaliza a importância da cor, portanto do cuidado visual, na violência filmada por Argento. Seus filmes são decerto brutais e frequentemente estéticos. Em “Prelúdio para matar”, Argento colabora pela primeira vez com a banda de rock progressivo Goblin. Liderada pelo brasileiro radicado na Itália Claudio Simonetti, a tensão musical criada pelo grupo se tornaria um componente essencial da obra de Argento. 


 Suspiria: Uma estudante descobre um mundo de bruxaria e horror em uma escola de dança na Alemanha. A trama de “Suspiria”, como de costume nos filmes de Argento, é simplória, quase nula (a maneira como a bruxaria é retratada no filme em termos de enredo-roteiro é de uma tosquice comparável à Uma noite Alucinante, mas é apenas um detalhe). O filme de 1977, entretanto, é considerado o ponto alto da filmografia do cineasta. Com os anos, se tornou objeto de culto, junto com a trilha sonora, outra vez da banda Goblin. O impacto e a ousadia em “Suspiria” vêm em grande parte de seu uso de cores. Vermelho, azul e verde, os tons primários, surgem saturadas, artificiais, fortemente contrastadas com partes profundamente escuras. Argento empregou uma variante do processo de colorização Technicolor para conseguir o efeito visual. Com elementos clássicos como feitiços, bruxas e a floresta negra, “Suspiria” foi descrito como “um conto de fadas gótico”. Para fazer Suspiria, uma total abstração do que chamamos de ‘realidade diária’, foram usadas cores primárias, que são geralmente tranquilizantes, apenas na sua forma mais pura, fazendo com que ficassem violentas e provocativas de forma imediata e surpreendente. Argento constrói a história de maneira que os momentos mais horrendos têm uma beleza horripilante. Mesmo os espirros de sangue parecem meio que com uma pintura viva de Jackson Pollock. Como dito no começo, em italiano, “giallo” significa “amarelo”. A cor passou a ser associada no país a histórias de terror e mistério na década de 1930 graças a uma série de livros “pulp” chamada “Il giallo Mondadori”. Publicadas pela editora Mondadori, as capas vinham sempre com um fundo amarelo. Com o sucesso dessas edições, outras editoras começaram a imitar a estética. 



O termo “giallo” ganhou abrangência nas décadas seguintes, sendo usado na Itália para designar livros e filmes de suspense e terror. A partir da década de 1960, “giallo” entrou para a língua inglesa como uma designação genérica para filmes italianos de terror. O diretor Mario Bava é um reconhecido pioneiro deste cinema, com fãs como Martin Scorsese e Tim Burton. Em 1956, dirigiu “I vampiri”, considerado um dos primeiros filmes italianos de terror. A obra de Bava inclui títulos como “Seis mulheres para o assassino”, de 1964, e “Banho de sangue”, de 1971, que inspirou produções como a série “Sexta-feira 13”.

terça-feira, 24 de julho de 2018

Westworld - Is this now?



Agora que já se passaram algumas semanas do término da segunda temporada de WestWorld, e que se passou, um pouco, o impacto de tanto plot twist, venho aqui pra perguntar pra vocês se têm certeza de que agora é agora e se não somos todos hosts. Porque olha, eu não tenho mais certeza de nada, tipo o William no final (antes do extra do extra) da temporada.

 Tirando meus delírios (Hello Ford, my old friend...), o que ficou pra gente, ao menos pra mim, é o que vai acontecer na já muito esperada terceira temporada, que por sinal só vai ao ar em 2020. Os realizadores, Nolan-Joy-Abrams, já andaram falando o que não vai ter: Teddy, a sequência pra explicar o que era aquela cena final, o tal futuro apocalíptico distópico (mais ainda) ectecera coisa e tal. E daí que a gente que está com um baita dum vazio existencial sem Dolores e Maeve nos domingos da HBO, fica que nem náufrago num botinho no meio do oceano de angústias.

 Mas o que há de tão fascinante nessa série? É o que muitos se perguntam, levando em conta que a história não é lá muito agradável, já que, basicamente, WestWorld paira no mote do como a humanidade é uma merda - salvo raríssimas exceções, como o Felix. De que à medida do potencial criativo, ao ponto de se desenvolver não apenas inteligencia artificial, mas corpos artificiais funcionais perfeitos, criados por super impressoras, para lém do 3d, que levaram o ser humano a bater de frente com a morte e, a recriação da mente humana, conduzindo a espécie à eternidade, o que se faz com tudo isso é no final das contas, sórdido, feio e vazio. E aí, contrariando os iluministas como Rouseuau, que afirmavam que o ser humano é essencialmente bom, vamos de encontro a Hobbes, que afirmava o contrário, que somos todos uma porcaria e daí os contratos sociais, que nos regulariam, ouvimos isso da boca de William em dado momento da série. Na boca dum Logan, adoecido, contudo mais lúcido do que nunca, ele profetiza de que nós mesmos nos destruiremos através dessa F"nova espécie" criada por nós.

 A essência disso não é nova, vimos em Terminator e de maneira mais sofisticada em Matrix, contudo, não dessa maneira perversa como vemos em WestWorld. Ao passo em que assisto, vão se imbricando em mim todas as minhas leituras. Na visão de Nietzsche, por exemplo, o conceito de bom ou mau na esfera moral não possui sentido em si mesmo, de modo que nada, em sua essência, é objetivamente bom e tampouco mau  aí teríamos a justificativa pra personagens como Ford. 

O que será de nós, no final de tudo?

segunda-feira, 16 de julho de 2018

Sharp Objects - You could be anywhere on the black screen



Um dos grandes lançamentos da HBO para 2018, "Sharp Objects" recebeu, antes mesmo de estrear no último domingo (8), uma alcunha incômoda: a de "nova Big Little Lies", em referência à minissérie super premiada de 2017.  Assim como sua predecessora, "Sharp Objects" tem uma estrela hollywoodiana. como Amy Adams, traz mulheres como protagonistas, é uma adaptação de um livro (mesma autora de Gone Girl) e é dirigida por Jean-Marc Vallée. Mas a comparação não é totalmente justa, já que a nova minissérie tem méritos próprios, muitos por sinal. 



Amy Adams é Camille, uma jornalista que viaja a Wind Gap, uma cidadezinha esquecida do sul dos Estados Unidos, para investigar o assassinato de uma menina e o desaparecimento de outra. Acontece que Wind Gap é a cidade natal da protagonista, cheia de recordações traumáticas que ela deixou para trás há muitos anos. Ou, acha que deixou. Por conta disso, "Sharp Obejcts" não é um suspense convencional: importa menos o "quem matou" do que a exploração profunda e detalhada da psiquê aquebrantada de Camille. Assombrada pelas feridas do passado, ela tem pequenas garrafinhas de vodca como companheiras inseparáveis, alé, de cigarros, doces e analgésicos, e mantém o hábito de se cortar - daí o título da minissérie e do livro.



 A trama lembra, de certa forma, o que a mesma HBO fez na primeira temporada de "True Detective", também mais interessada na bagagem psicológica de seus personagens. Mas, em "Sharp Objects", isso acontece a partir de uma perspectiva feminina, potencializada pelo fato de Camille conviver intimamente com duas personagens tão interessantes quanto ela: sua neurótica mãe Adora (Patricia Clarkson), que não está exatamente feliz com seu retorno, e sua meia-irmã Amma (Eliza Scanlen), que dentro de casa é uma garota inocente, e fora mostra seu lado mais rebelde. 



 Cuidadosamente construída, a história tem um ritmo mais lento, a ser digerido aos poucos - como pede sua grande carga dramática. E isso está longe de ser um demérito: nos dois primeiros que já foram ao ar, a gente se sente instigado a continuar o mergulho na vida de Camille, em uma atuação fascinante de Amy Adams, mesmo quando ela se torna muito sombria. A série traz uma aura onírica à série, com belas sequências em que passado, imaginação e realidade confluem. E fora da luxuosa mansão da família de Camille, o mundo construído pelo diretor passa longe do luxosa mansão da família de Camille, o mundo construído pelo diretor passa longe do luxo de "Big Little Lies": Wind Gap é uma cidade decadente, que não esconde que há algo de muito errado por lá. Talvez exista em todas as cidades pequenas. O pacote é arrematado por uma trilha sonora que se torna parte indissociável da jornada da protagonista, com,o o primeiro episódio cheio de músicas de Led Zeppilin e, em especial, a música do final do segundo episódio, que foi ao ar ontem, Black Screen, do LCD SoundSystem.


quarta-feira, 27 de junho de 2018

Hereditário - brincando com a Goetia



Estou impactada. E assustada. Podia fácil resumir o que tenho pra escrever sobre o primeiro longa de Ari Aster (não parece nome de vídeo-game?), Hereditário. Muito porque sou uma pessoa impressionável, que ainda guarda muito da menina que via monstros com braços de galhos de árvores na penumbra do quarto. Muito porque, como persona-gótica envolvida com as sombras e a escuridão, acredito piamente que há muita coisa que não somos capazes de entender. E nem deveríamos. E, quando um filme "brinca" com estes elementos, que realmente existem e são cultuados em algum nível, a coisa muda de figura. Ou não, vai saber.

O filme em questão se tornou um sucesso de bilheteria e crítica, apontado como um filme tão revolucionário para o horror como Bebê de Rosemary e Exorcista. Embora o impacto inicial de filmes de horror tenha o costume de atrair exageros, havia motivos para aguardar de forma ansiosa a estreia do filme no Brasil. Primeiro porque a produtora do filme, a A24, famosa outrora pelos filmes de Tarkovsky e por agora A Bruxa e Ao Cair da Noite (que eu ainda não assisti), considerados dois dos melhores filmes de horror dos últimos anos. Depois, porque a confiança na sua própria produção é tão grande, que a A24 já anunciou que pretende brigar pela indicação ao Oscar de Melhor Atriz da protagonista do filme, Toni Collette, algo que tem ainda mais relevância, considerando o desprezo da Academia por filmes de horror. 

 Então, o filme acumulou altíssimas expectativas que, no entanto, foram insuficientes para se preparar para a experiência toda. Hereditário não é só um excelente filme de horror, mas uma experiência perturbadora. Em seu âmago, é um filme sobre uma família disfuncional e como os pecados de nossos pais afetam quem nós nos tornamos. A estética do horror, no entanto, está marcada desde o primeiro momento do filme. É durante um funeral que recebemos os elementos que sustentam a trama. Annie (Toni Collette) precisa confrontar a morte de sua mãe e o fato de que essa não é uma perda que a deixe particularmente triste, consequência de uma vida secreta da matriarca, que resultou no agravamento de seus transtornos psiquiátricos. Seus dois filhos, Peter (Alex Wolff) e Charlie (Milly Shapiro - acho que a triz tem algum problema facial, alguma displasia, como Dustin de Stranger Things), sentem essa morte de diferentes maneiras. Peter, que cresceu acostumado com a ausência da avó, não parece se incomodar com seu falecimento; já Charlie, que cresceu sob seus cuidados, se pergunta como irá sobreviver no mundo agora que perdeu um de seus principais apoios. Esses questionamentos são ainda mais relevantes para Charlie devido a seu isolamento, fruto de algum transtorno psicológico que nunca se torna explícito; sabemos apenas que a menina tem dificuldades em prestar atenção nos outros e não mantém relações próximas com ninguém fora do círculo familiar. O pai, Steve (Gabriel Byrne), completa o núcleo central da narrativa, com uma personalidade menos marcante, mas que deixa transparecer o modo como ele toma para si a tarefa de sempre intermediar os conflitos familiares e oferecer o suporte necessário para a esposa e os filhos. 

Como o próprio argumento do filme já antecipa, a vida secreta da avó morta irá trazer consequências graves para toda a família, sobrenaturais ou não, e é com o desenrolar desses eventos que Hereditário mostra a incrível capacidade de seu elenco de dar vida e peso aos conflitos emocionais que tornam o filme tão perturbador, não só pela forma como explora o mal secreto que irá assombrar a família, mas, principalmente, pela construção de relações reais, com forte carga emocional. 

 A forma como Aster decide filmar Hereditário também reflete a profissão de Annie, uma artista especializada em fazer cenários em miniatura; a câmera distante, enquadrando determinada sala, faz com que o cenário lembre sempre uma casa de bonecas. Conforme chega ao seu desfecho, Hereditário se aproxima cada vez mais do horror sobrenatural e se afasta do drama familiar. Essa é uma progressão natural do filme, porém que faz com que cada vez mais elementos grotescos sejam introduzidos, a ponto de que espectadores mais desatentos possam ficar confusos em relação ao que está acontecendo na tela. Essa incerteza faz parte da forma como o filme constrói o medo e a angústia constante, porém é também o que pode afastar parte do público. 

O final lembra bastante o final de A Bruxa e, ao mesmo tempo, não. É quase a mesma coisa, mas de outro jeito. Não se trata, no entanto, de um final aberto e sem resposta, já que cada imagem de Hereditário foi produzida minuciosamente para que a repetição de certos elementos deem pistas sobre o sentido global por trás da trama, desde objetos espalhados pelo cenário até reações quase imperceptíveis de figurantes no fundo da tela.

Gostando ou não do filme, o gênero horror mais do que chocar, é pra nos tirar de qualquer zona de conforto. 


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